São Paulo, sexta-feira, 30 de março de 2001

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A maior das capas

"Secos & Molhados", que revelou Ney Matogrosso em 73, vence a enquete "qual a melhor capa de disco da música brasileira", promovida pela Ilustrada

Divulgação
1 "SECOS & MOLHADOS" "Ficamos lá na madrugada inteira, sentados em cima de tijos", lembra, João Ricardo, em 1973 um dos líderes dos Secos & Molhados. "Fazia um frio horroroso debaixo da mesa. Em cima queimava, port causa das luzes", continua Ney Matogrosso, voz aguda e alma do grupo. João: "Comprei os mantimentos no supermercado, a toalha foi improvisada com um plástico qualquer, a mesa era um compensado fino que nós mesmos serramos para entrarem as cabeças". No final da madrugada, o trabalho terminou. "Tínhamos fome e estávamos duríssimos, fomos tomar café com leite. Não sei por quê, mas não me lembro de termos comido os alimentos da mesa" diz João. Nasciam os Secos & Molhados. Clique aqui e veja as capas mais votadas

LÚCIO RIBEIRO
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

A capa do álbum "Secos & Molhados", lançado em agosto de 1973, com as cabeças dos quatro membros do grupo servidas à mesa, é considerada a melhor da história da música brasileira, segundo enquete realizada pela Ilustrada com 149 personalidades da música, fotógrafos, artistas plásticos, jornalistas e outros.
Essa capa do primeiro disco da ex-banda de Ney Matogrosso obteve 23 votos e superou "Todos os Olhos" (também de 73), de Tom Zé, que conseguiu 14 votos e colocou o olho que era um ânus na segunda posição. A terceira mais citada é a capa de "Índia", em que o ventre e o baixo ventre de Gal Costa aparecem só de tanga microscópica, no mesmo ano de 73, com 11 votos.
"Tropicália ou Panis et Circencis", disco-manifesto abrigado em capa-manifesto de criação coletiva do grupo tropicalista em 68, é a quarta mais votada: dez votos.
Com nove citações, chega a capa do disco "Transa" (72), de Caetano Veloso -na versão original em LP era um álbum-objeto montável que, desdobrado, virava um triângulo tridimensional.
A lista prossegue, colocando ainda entre os vencedores o conceitual "disco da mosca" de Walter Franco ("Ou Não", mais um de 73), com oito votos, "Milagre dos Peixes" (de, adivinhe, 73), de Milton Nascimento, com seis, e, empatados com quatro votos, "Acabou Chorare" (Novos Baianos, 72), "Fa-tal" (Gal, 71), "Minas" (Milton, 75) e "Secos & Molhados" (74).
Entre os artistas com mais capas citadas pelos votantes, os Secos & Molhados e as capas de seus dois primeiros LPs também ficaram em primeiro. Seguem-nos, embolados, Gal Costa (sete títulos) e Milton Nascimento e Caetano Veloso (ambos seis títulos cada).
Os convidados a votar na enquete pensaram no termo "melhor" de forma livre, como a mais bonita, impactante, importante, significativa e/ou afetiva capa da música brasileira, escolhendo discos discos desde Pixinguinha até o mangue beat de Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, por exemplo.
Nesta página e nas E 4 e E 5, lembram-se histórias e bastidores da produção das cinco melhores capas e se investiga o mundo paralelo à música que se pode descobrir admirando as capas de seus LPs.
A enquete é inspirada nos livros "100 Best Album Covers", de Thorgerson & Powell, lançado nos EUA em 1999, e "Q's 100 Best Record Covers", que acaba de sair na Inglaterra e é organizado pela revista "Q" (leia nesta página).
Sobre a capa brasileira "campeã", segundo lembram os ex-integrantes dos Secos & Molhados Ney Matogrosso e João Ricardo, a idéia foi inspirada em trabalho do fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues, que havia feito uma foto com sua mulher "decapitada" e servida numa mesa com sangue.
Amigo de João Ricardo e então fotógrafo do jornal "Última Hora", Rodrigues foi convidado a desenvolver a idéia no disco de estréia do grupo que já começava a sacudir o Brasil com visual ultra-andrógino e sucessos como "O Vira" e "Sangue Latino". Propôs juntar alimentos às quatro cabeças, para sugerir uma seção de "secos & molhados" de armazém.
Hoje, Ney dá ao ato um teor político/subversivo: "Estávamos oferecendo nossas cabeças. As caras maquiadas eram para não nos reconhecerem. Era agressiva. Nós éramos agressivos. Coloque-se no meu papel, num país machista, em plena ditadura. Era agressivo por tática. Senão seriam comigo".
À parte tantas idéias, a censura proibiu faixas devido às letras, mas não a capa, que passou ilesa para a história.

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