São Paulo, domingo, 24 de setembro de 2006

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Performance anônima

A dinâmica do espetáculo depende do consumo de conteúdos irrelevantes

JULIANA MONACHESI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Imersos no cotidiano de uma vigilância constante, seja por câmeras de segurança, seja por câmeras fotográficas embutidas em celulares e demais apetrechos que capturam imagens em vídeo, presentes em absolutamente qualquer reduto habitado do planeta, seríamos todos performers, encenando nossas ações no mundo?
O episódio envolvendo a apresentadora da MTV Daniella Cicarelli nesta semana -um vídeo veiculado no You Tube que em poucas horas atingiu picos de "nanoaudiência"- levanta esta e outras questões a respeito dos fenômenos midiáticos em tempos de sociedade do controle e do espetáculo.
Em entrevista à Folha, a professora da Pontifícia Universidade Católica de SP e teórica de novas mídias Giselle Beiguelman fala sobre o tema e sobre a diferença entre produtos da dinâmica do espetáculo e obras de artistas que se nutrem do fenômeno para criticá-lo, como é o caso do vídeo "Uma", do artista plástico Caetano Dias, exibido no 1 Festival Latino-Americano de Cinema de São Paulo, em julho deste ano, e que será apresentado na Paralela 2006, em SP, em outubro.
Registro de um casal que transa no mar, alheio à grande movimentação na praia de Guarajuba, na Bahia, o vídeo acompanha o princípio de conversa entre uma mulher negra e um homem branco, o encontro e o abandono. A investida poética de Caetano Dias trata da espetacularização das patéticas performances humanas.

 

FOLHA - O vídeo da Daniella Cicarelli com o namorado em uma praia na Espanha se torna, em questão de horas, objeto de interesse de milhões de internautas, sem que se saiba quem filmou. O fenômeno midiático na era da internet é necessariamente sem autoria e de propriedade coletiva?
GISELLE BEIGUELMAN
- O anonimato dos produtores de mídia é uma constante na história das comunicações de massa. "As Ilusões Perdidas", de Balzac, publicadas no século 19, são um excelente ponto de partida para essa reflexão. Quantas pessoas sabem o nome do diretor do "Jornal Nacional"?
O que a internet tem de diferente de outras mídias é que nela regimes de autoridade, e não de autoria, podem ser questionados e o fato de explicitar que o espectador não é um legume. É crítico e cúmplice.

FOLHA - Pode-se afirmar que o vídeo atualiza o conceito de performance? Ou seja, dado que vivemos em um mundo mediado, um casal namorando em uma praia cheia de gente está, necessariamente, encenando suas ações?
BEIGUELMAN
- Não podemos confundir superexposição com performance. Vivemos uma experiência cotidiana tão mediada por câmeras e telas que o ato mais banal assume contornos de encenação programada. Nem a performance é isso nem me parece que o gesto do casal tivesse esse cunho. Há quem diga que foi tudo armação. Pode ser. Mas aí voltamos à sociedade do espetáculo e tudo fica claro, numa espécie de tributo e atualização de uma das máximas de Andy Warhol. Segundo esse expoente da arte pop, no futuro, todos teriam 15 minutos de fama. A internet alargou esse campo, possibilitando que todos possam ser célebres com alguns cliques. Se isso for verdade, performática, então, foi a ação de quem viu, gravou e publicou um material com conteúdo irrelevante e que foi notícia durante toda a semana.

FOLHA - Com a proliferação de tecnologias capazes de registrar e difundir qualquer tipo de informação (sejam texto, fotografia ou vídeo) em tempo real, existe diferença entre as esferas pública e privada? Celebridades midiáticas têm privacidade na sociedade hipermidiática?
BEIGUELMAN
- É preciso diferenciar notícia de informação. Os meios hoje permitem grande capacidade de produção e difusão de notícias, mas não necessariamente de informação. A dinâmica da sociedade do espetáculo, analisada por Guy Debord, pensador fundamental do século 20, e ironizada por Fellini em "La Dolce Vitta" depende do consumo de imagens e de uma disponibilidade de alguns para ser protagonista desse espetáculo.
Estamos falando de mercado. Em nosso contexto, mediado por câmeras, mensageiros on-line, cartões de fidelidade, o que temos é a consolidação da sociedade de controle, o estado de vigilância distribuída, no qual a privacidade se torna uma mercadoria de luxo, que nunca será entregue na sua totalidade.

FOLHA - A obra de Caetano Dias, que flagra um casal em situação idêntica à de Cicarelli, dá margem a que se veja o vídeo que circulou no You Tube como jornalismo ou arte?
BEIGUELMAN
- O vídeo de Cicarelli que circulou no You Tube, em si, é apenas sintomático do tipo de sociedade do espetáculo e da vigilância distribuída em que vivemos. Não é arte nem jornalismo. Já o de Caetano Dias assim como os auto-retratos manipulados da fotógrafa Helga Stein se nutrem desse sintoma para banalizá-lo de uma forma tão extrema que operam sua crítica. O que os distancia do vídeo que circulou no You Tube é que agenciam sentidos e relações cognitivas, ao contrário do primeiro, que pretende participar da dinâmica do espetáculo e da sociedade de controle.

FOLHA - Quais os parâmetros para definir o que é hoje um fenômeno midiático?
BEIGUELMAN
- O fenômeno midiático está sempre associado ao domínio rigoroso da mecânica de um meio de comunicação e ao reconhecimento do contexto de veiculação. Basta lembrar do impacto da transmissão de "A Guerra dos Mundos", pelo grupo de radioteatro de Orson Welles, em 1938. Sem a situação de tensão da Segunda Guerra e sem o domínio técnico e de conteúdo do rádio, jamais conseguiria mobilizar um país como mobilizou.
Na era da internet, há uma certa flexibilização dos canais de comunicação. Não é mais necessário trabalhar na CBS, como o grupo de Welles, mas ainda é preciso eleger o canal correto de divulgação e ter a expertise de saber o que pode vir a ser notícia ou, pelo menos, fato passível de consumo.


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