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São Paulo, domingo, 26 de janeiro de 2003

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Pesquisas recentes confirmam que existe um fundamento físico para determinadas depressões

PARA COMPREENDER A "VIDA DURA"

por Isaias Pessotti

Depressão significa, literalmente, variação quantitativa para baixo, uma redução de nível. Nível do terreno, da água no reservatório, da frequência com que alguém procura outras pessoas, ou se dedica a atividades produtivas ou criativas, ou a novos relacionamentos afetivos. O significado clínico original de "depressio" era abatimento, retraimento: condições que compõem o padrão de tristeza. Na psicopatologia mais antiga, desde Hipócrates, no século 5 a.C., essas condições, quando duradouras e acompanhadas por delírios tristes ou pessimistas, podiam ser sintoma de uma doença humoral; a loucura triste, a melancolia, produto da "meláina kolé", a bílis negra, a "atra bilis". Assim, a depressão jamais foi uma doença: era um sintoma, eventual, da melancolia. O tratamento prescrevia, além de dietas, poções ou fármacos que corrigissem o desarranjo humoral, práticas outras que configuravam uma primitiva psicoterapia. Celsus (42 a.C.- 37 d.C.) prescreve: "É preciso afastar do doente todas as causas de medo. Deve-se procurar distraí-lo com contos e jogos que mais lhe agradavam no estado de saúde. As suas obras, se as realizar, devem ser elogiadas com afabilidade e deixadas perto dele. Suas tristes fantasias serão combatidas com suaves admoestações, fazendo-lhe perceber que, nas coisas que o atormentam, ele deve achar motivos de encorajamento e não de inquietação". Ao lado do tratamento físico (farmacológico), note-se, emprega-se uma psicoterapia de reengajamento nos comportamentos deprimidos. E Sorano de Éfeso [médico romano, c. 98-138" admite que sintomas da melancolia podem ser a prostração (depressão do vigor físico), tristeza, má disposição diante dos parentes, além de idéias persecutórias, prantos sem motivo etc. Depressão é, pois, mero sintoma, entre outros. O tratamento inclui cataplasmas relaxantes sobre o epigastro (para relaxar as fibras nervosas e outras), assistir a comédias, escrever discursos (que devem ser elogiados com entusiasmo). Os iletrados devem ser motivados a exercer seus ofícios, com efusiva aprovação dos familiares. Os músicos devem ser encorajados a tocar seus instrumentos preferidos. Como se vê, além do tratamento físico, também Sorano adota alguma psicoterapia, que restaure a auto-estima e o engajamento em atividades criativas. Mas a depressão, enquanto tristeza, abatimento ou retraimento, não tem nenhum significado clínico se não for acompanhada de "imagens fantásticas", como afirma Galeno (séc 1 d.C.). Só nesse caso ela será sintoma de melancolia.

A dura realidade
Desde Plater (1625) até o "Traité" de Pinel (1801) [Philippe Pinel (1745-1826), "Traité Médico-Philosophique sur l'Aliénation Mentale, ou la Manie"", sem algum tipo de pensamento delirante não há mania (loucura exaltada, com certa hiperatividade física e mental) nem melancolia (loucura deprimida, com abatimento ou tristeza). Mais ainda, essas doenças podem agora ter origem puramente afetiva, passional. Podem resultar das condições adversas da vida afetiva, do confronto inevitável da "dura realidade". Será essa a concepção da melancolia, para os principais autores oitocentistas, depois de Pinel. Como Esquirol, Heinroth, em 1818, especifica o conceito, com o nome de "astenia", o equivalente grego da "depressio" latina: a astenia pode ser "depressão do sentimento e da imaginação, com concentração triste em si mesmo", ou "depressão da faculdade de pensar e/ou perda de noções", ou, ainda, "depressão eletiva da vontade, incapacidade de determinação a agir". Embora sintoma, a depressão agora pode se referir a atividades mentais (cognitivas e afetivas). Chama a atenção nessa trajetória do conceito de depressão-melancolia a mudança na indagação etiológica: na Antiguidade a causa era física, algum desarranjo humoral (hoje se diria bioquímico); desde Pinel, os contratempos afetivos (passionais) também podem causar a melancolia (ou a mania). Mas as alterações nas funções mentais, causadas por conflitos ou frustrações afetivas, são em última análise processos ocorridos no organismo. Qual é a estrutura cerebral afetada ou o tipo de disfunção cerebral específicos para os casos de mania ou de melancolia (astenia)? As laboriosas pesquisas anatomopatológicas levavam a resultados inconclusivos. Então, talvez, a mania, a melancolia e outros quadros clínicos não fossem doenças reais, mas artificiais, meras manifestações, distintas, mas resultantes de algum fundo doentio, mais genérico -que seria a verdadeira doença, natural. Subjacente às já clássicas mania e melancolia, agora doenças aparentes, simples expressões, sintomáticas, de alguma constituição orgânica geral, predisponente. A definição desse "fundo doentio predisponente" foi o grande desafio da psicopatologia desde Morel (1860) e Falret (1860). Trata-se de uma condição constitucional, eventualmente hereditária, que explicaria por que os contratempos afetivos ou distúrbios encefálicos só resultam em mania ou em melancolia em algumas pessoas, e não em outras. Ou por que algumas depressões (retraimento, desengajamento social ou afetivo) resultam em melancolia para algumas pessoas e são meros episódios normais, de uma "vida dura", para outras, Kraepelin, em 1915, classifica as patologias depressivas como "estados constitucionais depressivos" e, com isso, permite falar em depressão "constitucional", isto é, resultante de uma predisposição orgânica. É o fundamento da idéia de que há depressões endógenas, independentes das experiências da vida social ou afetiva. Uma idéia que encontra eco em pesquisas recentes. Obviamente, para uma depressão patológica, causada seguramente por alguma disfunção na bioquímica neuronal, a terapia ideal e eficaz pode ser algum fármaco que corrija tais disfunções. Mas a clínica mostra que essas depressões "endógenas" não são tão frequentes como as depressões outras, resultantes das dificuldades afetivas ou sociais, casos em que o fármaco pode ser ineficaz, inútil. Isso se, além do alívio do sofrimento (episódico), se pretende uma real cura. O vago conceito de "fundo orgânico predisponente", eventual gerador dos estados depressivos "constitucionais" e de outras patologias, passa por uma reformulação fecunda a partir da obra de Bleuler (1908). Nela ele perde o fatalismo que lhe atribuíram Morel e, até certo ponto, Kraepelin, depois de Krafft-Ebing. Bleuler não rejeita a existência de fatores predisponentes orgânicos (fisiológicos, bioquímicos ou endócrinos, por exemplo). Mas afirma que a ação deles não é absoluta, é mediada por processos psicodinâmicos subjacentes. As formas maniacais, histéricas ou depressivas (melancólicas) são, sim, manifestações de processos doentios mais amplos, mas processos de natureza pessoal, nos quais as condições orgânicas de base devem interagir com resistências da pessoa, singular. Resistências mais fortes ou mais fracas. Para Bleuler, então, as diversas depressões são apenas manifestações não de uma determinação orgânica inexorável, mas de uma certa "personalidade", isto é, são resultados de uma interação única entre um repertório ou uma história pessoal de sentimentos e motivações com condições constitucionais puramente orgânicas.

Cultura depressiva
É nessa concepção etiológica que se fundam duas idéias atuais: uma, a de que as condições socioeconômicas ou os modelos educacionais podem fortalecer ou enfraquecer a "personalidade" (incluindo auto-estima, valores pessoais, história afetiva etc.) e, desse modo, aumentar ou reduzir as "resistências da pessoa" às contingências traumáticas ou desestabilizantes da vida cotidiana; outra, a de que a psicoterapia (formal ou não), apenas ela, pode fortalecer preventivamente ou restaurar essas resistências.
Vivemos hoje numa cultura cada vez mais depressiva, como adverte Roudinesco [Elisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa". Mais depressiva não só porque o cotidiano é penoso, repleto de frustrações, fracassos e decepções desanimadoras, mas, principalmente, porque gera "personalidades" frágeis, pouco resistentes à frustração, à perda, ao fracasso, à incompreensão do outro. E, por isso, mais susceptíveis à desestabilização diante das agruras normais da vida ou diante de alguma hipotética predisposição orgânica.
Quando a depressão não é claramente endógena e, portanto, tratável com fármacos, é da psicoterapia que se pode esperar alguma cura ou prevenção. O fármaco pode aliviar o sofrimento, como o álcool pode fazer esquecer a perda de um afeto, mas o álcool não traz de volta o amor perdido, nem o remédio traz a restauração da auto-estima, a reavaliação de seus afetos, a redefinição de seus valores. Ou, em resumo, a recuperação da própria significação no mundo.
Uma tarefa gigantesca, a da psicoterapia, nestes tempos em que tudo parece conspirar para sufocar a "pessoa" e anular a subjetividade. Seja banalizando o sentimento e os valores pessoais, já que cada um vale menos pelo que sente ou sabe, do que pelo que consome (prestígio, posses, sucesso social) e pelo que produz (produtividade, "profissionalismo", competitividade).
Não espanta, pois, que se fale em epidemia de depressão. O que há, na verdade, é uma sociedade depressiva e uma epidemia de diagnósticos de depressão. Há uma situação de "vida dura" que implica frequentes frustrações, fracassos, decepções e na qual a subjetividade de alguns resiste mais que a de outros: alguns são mais resistentes aos contratempos da vida, embora também sofram. Mas estão mais prontos para o sofrimento, talvez porque sejam mais confiantes em suas possibilidades, mais firmes em seus valores ou, simplesmente, mais resignados (e, portanto, mais fortes). Em resumo, têm uma sólida subjetividade. Ou, noutros termos, um "eu" mais sólido.
Há uma epidemia de diagnósticos. Explico: primeiro, porque tais diagnósticos, via de regra, são baseados num quadro de sintomas pré-catalogados por algum manual. São diversos, e suas combinações são várias. Assim, muitas pessoas se "encaixam" no diagnóstico de depressão, quando se prescinde das demoradas indagações etiológicas da psiquiatria tradicional ("time is money", também para o paciente); segundo, porque o decurso da doença "per se" (ou transtorno, ou distúrbio) cada vez interessa menos do que a eventual remissão dos sintomas. À medida que o quadro sintomático passa a "ser" a doença, a cura será a remissão dos sintomas. Então, o diagnóstico favorece a prescrição do fármaco que os abole. A resistência pessoal ao sofrimento e aos infortúnios da vida permanecerá intocada.
Graças aos meios de comunicação de massa, à farta propaganda da indústria farmacêutica, à difusão do DSM, manual de quadros diagnósticos oficial, com mais de mil quadros psiquiátricos, a vida se psiquiatrizou. "Depressão" e, mais recentemente, "síndrome do pânico" fazem parte da linguagem cotidiana em numerosos grupos sociais. E são já popularmente empregadas como "diagnósticos" por ampla variedade de pessoas. Ao ponto de "depressão" ter-se tornado sinônimo de desânimo, tristeza, decepção, frustração etc. São estados normais do que antes se designava "vida dura".
Encontrar um nome para a ameaça ou o sofrimento é uma forma de reduzir a ansiedade. Um diagnóstico médico de depressão reduz a ansiedade do paciente, dá um nome ao seu fantasma. E lhe permite abrir mão de ulteriores indagações sobre si mesmo, nem sempre agradáveis. Ser rotulado, assim como rotular, é cômodo. E, diante da influência higienista da "mídia", a apregoar a necessidade de estar sempre sadio, hígido, de corpo e de mente, qualquer sensação de anormalidade pode parecer sintoma de doença, de estar anormal, necessitando de tratamento. Como se normalidade não incluísse perdas e sofrimentos, desafios e impotências, mas fosse um estado de anestesia permanente. Há caminhos para esse hedonismo higiênico: a dependência de fármaco ou, talvez, certas formas de esquizofrenia. São caminhos para abdicar da (dura) afirmação da própria subjetividade e se tornar mero objeto. Imune ao sofrimento, às escolhas, aos riscos do viver. Às depressões da vida.


Isaias Pessotti é escritor e ex-professor titular de psicologia da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto (SP). É autor de "Os Nomes da Loucura" e "O Século dos Manicômios" (ed. 34), entre outros.


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