São Paulo, domingo, 28 de março de 2004

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

+ história

Na ausência de biografias definitivas, decantado apoio do sociólogo Gilberto Freyre ao golpe de 64 pode ser rastreado em artigos publicados em jornais da época

Uma questão de ordem


Freyre transformou sua coluna semanal em tribuna para exaltar a "saudável presença das Forças Armadas na vida pública brasileira"


Túlio Velho Barreto
especial para a Folha

De forma recorrente, o efusivo apoio do sociólogo Gilberto Freyre (1900-87) ao golpe militar de 1964 ganha status de enigma. Isso acontece porque inexiste uma biografia de Freyre que ultrapasse os enfoques culturais de sua vasta obra ou pontuais de sua longa vida. Daí resulta alguma dificuldade para que sejam estabelecidas relações entre seu breve exílio, provocado pela Revolução de 30, sua eleição para deputado federal constituinte, após o Estado Novo (1937-45), com apoio da esquerda, e seu comportamento diante do golpe de 64. Embora trate aqui dos artigos de Freyre publicados pouco antes e logo após o golpe, em especial contra a permanência do reitor da Universidade do Recife no cargo, darei algumas pistas de como tenho tentado propor a resolução do referido enigma. Isto é, quando ocorreu a Revolução de 30, Gilberto Freyre era secretário particular do governador deposto, com quem foi exilado. Apesar disso e da reação dos conservadores a "Casa-Grande e Senzala", Freyre freqüentou o Catete durante o Estado Novo e foi convidado para o cargo de ministro da Educação, que recusou. Getúlio Vargas ofereceu-lhe, então, uma embaixada, Londres ou Lisboa, sem sucesso. Nos anos 40, o escritor teve atuação política mais ativa quando universitários pernambucanos passaram a usar suas idéias sobre raça e cultura como contraponto àquelas professadas pelos nazistas. E, pela mesma razão, se aproximou da esquerda. Assim, participou da redemocratização e se elegeu deputado constituinte pela Esquerda Democrática. Mas, mesmo filiado à UDN, ele se apresentou como candidato independente. No início dos anos 60, Freyre já se relacionava com o general Castello Branco, então comandante do 4 Exército, em Recife. "Gilberto apoiou a Revolução de 64. Ele era amigo de Castello Branco, que vinha muito à casa de Apipucos, chegava muitas vezes às seis horas da manhã, com o jornal debaixo do braço, e ficava no terraço esperando que papai o atendesse. Ele acordava muito cedo e os dois iam conversar", narrou seu filho em entrevista recente. Em 11/4/1964, o mesmo Castello Branco, já chefe do Estado-Maior do Exército, tornou-se o primeiro presidente do novo regime.

Intelectual do regime
Dessa forma, não causou surpresa o convite para que assumisse o Ministério da Educação, cargo que, apesar da "inesquecível emoção", novamente declinaria em razão de seus compromissos "quase sagrados com a vocação máxima de escritor". Poderia, entretanto, assumir "missões extraordinárias", quando fosse "oportuno ou necessário", segundo telegrama ao general-presidente. Também não deve causar estranheza a recusa. Ademais, tal decisão só robusteceu sua autoproclamada independência intelectual e política. Na verdade, em nome dela, ao longo da vida, Freyre fez parte do establishment sem precisar, de fato, integrá-lo. Em 1964, com a idade do século, tornou-se, enfim, "o" intelectual do regime.
Assim, transformou sua coluna semanal nos jornais de Assis Chateaubriand em tribuna para exaltar a "nova e saudável presença das Forças Armadas na vida pública brasileira" e lembrar que já escrevera artigo para uma revista internacional destacando o caráter suprapartidário das Forças Armadas brasileiras, "cuja intervenção na vida pública ocorreria apenas, de modo decisivo e superior, em momento de agudo desajustamento internacional ou interpartidário e para sobrepor aos interesses facciosos, em conflito ou em choque extremado, o interesse ou a conveniência autenticamente nacional".
Ou seja, o que acabara de ocorrer. Tal idéia passou a ser recorrente na coluna e em publicações acadêmicas.
Mas, um mês antes do golpe, Freyre havia escrito sobre a presença do embaixador soviético em Recife, que se fazia acompanhar de professores universitários pernambucanos, e não de líderes comunistas. Aproveita para ressaltar a importância que a "Rússia Soviética" dava às universidades e à pesquisa científica, pois lá "as universidades, em vez de cuidarem de campanha de alfabetização, cuidam de preparar elites não só de técnicos como de cientistas. Não se esquivam ao que possa ser considerado aristocrático nas tarefas que cabe às universidades desempenhar. Não se deixam dominar por um descabido democratismo que resultasse na anulação da elite".
Na verdade, o artigo era um pretexto para criticar o reitor da Universidade do Recife (hoje, Universidade Federal de Pernambuco). Em "Vida e Mimesis" (ed. 34, 1995), [o crítico] Luiz Costa Lima relembra que, no início de 1963, foi convidado para assumir a editoria da recém-criada revista "Estudos Universitários" e explica: "O reitor cogitava romper o caráter rançoso -mais rançoso do que apenas reacionário- da instituição, criando, simultaneamente, uma rádio cultural, um serviço de extensão e uma revista. A primeira seria dirigida [por] José Laurênio de Melo e, o segundo, por Paulo Freire. Em breve, o serviço de extensão se converteu no centro de preparação do método de alfabetização idealizada por Paulo". Em outras palavras, o reitor operava uma pequena revolução cultural na instituição, o que suscitava reações dos intelectuais conservadores.
Então veio o golpe, o convite e a recusa para assumir o Ministério da Educação, o que não significava abrir mão de um poder, que Freyre sabia possuir -quer por sua estatura intelectual, quer por relações pessoais. Muito pelo contrário. Após três artigos em que exaltava as Forças Armadas, ele escreve: "Várias são as pessoas que me vêm interrogando acerca da minha opinião em face da permanência do ilustre professor João Alfredo da Costa Lima como Reitor da Universidade do Recife". O preâmbulo servia, apenas, para expor um claro objetivo: "A Revolução de 31 de março, para ser fiel a si mesma, está obrigada a afastar de comandos importantes os responsáveis por uns tantos extremos nos últimos anos do Governo deposto, nefasto precisamente pelo que nele se vinha requintando, ora como conivência, ora como complacência com a infiltração comunista no Brasil".
Em cruzada contra a permanência do reitor no cargo, Freyre argumentava que a considerava incompatível "com uma nova fase na vida brasileira, de corajosas reformas, de estilo de Governo e de normas de administração". Além disso, representava "uma negação da justiça revolucionária" e poderia tornar o esforço revolucionário vão, afirmava enfaticamente. Até porque, para ele, é preciso que a "revolução não tema ser ou parecer Revolução pelo receio de desagradar certos liberalões dos Estados Unidos ou da Europa ou Caracas". Por isso, critica a comissão criada para investigar o reitor, pois, em outros órgãos, a substituição de dirigente foi imediata.
Embora o reitor resista, Freyre passa a especular sobre quem poderia assumir o cargo, ao mesmo tempo em que se "consola" com nomeações ocorridas na esfera estadual. Finalmente, em junho, João Alfredo é afastado. Freyre, então, muda de assunto e se volta para os "compromissos quase sagrados" com sua vocação de escritor, intelectual e politicamente, independente. Ou seja, mantém o mesmo comportamento que, na década de 40, levou João Cabral de Melo Neto, seu primo, a denominá-lo "ditador intelectual desta boa província".


Nota As citações de Gilberto Freyre foram extraídas de duas reportagens e 12 artigos publicados no "Diário de Pernambuco" entre 1/3 e 21/6/64.

Túlio Velho Barreto é cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco.



Texto Anterior: + cultura: A teologia de Pôncio Pilatos
Próximo Texto: Ponto de fuga: O sabiá no azul
Índice


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.