São Paulo, domingo, 29 de agosto de 2004

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Macbeth e Hamlet chegam aos céus

"A Arte Sagrada de Shakespeare" interpreta a obra do dramaturgo inglês como um meio de ascensão espiritual

Barbara Heliodora
especial para a Folha

É traduzida agora a obra de Martin Lings, "A Arte Sagrada de Shakespeare" [ed. Polaris], agora em quarta edição na Inglaterra. O dr. Lings, grande autoridade em religião comparada, área na qual tem vasta obra publicada, dedicou-se também, ao longo dos anos (ele nasceu em 1909) ao estudo e ao ensino da obra de William Shakespeare [1564-1616]. Neste livro, em particular, o autor busca entrelaçar seus dois grandes campos de interesse, por intermédio de uma análise, excepcionalmente pessoal, das obras do que ele chama a maturidade de Shakespeare, que engloba o que ele escreveu a partir de "Hamlet", a não ser pela exceção das duas partes de "Henrique 4", que datam de três ou quatro anos antes. Quando digo que "A Arte Sagrada de Shakespeare" é muito pessoal é porque o livro obviamente se enquadra dentre aqueles que são redigidos com o objetivo exclusivo de comprovar uma visão individual, preestabelecida. Se antes era chamado de "O Segredo de Shakespeare", o título foi agora alterado porque os editores, segundo nos informa Lings no "Prefácio", "não deixavam transparecer que tal segredo é o profundo significado místico de suas peças, e não apenas uma teoria sobre sua identidade".

Preparação futura
A seguir, o erudito autor afirma que não tem dúvidas de que "Shakespeare" seja William Shakespeare, nascido em Stratford-upon-Avon, porém sua mais firme convicção é a de que os valores que têm mantido vivas as obras que examina em seu livro são valores espirituais, segundo os quais a precária caminhada desta vida não passa de uma preparação para a vida futura, depois da morte. O prestígio de Martin Lings foi suficiente para que pudesse merecer uma "Apresentação" do príncipe de Gales, que, a par de respeito e elogios, admite "que o livro do dr. Martin Lings será visto como demasiadamente esotérico por muitos". Disso não pode haver dúvida: Lings circula com tal facilidade pelos conceitos da teologia e de toda espécie de esoterismos que, não raro, é difícil acompanhar seu raciocínio como análise objetiva da obra de Shakespeare. No capítulo inicial, "A Arte Sagrada", Lings discorre, de modo clamoroso, sobre o seu preconceito contra o humanismo, que ele encara como um empobrecimento chocante em relação à visão medieval, a seu ver muito mais profunda, principalmente por ter como ponto pacífico a imersão diária do homem medieval em sua religião. Considerando a arte humanista limitada e insatisfatória, considera ele que, com o conhecimento dos melhores exemplos da arte oriental, da China, Japão ou Índia, o ocidental teve seu horizonte ampliado, tomando consciência do pouco alcance da arte humanista; pois quem conhece "uma grande paisagem chinesa, em que o mundo aparece como um véu de ilusão além do qual, quase visível, reside a Realidade Infinita e Eterna... encontra dificuldade em levar a sério uma pintura como a famosa "Madona", de Rafael, ou a "Criação", de Michelangelo". É a partir desse apaixonado ponto de vista que realmente, com freqüência, o livro parece preconceituoso. Segundo Lings, o maior mérito de Shakespeare, em sua maturidade, foi ter revertido seu pensamento para a postura espiritual da Idade Media e -nas grandes tragédias assim como nos romances finais- retratar regularmente um universo que se aproxima da visão de Dante Alighieri na "Divina Comédia". Um problema para a aceitação das teorias de Lings é o de ele conseguir considerar quase que paralelos, por exemplo, os processos de Hamlet e de Claudio -com descidas ao Inferno, seguidas de dolorosas subidas ao Purgatório, para alcançar, no máximo a que pode chegar o ser humano, a antevisão de um Paraíso futuro. Essa trajetória é aplicada a todos os processos das tragédias e romances, ignorando tudo o que já foi escrito a respeito dos mesmos. Buscando usar as peças como expressão de sua visão, Lings não hesita em forçar interpretações ou em imaginar até mesmo falas inteiras, que serviriam para expressá-la. Essas, "na certa" foram omitidas pela economia da forma dramática ou por perdas eventuais devidas à passagem do tempo. Com a constante preocupação em identificar certos personagens como alma e outros tantos como espírito, Lings contorce e distorce o que Shakespeare escreveu, a fim de transformar a obra do autor que tanto admira em uma dramaturgia espiritual. Para alcançar seus fins, o exegeta manipula como quer o que foi escrito, alegando não transparecerem suas idéias, nas encenações, por cegueira ou erro filosófico dos diretores. Não pode ser posta em dúvida a erudição de Lings na área da teologia, porém, mesmo que seja leitura interessante, é impossível não sentir que os dados estão marcados em sua interpretação.

"Suporta e sofre"
A tradução de Mateus Soares de Azevedo e Sérgio Sampaio é um problema à parte -e grave. Deixemos de lado os vários deslizes de português e também a ignorância da dupla do fato de, desde o tempo de Gil Vicente, "Everyman" ser chamado de "Todomundo", e não o canhestro "Qualquer Pessoa" que inventaram. Notemos aqui, apenas, os chocantes erros de tradução do texto shakespeariano.
Damos aqui uns poucos exemplos, entre muitos: "(...) the native hue of resolution// Is sicklied o'er with the pale cast of thought" (a tonalidade natural da resolução// É tornada doente pelo tom pálido do pensamento) aparece como "será enfraquecido pelo pálido vômito do pensamento"; "Why, what a king is this?" (Ora, mas que rei é esse?), aparece como "Por quê? Que tipo de rei é esse?"; na famosa fala de Macbeth, "a poor player// That struts and frets his hour upon the stage" (que se pavoneia e agita) aparece como "suporta e sofre" sua hora no palco; e, quando o rei da França fala de Cordélia como "this unprized precious maid", (essa menosprezada donzela preciosa), temos "esta servidora inestimável e preciosa".
Por esses e outros desastres semelhantes, não podemos culpar Martin Lings, e seu penetrante e apaixonado trabalho mereceria algo bem melhor.


Barbara Heliodora é crítica de teatro, tradutora e autora de "Falando de Shakespeare" (Perspectiva).

A Arte Sagrada de Shakespeare
334 págs., R$ 45,00 de Martin Lings. Trad. de Mateus Soares de Azevedo e Sérgio Sampaio. Ed. Polar (r. Fradique Coutinho, 1.459, CEP 05416-011, São Paulo, SP, tel. 0/xx/11/3816-3018).



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