São Paulo, domingo, 30 de setembro de 2007

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Machado de Assis por Nicolau Sevcenko

Troca de elite

Machado de Assis instila em Bento Santiago ("Bentinho"), protagonista e narrador do "Dom Casmurro", o desejo de escrever um livro.
Solitário, sentindo o peso dos anos, viúvo e morto o filho único, ele resolve escrever algo útil para as novas gerações. "Pensei em fazer uma "História dos Subúrbios" [...] relativa à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo."
O desafio desse estudo rigoroso lhe faz buscar inspiração para tarefa tão avultada. Absorto em sua sala, ele passa casualmente os olhos pelos bustos pintados nas paredes e dali salta a centelha criativa. "Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo."
"Dom Casmurro" não passaria portanto de um mero preâmbulo para a obra principal, um prelúdio para o estudo histórico da evolução urbana, incubado pela evocação das circunstâncias afetivas que marcaram a infância, mocidade e os breves anos da vida marital de Bentinho.
Tanto que ele fecha o livro anunciando já a obra: "E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve! Vamos à "História dos Subúrbios'".
O fato é que todo o processo de reconfiguração urbana do Rio de Janeiro já está simbolizado na trama do Casmurro. Bentinho admite que o título da obra é arbitrário e, no fundo, indiferente. "Não achei melhor título para minha narração (...), vai este mesmo."
De fato, "Dom Casmurro" e "História dos Subúrbios" são intercambiáveis, um livro fala do outro e o outro do um. A diferença fundamental é de ponto de vista, o primeiro tem como foco Bentinho, o segundo Capitu e sobretudo Escobar.

Conceito seminal
De origem latina, a palavra subúrbio chegou a ter alguma vigência nos círculos cultos do Renascimento.
Mas foi em especial durante a reforma urbana de Napoleão 3 que ela adquiriu a complexidade de sentidos que a torna um conceito seminal no mundo contemporâneo. Na Inglaterra estaria relacionada aos projetos das cidades-jardim e da ocupação dos bosques ao leste de Londres.
No contexto das revoluções Industrial e Francesa, uma nova camada de agentes sociais passa a dispor do espaço urbano para seus propósitos de enriquecimento, consumo, ostentação e lazer.

Nossa "Comédia Humana"
Balzac [1799-1850], que se dedicou a fazer a crônica dessas novas classes, seu sistema de valores argentários e seus devaneios de poder, exibição e expansão, denominou o conjunto de sua obra "A Comédia Humana". Poderia, com propriedade, tê-la chamado "História dos Subúrbios".
Com o advento dos veículos automotores, a intensificação das atividades, do trânsito e da população nas áreas centrais, o mercado figurou oferecer áreas privilegiadas, dotadas de infra-estrutura moderna, afastadas do centro.
Elas conjugariam o rápido acesso ao centro e o desfrute de uma paisagem ajardinada e livre de poluição, ruídos, agitação e inseguranças das novas metrópoles.
Esse era o sentido da palavra subúrbio, no contexto europeu ou norte-americano. A urbe era a área da vida rude; o subúrbio, a do privilégio e da sofisticação. A cidade era a senzala; o subúrbio, a casa-grande.
Em fins do século 19, chegaram ao Rio empresas estrangeiras oferecendo serviços de melhorias urbanas que redefiniriam os espaços sociais. O advento do regime republicano impôs um acelerado processo de substituição de elites.
Desencadeou-se por assim dizer a nossa "Comédia Humana", com as escandalosas manipulações do mercado e da política por mecanismos espúrios, como o Encilhamento, a Caixa de Conversão, a Política dos Governadores.
A atividade mais rendosa passou a ser a especulação financeira, mas, acima de tudo, a especulação imobiliária.
Machado publicou "Dom Casmurro" em 1899, no governo de Campos Salles, que consolidou as estruturas política, econômica e financeira da Primeira República. Ele tinha diante de si a obra acabada da nova camada arrivista. Não por acaso Bentinho busca inspiração nas figuras de César, Augusto e Nero, ditadores militares que se beneficiaram do colapso da república romana, estabelecendo o império. Eles eram, acima de tudo, arrivistas.
Note-se a presença curiosa de um rei númida, Massinissa, herói das guerras púnicas, que lutou com Cartago e depois foi decisivo na virada, passando para o lado romano.
As prodigiosas riquezas cartaginesas levaram de roldão as últimas virtudes e instituições republicanas.

Coronelismo e arrivismo
Bentinho acompanha a reconfiguração do espaço urbano, já que suas mudanças de residência seguem a rota de expansão dos novos subúrbios refinados. Mas há uma fundamental diferença. Quando de sua última mudança, para o Engenho Novo, ergue uma réplica exata da primeira casa, na rua Matacavalos.
Ou seja, por mais que se mova na área da especulação, ele mantém o padrão estamental e o estilo senhorial da sua origem. O personagem-chave aí é Escobar, de origem subalterna e tratado ao longo do texto [de "Dom Casmurro"] como calculista, interesseiro e negocista. Ele é o protótipo do arrivista.
Escobar faz aplicações sigilosas das verbas que Capitu recebe do marido, atuando como seu corretor particular. Essa cumplicidade clandestina aproxima os dois, tornando-os sócios. Graças a ela Escobar prospera e sai do bairro operário de Andaraí, comprando uma mansão no subúrbio sofisticado do Catete.
Capitu, por sua vez, ganha o filho desejado que Bentinho não conseguia lhe dar: o herdeiro do novo arranjo do coronelato arcaico com o arrivismo republicano.
Assim, da perspectiva do "Dom Casmurro", a traição nunca ocorreu, foi imaginada pela suspeita paranóica que senhores têm de seus vassalos. Mas, do ponto de vista da "História dos Subúrbios", é o ato da traição mesmo que revela a nova ordem social do país. Nesse sentido, a "História dos Subúrbios" é um livro ainda mais notável que "Dom Casmurro".


NICOLAU SEVCENKO é professor de história na USP e autor de "Literatura como Missão" (Companhia das Letras), entre outros livros.


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