São Paulo, domingo, 30 de dezembro de 2001

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O escritor cubano traça um amplo percurso do gênero literário mais antigo e versátil, que tem início com as primeiras epopéias, passa pelas "Mil e Uma Noites" e, no século 19, por autores como Machado de Assis e Tchecov, até chegar, no século 20, a Guimarães Rosa e Borges

Uma história do conto

Associated Press
Tabuleiro de xadrez com peças caracterizadas como personagens das histórias de Sherlock Holmes


O conto é tão antigo quanto o homem. Talvez até mais, pois podem muito bem ter existido primatas ancestrais que contavam contos feitos inteiramente de grunhidos, que são a origem da linguagem humana: um grunhido, bom; dois grunhidos, melhor; três grunhidos já são uma frase. Assim nasceu a onomatopéia e com ela a epopéia. Mas antes desta, cantada ou escrita, houve contos feitos inteiramente de prosa: um conto em verso não é um conto, mas outra coisa: um poema, uma ode, uma narração com métrica e talvez com rima: uma ocasião cantada, não contada, uma canção.
Antes até que aquele anônimo artista de Altamira pintasse seus minuciosos murais, deve ter existido um autor anônimo na região que contasse contos para seus companheiros de caverna sentados em volta de uma fogueira. O homem, como sabemos, é o único animal que faz fogo. O contista é o único ser humano que faz contos. Esses contos seriam, por exemplo, narrações de um dia de caça perdido no encalço de um cervo branco com um chifre na testa. Os contos não perduraram nas paredes da caverna, mas não se perderam: foram reencontrados, contados, na memória coletiva.
Séculos mais tarde, outro contista pegou o mesmo conto, embelezou o cervo branco e o converteu em mito ao chamá-lo unicórnio. Embora a experiência fosse alheia, tomou e fez seu o tema do unicórnio perdido. Muitos séculos mais tarde, outro contista enfeitou com metáforas (isto é, embelezou poeticamente) esse animal único com seu único chifre. Passados outros tantos séculos, o homem que conta já havia aprendido a escrever (e, é claro, a ler), e outros animais e outros homens que se transformavam em animais povoaram com contos o que chamamos mitologia, mas que para eles era essa transcendência chamada religião.
Em outro século, quando outros homens já não acreditavam nessa religião de deuses tão humanos que se confundiam com os simples mortais, um deles, um poeta chamado Ovídio, escreveu "As Metamorfoses". De religião, esses textos não tinham mais do que aqueles primeiros contos contados em volta de uma fogueira numa caverna. Isso fez do conto o gênero literário mais antigo e mais protéico.
Protéico, como se sabe, vem de Proteus, deus grego que estréia na cena olímpica com a "Odisséia", poema feito de contos. Proteus sabia tudo de tudo, mas mudava de forma para não ser interrogado. Isto é, fazia o contrário de um autor atual, que nunca muda de forma, mas procura sempre ser interrogado: pela imprensa, pelo rádio e pela televisão -e, às vezes, pela polícia. Creio desnecessário frisar que Proteus era uma metamorfose feita deus. Proteus está muito perto de prosa, que é o que os contistas cultivam. Protéico, prosaico -dá na mesma.
Os gregos, além de Homero e sua "Odisséia", cultivavam o conto, e um romancezinho, que é o que é "Dafne e Cloé", publicado no segundo ano da nossa era, foi seu provável precursor.
Mas são contos os fragmentos que fazem do "Satyricon", de Petrônio, um romance, e um de seus mais memoráveis é aquele intitulado "A Viúva de Éfeso", um conto perfeito e muitas vezes citado, copiado até. Entre outros por Jean Cocteau, poeta tão teatral que transformou o conto em peça, ganhando-o para o teatro.
O conto, logo protéico, parece desaparecer na Idade Média, mas na verdade se veste com os versos do romance, seja nos "romans courtois", onde aparece como história de aventuras, seja no "Roman de Renart", em que serve a um fabulário, não longe do zoológico de Esopo. Na saga arturiana (que não se deve confundir com a sopa asturiana, conto de favas), o romance adquire um tom mágico, quase místico, que lhe é exclusivo. Mas a história paralela do amor fatal de Tristão pela bela Isolda é, como quer Bédier, um conto de amor, de loucura e de morte cuja aura mágica não fica nada a dever aos modelos gregos e romanos.
Mas o conto, sempre recomeçado, reaparece onde menos esperariam os trovadores medievais: no Oriente.

Os árabes, entre o harém e a areia "As Mil e Uma Noites" é a mais monumental compilação de contos do final da Idade Média. Esses contos são a mais traduzida (e conhecida) literatura árabe depois do Corão. Suas histórias ("Ali Babá e os 40 Ladrões", "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa" e "Simbá, o Marujo") são hoje tão populares como quando foram traduzidas aos diversos idiomas europeus. Sua influência é perceptível desde Boccaccio e Chaucer. Mas, já antes deles, um extraordinário escritor espanhol, o infante d. Juan Manuel, incluiu em seu "Libro de los Enxiemplos" mais de um conto árabe extraído de "As Mil e Uma Noites", então reconvertidas em tradição oral.
Ao contrário do que acontece com os contos contemporâneos na Europa, "As Mil e Uma Noites" têm mil e um autores, e a esperta princesa Sherazade é um autor coletivo que conta com voz de mulher. São, em todo caso, contos de encanto, e até seu título em árabe é encantador, encantatório: "Alf Layla wa Layla". Dessa vasta coleção de contos rastreou-se a origem até o século 9 d.C. Sua última forma é do século 16. Isso quer dizer que, com seu feitiço oriental, o livro cobre quase toda a Idade Média cristã -embora diga, no início de cada conto: "... mas Allah é mais poderoso". Em seguida vem uma espécie desconhecida de poesia que as infiéis e cruentas traduções não conseguiram aniquilar. Sherazade é a mais poderosa máquina de matar o tédio e a crueldade do rei que sempre assassinava a consorte de cada noite, à exceção da contista, uma mulher amena, apesar de ameaçada.
Chaucer repetiu o esquema em seus "Contos de Canterbury", mas em verso. Quem o conseguiu em prosa foi Boccaccio, em seu imitado, inimitável "Decameron". É curioso que Cervantes, um artista supremo, tenha buscado inspiração nos contos italianos e não nos exemplos do infante d. Juan Manuel, que, diga-se de passagem, deu a Shakespeare seu "Relato de Mancebo que Casó con Mujer Brava". Acontece que Boccaccio é um contista natural, tal como a contadora de histórias árabe. Cervantes, que inaugurou o romance moderno, o mais imitado, chamou o "Quixote" de livro e de "novelas exemplares" seus contos, declarando que "de modo algum poderás fazer", leitor, "mistifório". Mas revelou seu ofício e arte: "Meu intento foi armar (...) uma mesa de carambolas". E acrescentou: "Onde cada qual encontre com o que se entreter".
Um escritor cairota, Naguib Mahfuz, em suas "Noites das Mil e Uma Noites", que o editor cataloga como romance (os editores são capazes de chamar de romance a lista telefônica, que pode não ter narração, mas tem uma porção de personagens), esse escritor consciente, demasiado consciente, tenta se tornar uma Sherazade assídua. Mas fracassa em seu intento. O livro quer ser árabe e é apenas egípcio.
Por outra lado, "Los Cuentos Negros de Cuba" são minhas mil e uma noites negras, contadas por uma Sherazade branca, Lydia Cabrera, para entreter as noites em claro de uma amiga agonizante. No final do livro, a doente já estava morta, mas os contos vivem na imortalidade da literatura. Eu os classifiquei, qualifiquei, como "antropoesia".
A trama tecida noite após noite por Sherazade, Penélope contista com milhares de pretendentes, levou muitos escritores -desde d. Juan Manuel, Boccaccio e Chaucer- a tentar uma imitação em que diversos talentos buscam emular o encantamento árabe. Poucos o conseguiram, mas um escritor nosso contemporâneo, Manuel Puig, em seu "O Beijo da Mulher Aranha", é uma Sherazade argentina que a cada noite conta um filme inventado para seu companheiro de cela, seu vizir cruel: completamente surdo às dádivas orais que lhe oferece Puigrazade -assim como é cego a suas investidas sexuais.
Edgar Allan Poe inventou com três contos -"Os Crimes da Rua Morgue", "O Mistério de Marie Roget" e "A Carta Roubada"-, ele sozinho, a literatura policial, que são o conto e o romance de mistério. Todos os cultivadores do gênero recém-criado foram seus epígonos, de Arthur Conan Doyle, criador do insólito Sherlock Holmes, a Dashiell Hammett e Raymond Chandler, romancistas que foram também contistas e, de passagem, renovaram o gênero. Uma epígona (se alguém disse "jóvenas", eu posso muito bem dizer "epígona"), Agatha Christie, disse: "O conto é o domínio natural da literatura de crime e mistério".
Muitos contistas, quase todos anglo-saxões, fizeram do conto seu hábitat, que era como uma casa mal-assombrada. Todos seguiram o ditame de Poe, que disse que o conto "é uma narração curta em prosa" e definiu o conto breve como uma peça literária que "requer de meia hora a uma hora e meia ou duas de leitura". Eis aí um importante modo de usar, "com cuidado". Mas há -ah!- leitores descuidados. Para estes, a melhor maneira de ler é no avião -e um best-seller ou livro que se compra porque se vende.
Os herdeiros de Mark Twain são tão numerosos quanto os seguidores de Poe, mas os primeiros, que chamaremos aqui humoristas, atentaram apenas para o lado luminoso da lua de Twain -sem enxergar suas regiões de sombra e de penumbra. O mais bem-sucedido deles foi Damon Runyon, com suas historietas em que o submundo de Nova York aparecia povoado de gângsteres sentimentais, jogadores sementais e uma porção de mulheres de moralidade duvidosa e um (pouco) siso legível como sexo. O cinema e o teatro, onde ninguém lê, criaram um Runyon ilustrado para iletrados. Runyon, que fazia rir, ia ao banco sempre rindo.
Não foram só os contistas com humor que tiveram sucesso popular. A partir do século 19, houve também quem cultivasse -e fosse popular por algum tempo- essa estranha e elusiva planta chamada "conto fantástico". Na Inglaterra, onde se desperdiçara a tradição realista iniciada por Chaucer, houve muitos autores de fantasias cujo objetivo não era induzir o sonho, e sim o pesadelo. Lembro, entre outros, Arthur Machen, Saki e Roald Dahl.
Na Irlanda, terra de luzidas lendas nada lúcidas, Sheridan le Fanu foi um contista de mistério e terror cuja coleção "In a Glass Darkly" (em Dublin, cidade alcoólica, tomam o espelho, "glass", como copo, e o livro se chama "Em um Copo Escuro") é um dos clássicos do conto de terror como horror. Sua contrapartida foi mais tarde o norte-americano H.P. Lovecraft, um precursor da ficção científica, gênero praticamente inventado por H.G. Wells na Inglaterra. A ficção científica encontrou no conto sua forma perfeita para uma arte imperfeita. Vale registrar que todos os mestres do conto de horror anglo-saxão têm, também eles, em Poe seu antecessor primordial.
É preciso abrir aqui um parágrafo para Rudyard Kipling, talvez o maior contista inglês de todos os tempos. Kipling não fica nada a dever a Poe ou a Mark Twain, e é para a Inglaterra o que Maupassant foi para a França e Tchecov para a Rússia: um contista natural. Começou publicando em jornais indianos e, quando afinal foi a Londres, então o centro do universo literário, tinha apenas 20 anos (Kipling é quase nosso contemporâneo, morreu em 1936). Deixara para trás a Índia, embora fosse justamente seu lado muçulmano, mais do que o hindu, o que mais lhe interessava no subcontinente.
Kipling cultivou todas as modalidades do conto, do monólogo à conversa, sendo alguns de seus contos feitos inteiramente de digressões, como queria Sterne, mas também de invenções memoráveis. E muito antes que Conrad ou Somerset Maugham descobrissem o mundo exótico do Oriente. Com a diferença de que, para Kipling, nascido em Bombaim, aquilo era a vida vivida e vívida.
A França não teve um Chaucer, mas teve um mestre do conto no século 18, tardio, mas nada lerdo em sua arte da ironia, exercida com uma inteligência incomum. Refiro-me a Voltaire, cuja obra-prima, "Cândido", não é um romance, e sim uma fábula com uma moral em cada página. Os franceses tiveram de esperar todo o século 19 para que, afinal, surgisse um dos maiores contistas de todos os tempos, Guy de Maupassant, assombroso autor de sucessivas obras-primas do gênero. Maupassant teve Gustave Flaubert como mestre e Émile Zola como mentor. Mas nenhum dos dois, embora tanto Flaubert como Zola tenham escrito contos memoráveis, conseguiu superar o discípulo nascido para o conto. Sua influência foi enorme em toda parte e teve seguidores (se não verdadeiros plagiários) na Inglaterra, nos EUA e na Rússia.
É na Rússia que Maupassant encontrará um rival extraordinário, Anton Tchecov, que começou contando anedotas e piadas na imprensa e acabou transpondo seus principais contos para o teatro, com uma arte inesperada. Tchecov, que podia reivindicar para si Nicolai Gogol (autor de "O Nariz" e "O Capote", entre outros contos), era um admirador de Tolstói, que escreveu contos como relatórios de guerra e foi contemporâneo de outro mestre cultivador da forma breve, Ivan Turgueniev. Mas a influência maior no autor de "A Dama do Cachorrinho" e "A Cigarra" é, evidentemente, Maupassant. De Tchecov derivam Górki e todos os contistas russos do início do século 20, que pareciam brotar da terra russa -até que chegou Stálin e, com seu cultivo forçado do realismo socialista, transformou a fértil literatura russa num deserto com tratores.
Outro seguidor de Tchecov foi, na Inglaterra, Somerset Maugham, mestre do conto inglês e mundial. Foi, ainda é, um autor com uma popularidade que se estendeu aos palcos e às telas: várias obras-primas do cinema, como "A Carta" (do diretor William Wyler, de 1940), se baseiam em seus contos. Maugham, em seus contos exóticos, foi influenciado pelas narrações dos "mares do sul" de Conrad e, por sua vez, teve influência sobre outros contistas, evidente sobretudo nos contos urbanos de John Cheever e John Updike, típicos produtos da revista "The New Yorker".
Se James Joyce tivesse morrido logo depois de publicar "Dublinenses", ainda assim seria considerado um escritor notável e um grande contista. Traduzir é reescrever. Traduzindo "Dublineses", tive a oportunidade de encontrar os "tricks" e tiques de Joyce mas também seus magistrais contos originais e sombrios e sua escritura cômica.
"The Dead" (que traduzi como "El Muerto") é uma obra-prima dolorosa e um dos grandes contos escritos em inglês, quase um romance, por seus personagens inesquecíveis e sua extensão. "The Dead" não é um precursor do "Ulisses", e sim uma peça acabada em si mesma, de uma prosa milagrosamente extraordinária.
Não se poderia deixar de falar de um dos escritores mais originais do século 20, Franz Kafka, inventor da fábula com moral teológica, ou seja, metafísica. Sua influência se faz sentir em muitos escritores judeus, como Isaac Bashevis Singer, ou genuinamente gentílicos como Milan Kundera, que o reclama para a literatura tcheca, embora Kafka tenha escrito em alemão e pertença à cultura talmúdica. Felizmente para nós, que não somos nem tchecos nem judeus nem alemães, Kafka pode ser lido com verdadeiro deleite literário.
Um epígono de Kafka, judeu como Kafka, apareceu não na Tchecoslováquia, mas na Polônia: Bruno Schulz, contista. Seu "Lojas de Canela" é de uma originalidade delicada: uma visão da vida judia numa cidadezinha da Polônia que oscila entre a magia e um doce realismo. Schulz, não podemos esquecer, foi assassinado por um tenente da SS nazista, castigo tremendo apenas por estar parado numa esquina sem fazer nada. Ao contrário de Kafka, nunca nem sequer sonhou seu final. É que o totalitarismo é sempre inimigo da literatura.

Hemingway e Tarantino O conto americano do século 20 nada deve a Maupassant, mas sim a Tchecov. Seu renascimento lembra mais Twain do que Poe e começou, como ocorrera com Twain, com uma literatura regional que pulava as fronteiras do Meio-Oeste para chegar a Nova York e daí ao mundo. Seu pioneiro se chamava Sherwood Anderson, patrocinador de William Faulkner e modelo de Ernest Hemingway. Seu livro "Winesburg, Ohio" (conhecido na América do Sul e em Cuba como "Las Novelas de lo Grotesco", embora não sejam romances, e sim contos, e essa história de grotesco seja gratuita, mas não deixa de ser um título com gancho) continha uma nova visão do mundo adolescente num lugarejo de Ohio, e sua linguagem, coisa bem importante, era entre ingênua e sábia.
Faulkner, que graças a Anderson publicou seu primeiro romance, é famoso como romancista, ou melhor, como um poeta falastrão, mas escreveu meia dúzia de contos memoráveis. Hemingway, por sua vez, é mais contista do que romancista: um artista que renovou a prosa moderna americana com seus diálogos sofisticados para conversar com primitivos, que são de uma mestria ainda atual. Seu conto "Os Assassinos", em que apenas com o diálogo se oferece uma amostra do mal sob a forma de uma conversa aparentemente casual, revela uma violência latente que nunca se faz patente.
Desse breve conto partiu a renovação do romance policial com Hammett e Chandler, que escreveram primeiro contos de mentira e de morte. Um filme recente, "Pulp Fiction" [de Quentin Tarantino", com seus diálogos recorrentes, intermináveis e perigosos, não teria lugar se antes não tivesse existido "The Killers". Seu título mesmo, direto e brutal, serviu ao cinema desde que este começou a falar: diálogos ditos com o canto da boca, que é como se lêem, sem mexer os lábios, as conversas de Hemingway.
Dos grandes escritores americanos dos anos 20, Scott Fitzgerald é o único que frequentou a universidade, mas nunca chegou a se formar. Todos, portanto, foram autodidatas. Alguns, como John Steinbeck e William Faulkner, exerceram as mais variadas atividades, quase sempre manuais. Ernest Hemingway se dedicou ao jornalismo -que é quase um trabalho manual. O único instrumento que se tem de aprender a utilizar é a máquina de escrever, e Hemingway sempre foi um mau datilógrafo. Todos eles eram contistas respeitáveis, mas, à exceção de Hemingway, o cultivo do romance ocultou essa qualidade.
O exemplo mais evidente é o de Fitzgerald. Todos vocês já leram ou sabem que se deve ler "O Grande Gatsby", festejado pela crítica, favorecido pelo cinema em produções coloridas e em preto-e-branco, com Alan Ladd, o perdedor nato, e com Robert Redford, numa versão chocha de Alan Ladd. Alguns conhecem seu conto "O Diamante do Tamanho do Ritz", mas poucos sabem que faz parte de seu livro "Contos da Era do Jazz", e ninguém sabe nada de suas coletâneas "All the Sad Young Men" e "Taps at Reveiile". Depois de sua morte, foram publicados dois volumes de contos, "Afternoon of an Author" e "The Pat Hobby Stories", uma compilação surpreendentemente leve para um tema dolorosamente autobiográfico: as aventuras e desventuras de um escritor de aluguel em Hollywood, onde o autor morreu.
Faulkner, como Fitzgerald, também foi alcoólatra e, como Fitzgerald, também foi a Hollywood e serviu como tarefeiro de ouro (ou dourado), especialmente para o diretor Howard Hawks. Mais esperto ou mais duro de domar, Faulkner ia a Hollywood, mas, assim que recebia seu dinheiro, voltava correndo para Oxford. Não a universidade inglesa, mas o pobre povoado do Mississippi onde ele nasceu e morreu, no mais profundo e racista Sul. Ao contrário de Fitzgerald e Hemingway, Faulkner era um reacionário público e um liberal privado. Dessas tensões são feitos não apenas seus romances mas os muitos contos que ele escreveu.
Alguns de seus romances, como "Palmeiras Selvagens", cujo belo título acaba de ser surrupiado e estropiado pelo diretor Oliver Stone, e "Desça, Moisés", são feitos de contos mais ou menos longos, entre os quais algumas obras-primas como "O Urso". Outras de suas narrações breves, como "A Rose for Emily" e "Barn Burning", constam de todas as antologias e integraram a seleção feita pelo próprio Faulkner em suas "Selected Stories". William Faulkner chegou a publicar um livro de contos detetivescos. Chama-se "Knight's Gambit", e seu fio condutor é uma atividade que ninguém associaria ao narrador de "Enquanto Agonizo" e "O Som e a Fúria": o xadrez.

Steinbeck e John Ford Tão contraditório quanto Faulkner foi John Steinbeck: primeiro, comunista; depois, liberal e, mais tarde, um dos defensores mais ferrenhos do presidente Johnson e da Guerra de Vietnã. Além de seus grandes êxitos novelísticos, como "Vinhas da Ira" (conhecido na Espanha por um título menos bíblico e mais vitícola, "Las Uvas del Rencor"), que é, apesar da opinião de certos críticos americanos como Mary McCarthy, uma obra-prima popularizada em todo o mundo por John Ford, Steinbeck escreveu e publicou muitos contos, e seu segundo livro, "Pastagens do Céu", é uma coleção de contos. Seu conto "O Cavalinho Vermelho" é uma pequena obra-prima, e seus contos longos, como "Ratos e Homens" e "A Pérola", são obras-primas desse gênero, a novela, que parece ter sido inventado pelos escritores americanos, de Henry James, com "A Volta do Parafuso", a Hemingway, com "O Velho e o Mar".


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