São Paulo, Quarta-feira, 01 de Dezembro de 1999


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ESTADOS UNIDOS
Pesquisa indica que erro pode ser quinta maior causa de mortes no país
Erro médico mata mais que acidente

MARCIO AITH
de Washington

Erros médicos matam entre 44 mil e 98 mil pessoas nos EUA todo ano, mais do que acidentes de carro, Aids ou câncer no seio.
A estimativa consta de pesquisa nacional inédita feita e divulgada pelo Instituto de Medicina, uma associação independente ligada à Academia Nacional de Ciências norte-americana.
O relatório sustenta que o número real de mortes é ainda maior que o indicado porque, segundo o Instituto de Medicina, os médicos tendem a esconder os dados por medo de perderem o registro profissional e de serem processados.
"A realidade é certamente pior do que indicamos", afirmou Donald Berwick, médico do Instituto de Medicina que coordenou a pesquisa.
"Existem vários tipos de erros que a sociedade nunca saberá porque não são registrados. Além disso, nossos estudos se concentraram em hospitais. Não fomos buscar erros médicos cometidos em casas de idosos, nos tratamentos médicos residenciais e em prontos-socorros".
Com base no relatório, o Instituto de Medicina sugere a criação de um centro nacional de proteção aos pacientes, ligado ao Departamento de Saúde e que teria a responsabilidade de medir os erros e financiar estudos para reduzir o potencial de erros médicos.

Médicos não contestam
A Associação dos Médicos Americanos, maior entidade representativa da categoria no país, não contestou os números. Procurada pela Folha, a associação informou que "o sistema de medicina dos EUA é seguro tendo em vista o número gigantesco de interações paciente/médico a cada dia".
A relativa moderação da Associação se deve ao cuidado com o qual médicos foram citados no relatório do Instituto de Medicina.
Segundo Berwick, os números não comprovam incompetência ou má-fé dos médicos, mas o fato de que a medicina, como qualquer outra atividade, está sujeita a erros.
"O que queremos é estimular os médicos a relatarem os erros. Se os números estão altos, é porque os médicos estão precisando de alguma ajuda, seja porque a tecnologia se desenvolveu tanto que as decisões de tratamento tornaram-se mais complicadas ou por alguma outra razão."
Os números da Associação se baseiam em duas contagens diferentes, feitas com base em duas metodologias. "Mesmo se consideramos a mais conservadora, de 44 mil pessoas, ela indica um número de mortes maior que o produzido por Aids, acidentes de trânsito ou câncer de seio."
A principal causa de mortes entre os norte-americanos é o infarto e outras doenças no coração (727 mil óbitos por ano), seguida de câncer (540 mil), derrame (160 mil) e doenças do pulmão (109 mil).
Se a estimativa máxima do Instituto de Medicina for considerada (98 mil mortes causadas por médicos durante o exercício da profissão), os erros médicos passariam a ser a quinta maior causa de mortes no país.
O assunto passou a ser pesquisado com mais frequência desde 1995, quando Betsy Lehman, colunista de saúde do jornal "Boston Globe", morreu depois de receber uma overdose durante sessão de quimioterapia.


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