São Paulo, quinta-feira, 12 de julho de 2007

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Veteranos descrevem padrão de abusos no Iraque

DO "INDEPENDENT", EM WASHINGTON

Na vida política dos EUA, um dos axiomas é que as Forças Armadas estão acima da crítica. Excetuados os malfeitores ocasionais, como no caso Abu Ghraib, a imagem dominante é a de que os militares estão fazendo um trabalho heróico no Iraque apesar das adversidades. Essa percepção sofreu severo abalo ontem, com a publicação, pela revista "The Nation", de uma série de entrevistas em que 50 veteranos dos combates no Iraque descreveram em detalhes atos cotidianos de violência.
A reportagem não trata das atrocidades mais divulgadas. Em lugar disso, revela um padrão de abusos. "Não se tratam de atrocidades individuais", disse Garett Reppenhagen, atirador de elite do 263 Batalhão Blindado, "mas do fato de que a guerra toda é uma atrocidade".
Jornalistas e grupos de defesa dos direitos humanos publicaram reportagens e relatórios nos quais apontavam para casos de civis mortos por soldados dos EUA. A investigação da "Nation" foi a primeira a mencionar testemunhas militares identificadas para confirmar abertamente essas alegações.
Diversos dos entrevistados revelaram que as Forças Armadas freqüentemente tentam atribuir a espectadores inocentes a condição de insurgentes, muitas vezes depois que soldados norte-americanos movidos pelo pânico disparam contra grupos de civis iraquianos. Os veteranos também ofereceram indícios de que as tropas costumavam deter quaisquer sobreviventes e acusá-los de fazer parte da resistência, enquanto plantavam fuzis de assalto AK-47 ao lado dos cadáveres, para criar a impressão de que haviam morrido em combate.
Também houve mortes causadas por comportamento irresponsável de comboios. A sargento Kelly Dougherty, da Guarda Nacional do Colorado, descreveu um atropelamento em que um comboio passou por cima de um menino de 10 anos acompanhado por três burros de carga. "Com base nas marcas deixadas na estrada, os caminhões mal frearam. Mas, quero dizer, a ordem básica é a de que você não deve parar nunca."
Os piores abusos parecem ter ocorrido durante batidas em residências privadas, em operações de caça de insurgentes. O sargento John Bruhns, 29, da 3 Brigada, 1 Divisão Blindada, descreve a brutalidade casual de um incidente típico.
"As tropas entram na casa, sobem as escadas correndo. Pegam o homem da casa e o arrancam da cama na frente da mulher. Ele é posicionado contra a parede, e o quarto é despedaçado durante a revista. Os soldados pedem que o intérprete pergunte se existem armas na casa, se existe propaganda contra os EUA. Normalmente os moradores dizem que não, e normalmente isso é verdade", disse o sargento Bruhns à "Nation". "Assim, nós tiramos as almofadas do sofá, e as jogamos longe. Viramos o sofá, aos chutes, se a família tiver um sofá. Vamos ao refrigerador, se houver um na casa, e jogamos tudo que contiver no chão. As gavetas são removidas, o conteúdo jogado no chão. Os armários são abertos e todas as roupas são removidas e jogadas pela casa. É como se tivesse passado um furacão por lá."


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