São Paulo, domingo, 02 de julho de 2006

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CLÓVIS ROSSI

A bola e a escola

FRANKFURT - No Brasil é quase sempre assim: em vez de debater um argumento, qualquer que seja, prefere-se qualificar (ou desqualificar) quem o apresentou.
Está acontecendo agora com o jogador francês Thierry Henry, desqualificado como "racista" ou "invejoso" por ter dito o seguinte: "Quando eu era pequeno, ia à escola das 8h às 17h, e minha mãe não me deixava descer para jogar. Eles [os brasileiros] jogam das 8h às 18h!".
Exagero talvez, mas nada de fundamentalmente errado. A frase deveria é provocar uma discussão sobre a diferença no sistema educacional do mundo rico e do Brasil.
Basta ler os dados que a repórter Letícia Sander apresentou na Folha de ontem: os alunos brasileiros do ensino fundamental não conseguem "pontuação adequada" em nenhum dos itens avaliados.
Mais: "Cinqüenta pontos separam o desempenho dos alunos de 4 e 8 série. É como se, hoje, os alunos de 8 série tivessem conhecimentos dos de 4 série, se comparados com índices internacionais".
No fundo, bem lida a pesquisa, ela dá razão a Henry. O brasileiro é melhor na bola do que na escola. Ou porque joga o dia inteiro ou por uma propensão natural que deveria ser mais bem pesquisada. Mais importante, no entanto, seria corrigir a defasagem educacional. Não adianta rigorosamente nada ganhar o hexa se os alunos da 8 série continuarem com nível educacional de 4 série.
Mas a frase de Henry remete também à França: filhos de imigrantes, como ele, também têm no futebol sua melhor chance de ascensão social, mesmo que estudem, como ele, das 8h às 17h. A revolta dos subúrbios é a prova. O mundo se tornou mais cruel e menos simples do que sonha nossa contínua fuga aos fatos.


crossi@uol.com.br

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