São Paulo, sexta-feira, 12 de outubro de 2007

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TENDÊNCIAS/DEBATES

Álcool: orgulho de ser brasileiro

ANTONIO CABRERA

O álcool traz de volta o devido valor ao homem do campo e força uma redução na distância entre países ricos e pobres

"Cante a cidade que é sua, que eu canto o sertão que é meu."
(Patativa do Assaré)

A SABEDORIA rural afirma que um raio não cai em pau deitado. Talvez essa assertiva seja o melhor retrato do "teatro do etanol" publicado nesta Folha ("Tendências/Debates", 2/10), pois é só um setor se destacar que infelizmente críticas mal colocadas tentam denegrir algo de que deveríamos nos orgulhar.
Para esses, a maior dificuldade não está nas inovações que o setor apresenta, mas em escapar das idéias antigas, pois ainda se imagina o setor sendo escravocrata, com "feitores" das épocas passadas. Na realidade, o álcool está trazendo de volta o devido valor ao homem do campo e forçando uma redução na distância entre países ricos e pobres.
Pode-se afirmar que o ignorante não é aquele que nada sabe, mas aquele que não sabe o que devia saber. Em primeiro lugar, tem-se o registro de uma redução das áreas plantadas com produtos agrícolas, mas, na verdade, o setor deve ser avaliado pela produção efetiva. Nos últimos 15 anos, o Brasil teve um aumento da sua safra agrícola de 125%, com um aumento de área de apenas 22%.
Resumindo, estamos produzindo a maior safra sucroalcooleira da história, com uma produção recorde da safra agrícola e um estoque formidável de terras para uso futuro, sem pensarmos na Amazônia ou no Pantanal.
Na questão do trabalho, o sertanejo sabe que o "emprego não cai do céu, mas pode brotar do chão", pois o setor da cana foi o principal promotor na geração de empregos neste ano.
É claro que podemos melhorar a qualidade desse emprego, bem como sabemos que é um emprego rude, mas longe de serem "obrigados" a esse tipo de trabalho forçado ou proibidos de fazer greves (que ocorreu no início de safra em São Paulo).
O ponto a ser abordado é que esses trabalhadores, pelo seu despreparo para outras tarefas, têm infelizmente nesse tipo de emprego ou na construção civil a principal porta de entrada no mercado de trabalho. E a nós, mais saudável e produtivo, caberia a missão de incentivar a realocação dessa mão-de-obra, pois, nos próximos cinco anos, a mecanização trará um aumento no desemprego. Assim, pode-se perder o bom por querer o melhor, pois, antes da terra prometida, precisamos atravessar o Jordão.
Acrescente-se que a NR 31 é uma das normas trabalhistas mais exigentes, senão a mais, quanto à segurança e ao bem-estar do trabalhador rural e deve ser cumprida por todo o setor.
Mas não custa lembrar: alguém já escreveu sobre as condições de trabalho nas minas de carvão da China (que com tantos produtos abastece o Brasil) ou nos campos de produção de petróleo do Iraque e da Nigéria?
Convém ressaltar, ao contrário do apregoado sem dados comparativos com outros setores, a mortalidade de trabalhadores na lavoura canavieira está em 150 lugar no Brasil (a construção civil teve mais de 5.000 mortes nos últimos 14 anos) e a letalidade nos canaviais está em 253 lugar. Já o índice de acidentes de trabalho está em 61 lugar e, quanto às doenças no trabalho, ocupa a 491 posição.
Tendo uma das mais altas remunerações do setor rural em SP, mais de 93% têm carteira assinada, enquanto no Brasil não atingimos 50%. Mais ainda, em nosso Estado, 95% das empresas possuem creche/berçário; 98% das empresas possuem refeitório; 86% oferecem alojamento para a mão-de-obra de outras localidades; 84% das empresas já têm programas de participação nos lucros ou resultados; 74,8% dos trabalhadores são naturais do Estado de São Paulo; e 58,3% dessas empresas já mantêm empregados portadores de deficiência nos percentuais exigidos por lei.
Quanto à fuligem da cana queimada, apesar de pessoalmente ser favorável ao término das queimadas, ainda se utiliza tal recurso nos canaviais dos EUA, da Austrália, da África do Sul e de quase todos os cem países que plantam cana-de-açúcar.
Os problemas e as dificuldades apontadas são o preço do progresso, mas sabemos que o pessimismo jamais ganhou uma batalha. Da mesma maneira que Santos Dumont perdeu a oportunidade do reconhecimento na aviação, não vamos repetir o erro por acusações infundadas, mas, sim, nos esforçar para liderar no planeta essa mudança de matriz energética.
Afinal, o homem do campo sabe que o nó da cana não se chupa, mas ele dá álcool, açúcar, energia e, principalmente, renda e emprego.


ANTONIO CABRERA, 47, médico veterinário, é produtor de cana-de-açúcar. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária (governo Collor) e secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (governo Covas).

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