São Paulo, sábado, 14 de outubro de 2006

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Política em baixa

Equador é exemplo do descrédito pelas instituições da representação popular na América Latina

SE HÁ um lugar onde o descrédito com a política deixou marcas profundas, é o Equador. O fenômeno é mundial, mas surge com força na América Latina e chega ao paroxismo entre os equatorianos.
O país vai às urnas amanhã, numa situação que pode ser descrita como inquietante. Para começar, o favorito nas pesquisas, o esquerdista Rafael Correa, aparece em empate técnico com o número de indecisos.
É notável que o partido de Correa, o recém-criado Alianza País, não tenha apresentado candidatos ao Congresso -fato provavelmente inédito na história da democracia representativa. É que a principal bandeira do postulante é atacar a "política tradicional". Se eleito, Correa promete convocar uma assembléia constituinte. Não são poucos os que vêem aí, senão um dedo, pelo menos a inspiração de Hugo Chávez, de quem Correa é um admirador confesso.
Mais de 90 em cada cem eleitores equatorianos reprovam o atual Congresso; 70% acham que a situação do país vai ficar na mesma ou piorar em 2007. Tal caldo de cultura é, ao mesmo tempo, causa e efeito da instabilidade no país: há dez anos, nenhum presidente eleito consegue terminar seu mandato.
E não se pode afirmar que os equatorianos não tenham tentado alternativas. Experimentaram um pouco de tudo. Presidentes de esquerda, de direita, de centro, neoliberais, estatistas. Até dolarizaram a economia. Os insucessos foram tantos que, a cada novo fracasso, emergia um postulante ainda mais populista, cujas promessas cada vez mais mirabolantes levariam cada vez menos tempo para revelar-se uma completa fraude.
Na última década, os equatorianos escorraçaram com protestos de ruas três presidentes: Abdalá Bucaram (1997), Jamil Mahuad (2000) e, recentemente, Lucio Gutiérrez (2005).
Não se trata de uma exclusividade equatoriana. O mesmo movimento se verificou em outros países da América Latina. Sánchez de Lozada, da Bolívia, foi derrubado por populares em 2003. A mesma sorte tiveram o argentino Fernando de la Rúa, em 2001, e o peruano Alberto Fujimori, em 2000. Há ainda os casos do paraguaio Raul Cubas (1999), que era vice, e do também boliviano Carlos Mesa (2005), que substituiu Sánchez de Lozada e acabou renunciando após uma onda protestos liderada pelo então líder opositor Evo Morales, hoje presidente.
Uma possível explicação para essa difusa instabilidade pode estar no fato de que, na América Latina, não houve tempo nem condições para a democracia enraizar-se. A região sempre transitou entre regimes militares autoritários e líderes populistas de diversos matizes.
Ao contrário da Europa e dos EUA, onde os partidos políticos, ainda que cada vez mais semelhantes, mantiveram uma identidade, por aqui tais agremiações não conseguiram se formar ou não souberam conservar plataformas socialmente representativas. Mesmo quando a aventura populista não termina na implosão do presidente, pode levar à desidratação ideológica do partido, como se deu com o peronismo na Argentina e o PT no Brasil.


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