São Paulo, domingo, 22 de outubro de 2006

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Mais debate

O 2 turno provocou um confronto de posições mais democrático, superando os padrões do marketing eleitoral

DIRIGINDO-SE com bom humor aos jornalistas da Folha, depois de encerrada a sabatina de quarta-feira passada, o presidente Lula afirmou sua disposição de "encher a paciência de vocês de tanto dar entrevistas" num eventual segundo mandato. Que não seja apenas mais uma promessa de campanha.
Durante os quatro anos de seu governo, o presidente Lula raramente se dispôs ao confronto direto com jornalistas, dedicando-se antes ao que parecia uma seqüência interminável de comícios eleitorais. Os mais variados eventos e ocasiões habituaram-no ao exercício fácil da retórica sem contestação, cristalizando o célebre refrão segundo o qual "nunca, neste país" registraram-se tantos e tão extraordinários feitos como os contabilizados nos quatro anos de seu governo.
Foi sem dúvida um efeito positivo do segundo turno o de forçar o presidente Lula a abandonar a atitude de isolamento, entre defensiva e messiânica, que vinha adotando durante a disputa sucessória. Como candidato, foi por certo punido pelo eleitorado ao se recusar a participar do único debate programado durante o primeiro turno.
À medida que se aproximam as eleições, a campanha dá mostras de superar os padrões do puro marketing político. Sem dúvida, continuam vagas e evasivas as discussões sobre o que há de substancial a ser feito para acelerar o crescimento econômico, para resolver as carências gritantes do país em áreas como infra-estrutura, educação, saúde e segurança pública.
A discussão dos sucessos e malogros do atual governo, sua comparação com o que se fez e se deixou de fazer no governo Fernando Henrique Cardoso, contribuiu entretanto para trazer a público, se bem que sob a forma desnorteante da saraivada de estatísticas ostentadas pelos postulantes em cada debate, alguma informação concreta sobre as realidades do país.
O pano de fundo de todo o debate continua a ser o de uma deprimente falta de propostas inovadoras, indicando até mesmo uma convergência programática entre os candidatos que, evidentemente, o ardor político da campanha tende a ocultar. Seja como for, o período do monólogo, do auto-elogio, dos gestos vazios de palanque, cedeu lugar a uma campanha mais viva e democrática neste segundo turno.
Mais do que uma simples mudança de qualidade na disputa presidencial, está em jogo o fortalecimento de uma prática que não se resume aos momentos pré-eleitorais. Não apenas na condição de candidato, mas também na de governante, todo líder político numa democracia é periodicamente levado a prestar contas de suas atitudes e responder aos questionamentos da imprensa. Eis um compromisso republicano que, embora óbvio, ainda tem ares de novidade no Brasil; quanto à imprensa, só se pode dizer, para repetir os termos do presidente Lula, que não lhe falta "paciência" para cumprir a sua parte.


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