São Paulo, sexta-feira, 28 de julho de 2006

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

TENDÊNCIAS/DEBATES

Sobre vetos, torres e o Masp

JOSÉ EDUARDO DE ASSIS LEFÈVRE

O que diriam os parisienses se, por hipótese, a torre Eiffel mudasse seu nome para Eiffel-Telecom, com um enorme anúncio luminoso?

O ILUSTRE cardiologista Adib Jatene, presidente do Conselho Deliberativo do Masp, veio a público reiterar sua posição favorável à construção de uma torre sobre o edifício Dumont-Adams, com o alegado propósito de salvar o museu da ruína financeira.
A proposta apresentada pelo Masp foi negada pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) em fevereiro de 2005. E, analisando recurso e proposta alternativa encaminhada pelo museu, foi definitivamente vetada em outubro passado.
O ponto-chave do veto está no parecer aprovado: "Entendemos que a torre proposta interfere de forma radical na escala do bem tombado, descaracterizando-o de forma a comprometer sua integridade". É necessário ressaltar que o parecer negativo se refere especificamente ao projeto da torre. Não há objeções quanto à substituição do edifício Dumont-Adams por um outro de proporções equivalentes aos demais existentes na avenida Paulista.
Em artigo publicado nesta Folha de S.Paulo em 24 de fevereiro de 2006, o dr. Jatene afirmou que a proposta da torre havia sido aprovada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), o que não é exato.
O Iphan declarou que a proposta da torre era isenta de apreciação por aquele órgão. Ou seja, não desaprovava, mas também não aprovava. Quanto à aprovação pelo Condephaat, tomamos conhecimento por este mesmo jornal, em notícia publicada em 1 de julho passado, que seu presidente "decidiu sozinho sobre o caso da torre do Masp, porque o conselho estava em recesso e o museu tinha urgência". Ou seja, a proposta não foi apreciada pelo plenário do Condephaat.
O presidente do Conselho Deliberativo do Masp afirma, agora em outro artigo, publicado em 12 de julho no mesmo espaço, que a construção de um mirante criaria uma atração turística capaz de viabilizar financeiramente o museu. No entanto, nenhum estudo nesse sentido foi sequer apresentado pelo Masp. A operação do mirante dificilmente pagaria a construção da torre, e parece pouco provável que possa recuperar as combalidas finanças do Masp.
O que justificaria então os investimentos a serem feitos pela empresa Vivo, grupo privado que assumiria o ônus financeiro do empreendimento? Evidentemente, a enorme "visibilidade" da torre e a repercussão de sua imagem vinculada ao Masp durante dez anos. Os grandes arranha-céus se identificam com as corporações que os construíram, tal o seu poder de fixar uma imagem. Pela proposta do museu, a torre se identificaria como Masp-Vivo.
Há, ainda, um aspecto que pouco veio a público. A torre não se limitaria à altura do mirante, como consta do projeto apresentado ao Conpresp e divulgado pela Folha nas edições de 28 de setembro e 26 de outubro de 2005. Sobre a cobertura do mirante seria instalada uma antena para telecomunicações que dobraria a altura total para 250 metros. O projeto dessa antena foi enviado à prefeitura em 2004, por meio do ofício Masp-PRE, de 9 de novembro (processo 2004-0.267.611-0), e ao Condephaat. Contudo, em reunião com o Conpresp, o presidente do Masp negou a existência de tal projeto.
O dr. Jatene menciona a adoção do caminho judicial pelo Masp, numa tentativa de se sobrepor aos meios técnicos. Até aqui, no entanto, todos os pleitos feitos pela diretoria do museu foram negados pela Justiça.
E a questão da torre Eiffel? Citando esse exemplo, o dr. Jatene demonstra desconhecer ou preferir ignorar a enorme diferença entre o contexto cultural da França de 1889 e o do Brasil de hoje.
A Exposição Universal de 1889, realizada em Paris, foi uma festa de afirmação republicana, comemorativa do centenário da Revolução Francesa, no âmbito de uma sociedade conservadora. No campo da engenharia e da arquitetura, ocorria uma cisão, característica do século 19, que opunha defensores do ecletismo historicista aos adeptos da modernidade das novas tecnologias, como o engenheiro Gustave Eiffel.
A torre Eiffel não trazia a marca de uma empresa, mas era o símbolo da exposição, com toda a sua carga semântica, que, evidentemente, tinha opositores na sociedade francesa. Para finalizar, o que diriam os parisienses se, por hipótese, a torre Eiffel necessitasse de uma restauração e, obtendo uma vantajosa proposta de patrocínio, passasse a se chamar Torre Eiffel-Telecom, com um exuberante anúncio luminoso?


JOSÉ EDUARDO DE ASSIS LEFÈVRE, 63, arquiteto, professor doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é presidente do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo).

Texto Anterior: Frases

Próximo Texto: Edivaldo Del Grande: Cooperativismo e justiça social

Índice


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.