São Paulo, domingo, 09 de janeiro de 2011

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WIKILEAKS OS PAPÉIS BRASILEIROS

Jobim barrou concessões do Itamaraty na área nuclear

Reação ocorreu após diplomatas tentarem facilitar acesso da agência a físico

Despachos indicam que diplomata declarou que não havia obstáculo "técnico" a protocolo vetado pela Defesa


CLAUDIA ANTUNES
DO RIO

A vigilância da Agência Internacional de Energia Atômica sobre o programa nuclear brasileiro provocou conflitos entre a Defesa e o Itamaraty, relatam diplomatas dos EUA em telegramas obtidos pelo WikiLeaks.
No mais grave deles, no início de 2009, o ministro Nelson Jobim teria dito ao então embaixador Clifford Sobel que toda a discussão relativa às inspeções da agência teria de ser feita por intermédio dele e não da diplomacia.
Jobim estava irritado porque a AIEA quis entrevistar Dalton Ellery Barroso, pesquisador do Centro Tecnológico do Exército e autor de "A Física dos Explosivos Nucleares". O livro desvenda o funcionamento de uma ogiva americana.
A AIEA queria saber se ele obtivera as informações de um cientista estrangeiro ou se testara a explosão em laboratório. Os dois casos seriam violações ao Tratado de Não Proliferação, pelo qual países sem bomba se comprometem a não produzi-la.
Segundo Sobel, Jobim ficou "estupefato" ao saber que o Itamaraty tentara facilitar um encontro de técnicos da AIEA com Barroso e agiu para impedir isso.
Segundo a Folha apurou, a Defesa depois ajudou a elaborar um relatório à AIEA negando as suspeitas: ele diz que Barroso obteve parte das informações quando elas circulavam livremente e completou-as com seus cálculos.
Os telegramas são parte dos milhares que o WikiLeaks divulga desde novembro. A Folha e outras seis publicações têm acesso ao material antes da divulgação no site www.wikileaks.ch.
A Embaixada dos EUA diz que Jobim foi o maior opositor da adesão do Brasil ao Protocolo Adicional do TNP, que permite inspeções mais abrangentes da AIEA. Diplomatas foram mais flexíveis.
Santiago Mourão, da Divisão de Desarmamento e Tecnologias Sensíveis do Itamaraty, teria dito em outubro de 2008 que estudos técnicos mostraram que o Brasil poderia cumprir o protocolo, mas faltava a decisão política.
Para especialistas, é possível negociar a implementação do instrumento de modo a preservar o segredo industrial das centrífugas de enriquecimento de urânio da Marinha, como queria a Defesa.
Mas a Estratégia Nacional de Defesa, de dezembro de 2008, consagrou a posição de que o Brasil só deve aderir a "acréscimos" do TNP quando as potências nucleares avançarem no desarme.
Em maio de 2009, Vera Machado, subsecretária do Itamaraty, teria dito que a estratégia pôs fim à discussão sobre o protocolo. Mourão teria afirmado que Lula havia seguido a opinião de Jobim.

Colaborou FERNANDO RODRIGUES, de Brasília


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