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São Paulo, quinta, 13 de agosto de 1998
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JOSÉ ANTONIO PASTA JR.
Esse mecanismo instala Zé Celso numa boca de cena perpétua, sem fundo, em que ele aparece, queira-se ou não, como a síntese encarnada dos tempos, quase uma aparição, que ofusca e sidera. Parte de seu encanto (real) vem daí, mas que isso não sirva para isolá-lo ou indigitá-lo: esta pulsão de encantamento, que nele parece responder a uma necessidade veemente, é tão nacional quanto nacionalmente desconhecida. Está em toda parte, e talvez seja a estranha familiar mais desconhecidamente ilustre da cultura brasileira. Que ela apareça de maneira tão gritantemente teatral, quase obscena, em Zé Celso, é um sintoma cultural de primeira ordem e, afinal, menos maligno que seu oposto simétrico -a majestosa e augusta encenação da própria intangibilidade que, como se sabe, gera uma infinita demanda de reconhecimento, à qual é inerente a procura do bode expiatório, que açula a ralé. Ainda aqui, a comparação com o depoimento de Müller pode ser instrutiva, pois, com todas as diferenças, ambos se desenham sobre um fundo comum de aguda descontinuidade cultural: Müller sobre a ancestral e renovada "miséria alemã", marcada neste século por duas guerras mundiais, duas ditaduras e uma reunificação tendencialmente regressiva; o nosso Zé Celso, sobre o fundo da tradicional fratura e inorganicidade de nossa cultura, repostas neste século pelas modernizações conservadoras, induzidas por duas ditaduras e pela atual decomposição ultramercantilista do precário tecido sociocultural. Ambos os autores não cessam de enfatizá-lo. Mais que curioso, é talvez decisivo ver como reagem: Zé Celso, que percebe com agudeza o caráter fraturado e letárgico, "voduzado', "fajuto", "encantado" da cultura brasileira, põe-se declaradamente numa atitude, digamos, de permanente parturição cultural -é preciso sacudir esse corpo letárgico, chocá-lo, finalmente exorcizá-lo, para que revenha de sua possessão maligna e aceda finalmente a si mesmo. Quer, assim, de algum modo, edificar uma cultura, mas o faz sem reatar com coisa alguma mais que por um breve instante, e sem reatar nem sequer consigo mesmo, numa descontinuidade formidável, em que nenhuma real dimensão de projeto se articula. Contra a descontinuidade, reage com o hiperdescontínuo e quer edificar pela destruição permanente, o que o instala em uma espécie de presente perpétuo (de que é signo a adolescência interminável), que retira da história e o vota, desde sempre, ao mito e ao rito. É de natureza mágico-religiosa o dispositivo de Zé Celso -"a bruxaria que é o teatro", "transação sagrada", "teatro de religação", "o sagrado brasileiro", "homens eletrificados pela Terceira Pessoa do Santíssimo Mistério da Divina Eletricidade" etc. Entre o demiurgo, o sacerdote e o sacrificado, Zé Celso combate o vodu pela bruxaria. Este livro mostra que foi dos poucos artistas, entre nós, a perceber a real expansão do fetichismo da mídia nas últimas décadas, à qual no entanto, opõe um teatro... de feitiçaria. É possível que o sacerdote José Celso, com brilho inegável, celebre o que o destrói. Não é à toa que, nos últimos tempos, se tenha visto como inimigo jurado da Igreja: é concorrência. Seus modelos mais profundos são a Igreja e o padre. No livro, conta-se que sua família o queria padre. Ao seu modo, cumpriu o desígnio -e deu uma espécie de padre da destruição. Não é, por isso, pior do que os outros. Já Heiner Müller não proclama qualquer projeto construtivo. Ao contrário, aceita tranquilamente que, a certa altura, o chamem de anarquista. Nenhum valor sólido, nenhuma ilusão, pessimismo negro em toda a linha, o que faz, de imediato, pensar no cenário dito pós-moderno. Mas, se olharmos bem, encontraremos meio escondido um bom e velho alemão da "Bildung", obcecado pela construção da cultura nacional. A referência a Brecht -que em Zé Celso é uma das muitas momentaneamente instrumentalizadas para descarte rápido (com a caução costumeira da leitura tropicalista da antropofagia oswaldiana)-, onipresente nele, permite observá-lo. Escolheu morar em Berlim Oriental "porque Brecht estava lá" e, de certo modo, concebe toda sua obra como uma tentativa de "responder" a esse antecessor. Por não ser brechtiano escolástico, soube perceber o caráter "subversivo" de Brecht -e, note-se, subversivo pelo seu marxismo e pela sua "excelência". Pelo testemunho de Müller, que não foi um "familiar" de Brecht, aproximar-se efetivamente dele não era aceder ao mandato social, como se quer agora, mas participar de seu isolamento compulsório e orquestrado. Todavia, onde talvez se dê a ver mais nitidamente sua obsessão pela "Bildung" é na capacidade de perceber a maquinação surda e precisa do regime para "evitar sucessores para Brecht", "a luta contra Brecht e suas consequências". Não é ver pouco, quando se pensa que, entre nós, com muito menos repressão policial, processos semelhantes estão em pleno curso nos meios culturais e institucionais, sem que pareçam dar-se conta os principais interessados. Mas, talvez, estejamos de novo diante das vicissitudes das diferenças de densidade entre as culturas, aquelas mesmas que as fazem opor, sobre um fundo parecido, um padre anarquista a um anarquista construtivo. José Antonio Pasta Jr. é professor de literatura brasileira na USP e autor de "Trabalho de Brecht" (Ática). 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