São Paulo, segunda-feira, 12 de fevereiro de 2001

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PASSEIO CARIOCA

Para curtir a cidade, é preciso escolher o itinerário adequado ao que se quer ver

Rio alterna sentimentos díspares

Sílvio Cioffi/Folha Imagem
Ipanema vista de helicóptero


CARLOS HEITOR CONY
DO CONSELHO EDITORIAL

O folclore nacional criou a lenda do mineiro que veio ao Rio e quis comprar um bonde. E a do cearense que chegou a Copacabana, olhou aquele mar imenso e reclamou: "Para o carioca, o governo faz até um açudão deste tamanho!" Bonde e mar já foram atrações da cidade. Mas, para um paulista, quais seriam os "punti luminosi", ou, como dizem os cronistas sociais, o creme do creme daquela vila malcheirosa, que obrigava a corte de dom João 6 a se encharcar de água-de-colônia?
Para começar, a melhor coisa do Rio é justamente aquilo que o paulista mais detesta: o carioca em si, com sua cabeça, tronco e membros. Se aquela bomba de nêutrons, que mata pessoas, mas preserva montanhas e edifícios, fosse jogada na praça da Bandeira, centro geográfico da cidade, o Rio seria o paraíso terrestre sem a serpente que a marchinha de Carnaval chamou de "tentadora".
É uma pena que seja assim, pois o carioca, tirados os nove fora, é um brasileiro comum e banal, não tem culpa de ter nascido e viver com o Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara -segundo outro sambinha famoso.
Por falar no Cristo, é ainda um passeio obrigatório para todos, inclusive os paulistas, menos para o carioca, que no fundo despreza quem vai lá em cima, ele que quase nunca vai lá.
No mesmo caso está o Pão de Açúcar: um carioca decente só escala seus cimos quando, forçadamente, leva parente de outras paragens para andar no bondinho.
Mas, além do Corcovado e do Pão de Açúcar, o forasteiro, seja paulista ou paquistanês, pode se deslumbrar com mil outros itinerários. Vindo do aeroporto do Galeão, vencido o túnel Rebouças (que é um dos mais feios do mundo), o viajante recebe um jorro de luz ao chegar à lagoa, impacto que se torna inesquecível se coincidir com a época da mortandade dos peixes.
Para quem deseja curtir o Rio, é necessário determinar o que o sujeito realmente deseja ver ou sentir. Uma ida ao mosteiro de São Bento, junto à praça Mauá, pode ser um suplício, um tédio letal.
Passear pelas ruelas antigas do que restou de uma cidade antiga, final da Ouvidor e suas paralelas, é uma decepção que pode ser compensada com uma ida à Barra da Tijuca, onde o visitante, com um mínimo de imaginação, de repente está em Miami e, se souber inglês o suficiente, pode entrar nos shoppings de lá e comprar um tênis importado diretamente de Garanhuns (PE).
Mas, se detestar o barroco dos beneditinos e o colonial reformado pelos alcaides locais, o paulista pode respirar ar puro nas Paineiras, uma estradinha que corta a maior floresta urbana do mundo.
Terá duas coisas que faltam a São Paulo: oxigênio "in natura" e vista deslumbrante sobre o mar e a montanha -o inerredável Cristo Redentor dizendo que está ali para o que der e vier.
Contudo, se sofrer um ataque de súbita nostalgia pelo ar de sua cidade, o Rio lhe oferece excelentes opções em torno do canal do Mangue e junto à refinaria Duque de Caxias. Não é exatamente a mesma coisa, mas dá para afogar a saudade.
O Rio continua lindo, apesar de tudo, inclusive daquilo que os paulistas pensam dele. Contam que, ao criar o mundo, quando os anjos viram aquele desperdício de mar e montanha, entraram a conspirar contra o Senhor. Um dedo-duro entregou a conspiração, e o Senhor quis saber o que havia feito de errado.
Apesar do precedente, quando outros anjos revoltados, sob a liderança de Lúcifer, foram precipitados no inferno, o novo cabeça da revolta disse que o Senhor cometera uma injustiça contra outras terras e povos.
Acabara de criar um Rio tão bonito, tão espetacular, que um futuro carioca iria fazer uma marchinha chamando-o de "Cidade Maravilhosa".
O Senhor ouviu com atenção e sorriu. Tranquilizou os anjos revoltados: "Esperem, meus filhos, esperem. Vocês não sabem o tipo de gente que vou meter aqui!"


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