Autora flexiona limites da ficção em obra sobre artista português

Crédito: Divulgação A escritora portuguesa Patrícia Portela
A escritora portuguesa Patrícia Portela

LEONARDO GANDOLFI
ESPECIAL PARA A FOLHA

A COLEÇÃO PRIVADA DE ACÁCIO NOBRE (ótimo)
AUTORA Patrícia Portela
EDITORA Dublinense
QUANTO R$ 44,90 (224 págs)

As revoluções tecnológicas atualizam não só nossas formas de lembrar, mas também de esquecer. Tanto que tem sido cada vez mais assíduo o debate multidisciplinar sobre a noção de arquivo, que, nas artes, desde muito tempo está presente na ideia de coleção.

O que escolher e em que ordem colocar? A pergunta seria ideal a um curador, mas igualmente cairia bem a um romancista. Ainda mais a uma escritora que encara o romance como gênero sem regras preestabelecidas.

É o caso da portuguesa Patrícia Portela e, mais precisamente, do livro "A Coleção Privada de Acácio Nobre".

A obra –que tem origem em espetáculo encenado pela própria autora– é composta de um pequeno espólio publicado como catálogo. E, de modo certeiro, não há nenhum paratexto no livro que empurre os dados para os domínios exclusivos da ficção.

Segundo a pesquisa de Patrícia, Acácio Nobre foi um inventor e artista português perseguido pela ditadura salazarista. Trata-se de um personagem que invisivelmente esteve no coração de muitos acontecimentos da modernidade, do final do século 19 até os eventos de maio de 1968.

Nesse tempo, ficou próximo de Einstein e Herman Melville, foi amigo íntimo de Sá-Carneiro e, com Fernando Pessoa, bolou um projeto de revitalização do Chiado, em Lisboa, que não vingou.

As obras de Acácio –excetuando os puzzles que inventou– são esboços de projetos adiados que acabam fazendo dele uma espécie de Marcel Duchamp mais discreto.

Entre tais projetos –e o sabemos por cartas no espólio–, o mais decisivo terá sido a falhada implantação em Portugal dos princípios de Friedrich Fröbel que privilegiavam, na educação de crianças, jogo e desenho: "Queremos estimular o poder da imaginação e com isso catapultar o país para a modernidade", diz ele.

Falando em imaginação, terá sido Acácio o criador do vídeo game, de um projeto de máquina do tempo e de outro com uma casa viva feita só de plantas crescendo.

Vale destacar a conturbada relação de Acácio com os artistas futuristas, que termina com enfurecida carta dele a Marinetti, pai do movimento: "A Arte levou sempre a política mais a sério do que a própria política, mas você, feito parvo, vendeu-a ao poder!".

O livro traz cada item do espólio acaciano com imagem e uma pequena descrição ou transcrição em caso de documentos. E acompanhar página a página essa coleção é mergulhar num labirinto que, aliás, está povoado por dezenas de notas de rodapé bem-humoradas e imprescindíveis.

De certa forma, é como se os puzzles elaborados pelo protagonista estivessem ligados ao próprio quebra-cabeça que constitui a narrativa. Afinal, como anota o próprio Acácio: "Se o mundo não brinca e não ficciona, não evolui".

E é por jogar com os modos de ler que este curioso livro põe de pernas para o ar o (hoje) bem-comportado formato do romance. Patrícia Portela entrega uma caixinha de surpresas ao leitor, que agora tem com o que brincar.

LEONARDO GANDOLFI é poeta e professor de literatura portuguesa da Unifesp.

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