'Hollywood', de David Mamet, debate assédio e satiriza indústria do cinema

Crédito: Lenise Pinheiro/Folhapress A atriz Bruna Marquezine em festa de lançamento da novela "Deus Salve o Rei", no Rio, em novembro.
Rubens Caribé e Luciana Fávero durante ensaio de 'Hollywood' no Sesc Pinheiros

MARIA LUÍSA BARSANELLI
DE SÃO PAULO

Conhecido por seu tom provocador, o americano David Mamet buscou em seu próprio meio, a indústria de entretenimento dos EUA, um reflexo da ganância humana.

O dramaturgo resumiu tudo em três figuras dos bastidores da produção cinematográfica: dois sócios que tentam sucesso com um novo roteiro e uma secretária que muda o rumo das negociações.

Uma montagem "Hollywood", como a peça foi traduzida aqui, estreia nesta quinta-feira (11) em São Paulo, após uma temporada no Rio. Trata-se da última parte de uma trilogia da CiaTeatro Epigenia com peças de Mamet.

Após "Hollywood", o grupo reapresenta, também no Sesc Pinheiros, as duas primeiras peças do projeto: "Oleanna" (15 a 17/2), sobre um professor acusado de assédio por uma aluna, e "Race" (22 a 24/2), em que um homem branco e rico é denunciado pelo estupro de uma garota negra –em nenhuma das tramas, porém, tem-se certeza do que realmente aconteceu.

Autor prolífico e vencedor de um Prêmio Pulitzer (em 1984 por "O Sucesso a Qualquer Preço"), Mamet transita pelos temas de forma leve e muitas vezes cômica.

Para a nova montagem, o diretor Gustavo Paso criou um escritório em obras, "uma brincadeira do primeiro dia deles após a promoção, num prédio novo. Mas as coisas ainda não estão prontas", diz.

É ali que Tony Muller (Rubens Caribé) e o jovem Daniel Fox (Iuri Saraiva), tipos vigaristas e com um tom de gângsters, discutem um roteiro cabuloso para um filme de ação, algo que acreditam ser sucesso garantido.

Mas a secretária de Tony (papel de Luciana Fávero) acaba persuadindo a dupla a adaptar um livro, uma obra muito menos comercial e de cunho social e humanista.

ARAR

O título original do espetáculo, "Speed-the-Plow", faz tanto uma referência religiosa quanto de êxito no trabalho. O termo bíblico, comumente usado na Idade Média, pode ser traduzido como "acelerar o arado", mas ganhou conotação de bom presságio, de quando se deseja ao outro prosperidade e sucesso.

Numa entrevista ao "Chicago Tribune" em 1989, Mamet explicou que tentara vários nomes para a peça, mas só encontrou um ao ver gravada numa série de louças antigas a frase "Industry produceth wealth, God speed the plow" (a indústria produz riqueza, que Deus acelere o arado, em um inglês arcaico).

"'Speed-the-Plow' era perfeito porque não só significava trabalho mas ainda sugeria ter que enterrar algo e começar de novo", disse ao jornal.

Para Paso, ainda que tenha sido escrita há 30 anos, a peça ecoa muitas questões contemporâneas, como o debate da arte em contraponto com o sucesso comercial e o assédio e o sexismo existentes dentro do meio artístico.

trilogia mamet

QUANDO qui. a sáb., às 20h30; "Hollywood": de 11/1 a 10/2; "Oleanna": de 15 a 17/2; "Race": de 22 a 24/2
ONDE Sesc Pinheiros - auditório 3º andar, r. Paes Leme, 195, tel. (11) 3095-9400
QUANTO R$ 7,50 a R$ 25
CLASSIFICAÇÃO 14 anos ("Hollywood") e 16 anos ("Race" e "Oleanna")

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