Livro 'Me Chame pelo Seu Nome' traz o mesmo erotismo que há no filme

Crédito: Divulgação Cena do filme 'Me Chame pelo Seu Nome
Cena do filme 'Me Chame pelo Seu Nome'

GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

O erotismo que o filme de Luca Guadagnino despeja na tela também encharca a obra que o embasa, o romance homônimo "Me Chame pelo Seu Nome", de André Aciman.

Pelas páginas do egípcio radicado nos EUA, Elio e Oliver trocam "gosmas", e cheiram, beijam e lambem cada pedaço do calção do outro.

"O corpo merece ser examinado da mesma forma que as emoções dos personagens", diz o escritor, por telefone. "Se você diz 'pênis' em vez de 'pau', está criando uma barreira. Eu não queria me afastar de certos temas em nome de uma prosa bela."

O livro, que ganhou edição brasileira a reboque da estreia do filme, foi publicado nos Estados Unidos em 2007 e guarda poucas diferenças em relação ao roteiro. Lá já está o mesmo verão italiano nos anos 1980 que embala a relação entre o europeu Elio, 17, e o americano Oliver, 24.

Nas páginas, o escritor borda um tratado sobre o desejo a partir da fusão entre os prazeres intelectuais (a literatura, a música, a filosofia) e os do corpo (o exercício físico, a comida e, é claro, o sexo).

"Mente e corpo andam juntos, e antes de o corpo entrar em jogo, a mente já está alerta interpretando todos os sinais ao redor", diz o autor.

O roteiro do longa, escritor pelo cineasta James Ivory, transformou o filósofo Oliver que existe no livro em um pesquisador arqueológico.

Sai a dialética de Heráclito sobre percepções da realidade e entram bustos feitos por Praxíteles, escultor que deu contornos sensuais às estátuas gregas. É o pretexto para o filme evocar a visão helênica da relação entre dois homens.

Mais que isso, o livro se apoia na condição judaica como fator mais forte de união entre os protagonistas, imersos numa hipercatólica Itália -analogia à própria sexualidade no armário de ambos: Oliver, um judeu mais extravagante, Elio, mais discreto.

Fora da trama, o livro do heterossexual Aciman divide o universo gay. Na revista "Slate", a transformista americana Miz Cracker indaga por que homossexuais se apaixonaram personagens que não orbitam o universo LGBT. "Talvez por esse romance não gay ser tão hétero -e se há algo que os gays amam é correr atrás dos héteros", escreve.

"É uma polêmica boba", responde o escritor. "Acredito que todo ser humano tem uma sexualidade fluida, tão volátil quanto é o apetite."

A obra também é alvo do bombardeio de outra vertente ideológica, conservadora, que se põe indignada com o fato de o romance narrar os encontros sexuais de um menor de idade com um homem mais velho. "Não penso a esse respeito. É Elio, o adolescente, quem insiste na consumação da relação, e não o inverso. Odeio leituras morais sobre a literatura."

ME CHAME PELO SEU NOME
AUTOR André Aciman
TRADUTORA Alessandra Esteche
EDITORA Intrínseca
Quanto R$ 39,90 (288 págs.)

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