MARIA LUÍSA BARSANELLI
DE SÃO PAULO

Um detalhe levou os olhos de Jô Soares à peça "A Noite de 16 de Janeiro", da russo-americana Ayn Rand: o título coincide com a data de nascimento do artista, que neste 16 de janeiro completa 80 anos.

"E eu nasci de noite mesmo, às 22h50. Sei porque minha mãe fazia, o que era muito comum naquela época, o livro do bebê", conta ele.

O texto de Rand está entre os próximos projetos de Jô, que há um ano se despediu de seu talk show na Globo e tem se dedicado mais ao teatro, além de sua autobiografia "desautorizada", cuja primeira parte saiu em novembro passado. A outra metade está prevista para o segundo semestre (leia abaixo).

"A Noite..." ainda marca o retorno de Jô aos palcos como ator desde "Remix em Pessoa" (2007), adaptação de poemas de Fernando Pessoa. Na nova peça, que ele também dirige e tem previsão de estreia para 5 de maio, no Tuca, Jô interpreta o juiz de um tribunal.

"Que ninguém espere uma atuação extraordinária, porque não é um grande papel. Só tem que bater com o martelo, pedir silêncio, dizer 'protesto aceito', 'protesto negado'. Mas vou me divertir muito."

A peça de Rand simula o julgamento de uma secretária acusada de matar seu ex-patrão e amante. Parte da plateia fica sobre o palco e faz as vezes de júri. O final tem duas possibilidades: ou o público condena a ré ou a absolve.

OS CULPADOS

O texto teve uma montagem brasileira em 1949, nos primórdios do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), com Paulo Autran e Nydia Licia no elenco. Jô reconta, em sua autobiografia, uma sessão do espetáculo em que um português dono do bar vizinho ao TBC foi convidado a participar do júri. Ficou responsável por ler a sentença ao final.

Ao ser questionado pelo juiz se haviam chegado a algum veredito, respondeu com entusiasmo: "Sim, meritíssimo. A culpada é inocente!".

Em sua versão, Jô quer fazer como na primeira montagem da Broadway, de 1965, com o programa da peça simulando a convocação dos jurados.

Crédito: Reprodução (FILES) This file photo taken on June 11, 2014 shows French writer and jury member for the French literary prize Prix Sade, Catherine Millet posing in Paris. Feminists and one of the women who accused fallen Hollywood mogul Harvey Weinstein of rape turned on French actress Catherine Deneuve on January 10, 2018 after she signed an open letter attacking the #MeToo movement for leading a witch-hunt against men. It was also signed by Catherine Millet, whose explicit 2002 memoir, "The Sexual Life of Catherine M.", was a defence of libertine lifestyles. / AFP PHOTO / Joël SAGET ORG XMIT: 5063
Anúncio da montagem de 1965 de 'A Noite de 16 de Janeiro' no Ambassador (NY), que 'convocava' o júri

"Eu sempre fui fascinado por histórias de tribunal, como a peça '12 Homens e Uma Sentença', com o [ator] Norival Rizzo dando um show" –o espetáculo volta ao cartaz nesta sexta-feira (19), no Teatro Arthur de Azevedo. "Ah, vai voltar? Mas eu quero o Norival no meu elenco. Vou pedir pra ele trocar."

Na fila de projetos, Jô ainda coloca "A Lição", de Ionesco, que ele quer dirigir e na qual dividiria a cena com Erica Montanheiro. "Aí é um papel mesmo, mas é um texto gigantesco pra decorar e eu tô empurrando com a barriga."

E foi convidado por Bete Coelho para encenar uma montagem de "A Malvada", mesma trama levada ao cinema em 1950, com Bette Davis.

INFÂNCIA

A história de Jô no teatro remonta à infância, um gosto muito influenciado pela mãe, Mercedes Leal Soares, a Mêcha, e pela passagem dele pela Europa, na juventude.

Já mais velho, descobriu que um tio-avô seu, Orris Soares, nos anos 1920 escrevia peças "revolucionárias" no interior da Paraíba.

Jô, que começou fazendo shows de humor, conta que ficou conhecido no meio teatral pelas imitações que fazia, como a do "jeito de andar" do ator Adolfo Celi.

Em 1961, ganhou de Cacilda Becker um dos seus primeiros papéis de destaque, na comédia "Oscar", de Claude Magnier. Do teste, Jô se recorda da reação da atriz e diretora: "Está tudo errado, mas você vai fazer o papel genialmente bem. Vamos lá pra casa".

"Cacilda me ensinou muito", diz ele. "De jogadas teatrais, de maneiras de abordar um texto, de por que fazer daquela forma, tudo isso foi ela."

Crédito: Reprodução Lélia Abramo, Cacilda Becker, Walmor Chagas, Jô, Benjamin Cattan e Nilda Maria em "Oscar"
Lélia Abramo, Cacilda Becker, Walmor Chagas, Jô, Benjamin Cattan e Nilda Maria em "Oscar"

Tornou-se diretor em 1965, com a peça "Soraya, Posto 2", de Pedro Bloch, pelas mãos da atriz e produtora Ruth Escobar, morta em outubro passado, aos 81. "Era maluquice da Ruth, daquelas coisas audaciosas dela", lembra ele. "Ela chegou e disse: 'Tu vais ser diretor. A próxima peça tu diriges'. Criou pra mim a carreira de diretor e eu sou eternamente grato a ela."

Da encenação, Jô foi desenvolvendo o hábito de traduzir seus espetáculos. Já fez assim em "Romeu e Julieta", em 1969, que tinha Regina Duarte e Heleno Prestes no elenco. "Quando o texto é de um autor estrangeiro, faço questão de traduzir porque minha direção já começa ali: vou adaptando a peça."

MORRER NA ÁFRICA

Em sua biografia, Jô reconta uma história de Ruth. A portuguesa radicada no Brasil lhe contou certa vez que já morrera na África: deixou de pegar um voo que caiu em Angola. Seu nome estava na lista de mortos, e ela não desmentiu.

"Perguntei o motivo e ela me falou: 'Fiz tábua rasa. Como as dívidas que eu tinha por lá, que não me interessavam também'", conta ele, imitando o sotaque lusitano de Ruth.

"Ela deixou dívidas pra um monte de gente. É difícil você julgar a Ruth por um critério convencional, porque ela fez montagens em que acabou não pagando ninguém, mas fez mudanças importantíssimas no teatro brasileiro."

Hoje, diz, é "impensável" realizar criações como Ruth fez em "O Balcão" (1969), de Jean Genet, remodelando a arquitetura do teatro para abrigar o cenário da montagem.

"É incrível o número de pessoas que eu conheci mais interessantes do que eu", diz Jô, pensativo. "A grande sorte que eu tenho é exatamente essa, de ter fontes de inspiração muito mais intrigantes."

autobiografia

O segundo volume de "O Livro de Jô - Uma Autobiografia Desautorizada", memórias escritas com o editor Matinas Suzuki Jr., sai no próximo semestre. "Está tudo [as conversas] gravado. Falta pôr no papel", diz Jô. A primeira parte foi lançada em novembro passado.

o gordo em cena

Alguns trabalhos de Jô no teatro

Oscar (1961)
Um de seus primeiros papéis de destaque, em que atua ao lado de Cacilda Becker (que também dirigia) e Walmor Chagas

Soraia, Posto 2 (1965)
Estreia na direção, incentivado pela atriz Ruth Escobar, com o texto de Pedro Bloch

Romeu e Julieta (1969)
Dirige uma jovem Regina Duarte e Heleno Prestes na tragédia shakespeariana, que traduziu

Crédito: Arquivo - 1969 (FILES) This file photo taken on June 11, 2014 shows French writer and jury member for the French literary prize Prix Sade, Catherine Millet posing in Paris. Feminists and one of the women who accused fallen Hollywood mogul Harvey Weinstein of rape turned on French actress Catherine Deneuve on January 10, 2018 after she signed an open letter attacking the #MeToo movement for leading a witch-hunt against men. It was also signed by Catherine Millet, whose explicit 2002 memoir, "The Sexual Life of Catherine M.", was a defence of libertine lifestyles. / AFP PHOTO / Joël SAGET ORG XMIT: 5063
Jô Soares com Regina Duartee Heleno Prestes nos bastidores de "Romeu e Julieta", em 1969

Ame um Gordo Antes que Acabe (1976)
Um dos nove "one man show" de Jô, em que interpreta diversos personagens

Brasil da Censura à Abertura (1980)
Divide a dramaturgia com Armando Costa e José Luiz Archanjo em peça baseada no anedotário político nacional recolhido por Sebastião Nery

Frankenstein (2002)
Dirige Mika Lins e Bete Coelho em montagem do espetáculo de Eduardo Manet

Crédito: Lenise Pinheiro/Folhapress (FILES) This file photo taken on June 11, 2014 shows French writer and jury member for the French literary prize Prix Sade, Catherine Millet posing in Paris. Feminists and one of the women who accused fallen Hollywood mogul Harvey Weinstein of rape turned on French actress Catherine Deneuve on January 10, 2018 after she signed an open letter attacking the #MeToo movement for leading a witch-hunt against men. It was also signed by Catherine Millet, whose explicit 2002 memoir, "The Sexual Life of Catherine M.", was a defence of libertine lifestyles. / AFP PHOTO / Joël SAGET ORG XMIT: 5063
Mika Lins e Bete Coelho em "Frankenstein", de 2002

Ricardo 3º (2006)
Leva o Prêmio Qualidade Brasil por sua montagem do clássico de William Shakespeare

Na Mira do Gordo (2007)
Outro de seus 'one man show'; este chegou a rodar por Portugal por três anos

O Libertino (2011)
Encena o texto de Eric-Emmanuel Schmitt, com Cassio Scapin, Luiza Lemmertz e outros no elenco

Troilo e Créssida (2016)
Em mais um Shakespeare, dirige nomes como Maria Fernanda Cândido e Marco Antônio Pâmio

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