IARA BIDERMAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A autorização para o diretor Zé Celso remontar "Roda Viva" demorou a chegar. Um dos motivos era o autor, Chico Buarque, considerar a peça datada.

O argumento nem conta para Zé Celso, 80. "Sou eternamente 68 [ano de estreia da peça]", afirma. A montagem é um dos sonhos que mantém na velhice, assunto também tratado nesta entrevista, realizada no Teatro Oficina, em São Paulo.

Folha - Aos 80, quais são os seus sonhos?

Zé Celso - Meu maior sonho é viver o aqui e agora. E viver 1968, por que é o ano do aqui e agora. De repente, a humanidade inteira teve esta percepção, não sei por quê, todos perceberam que os regimes capitalistas e comunistas não estavam funcionando. Eu sou eternamente 68.

Por isso também a vontade de remontar "Roda Viva"?

Por tudo. É a primeira peça de um poeta maravilhoso. Acompanho ele agora, ele canta como um menino. O Chico não cresce, é uma criança. Vou me inspirar um pouco naquela música que fez agora, "As Caravanas", para o novo "Roda Viva".

E as ideologias: envelhecem mal?

As ideias se renovam. Eu estou com uma luta que tem a ver com a luta geral. Faço coisas sintonizadas com os acontecimentos de São Paulo, do mundo. Agradeço estar neste lugar [o Teatro Oficina] e ter o como antagonista o Silvio Santos, em nome do capital financeiro.

Ver ideias, do seu ponto de vista retrógradas, ganhando espaço, desanima?

Eu sou guerreiro, isso me estimula. Essa é a terceira fase da minha vida, depois do exílio. E é maravilhoso. Envelhecer nesta situação me faz vivo.

Vou fazer como aconteceu com "O Rei da Vela" e "Roda Viva", no fim dos anos 1960. A gente não sabia o que fazer depois do golpe militar e acabamos inventando uma cultura nova.

Está inventando algo novo para a montagem?

Antes de mais nada tenho que levantar dinheiro. O primeiro "Roda Viva" teve uma produção maravilhosa. Eram 13 pessoas no coro, o Flávio Império fez figurinos e cenários incríveis, temos de ter coisas assim. Vai ficar lindo, mas tem que ter grana.

Vale a pena: em épocas como a que estamos vivendo, fazer teatro é dar poder às pessoas. É ter voz ativa, como na música da peça. A gente tem voz e corpo ativo.

O que mais você ainda sonha fazer?

Estou querendo amar de novo. Nessa idade em que estou é mais difícil descobrir o amor. Não sei por quê, não é falta de libido. É difícil abrir espaço, mas, apesar dos meus 80 anos, pretendo me apaixonar. Tenho muita libido, muito amor e sei levar ao êxtase.

Atualmente estou sozinho, talvez fique assim mais 15 anos, quem sabe? Eu não fico esperando nada. A arte, o teatro, a natureza também me despertam muita vida. O que me inspira na velhice é o êxtase. E tem muito velho assim como eu, viu?

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