Ágil, 'Hollywood' expõe crueza da indústria do cinema e seu sexismo

AMILTON DE AZEVEDO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

HOLLYWOOD (muito bom) * * * *
QUANDO qui. a sáb., 20h30; até 10/2
ONDE Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195, tel. (11) 3095-9400
QUANTO R$ 7,50 a R$ 25
CLASSIFICAÇÃO 14 anos

Tony Miller (Rubens Caribé), recém-promovido diretor de produção de um estúdio hollywoodiano, mal instalou-se em sua sala quando seu pupilo, Daniel Fox (Iuri Saraiva), o procura com boas novas.

Um grande astro se interessou por um roteiro apresentado por Fox, e tudo indica que será um enorme sucesso. Mas quando Karen (Luciana Fávero), uma secretária temporária, aparece, o entusiasmo de ambos se coloca em xeque.

Com essa estrutura básica, a CiaTeatro Epigenia conclui, com a peça "Hollywood", sua trilogia de textos do americano David Mamet. A discussão acerca de relações de poder dá o tom dos três espetáculos. Sucintamente, em "Oleanna" uma universitária denuncia um professor de assédio. Em "Race", um homem branco acusado de estuprar uma mulher negra busca sua defesa.

A inteligência de Mamet é desenvolver tais premissas de forma inesperada, levando a reflexão para outros lugares.

A direção de Gustavo Paso, sem medo de excessos de teatralidade nas atuações, faz bom uso das transformações propostas pela dramaturgia.

Quando Fox e Miller conversam, no início, o absurdo estereotipado do politicamente incorreto chega a ser hilário. É só quando Karen entra em cena que somos lembrados de que aquelas duas figuras masculinas, vulgares e sexistas, não estão distantes de nossa realidade –Hollywood, sem aspas, que o diga.

No entanto, a ingenuidade de Karen rapidamente se esvai e a personagem se insere no questionamento do espetáculo. Todos ali são engrenagens de um mecanismo maior. E cada um buscará se dar melhor nesse sistema.
Com diálogos ágeis, a encenação se sustenta na interpretação dos atores. Enquanto Caribé é verborrágico e autoconfiante, Saraiva trabalha em um registro que vai da ansiedade à excitação.

Fávero apresenta de forma mais sutil sua personagem, entre a expansão e a contenção de seus colegas. Tais escolhas funcionam muito bem no jogo, no qual, a cada momento, um parece estar por cima.

Os demais elementos favorecem a relação dos atores. A luz, de Paulo Cesar Medeiros, indica apenas a mudança de espaços e a passagem do tempo. O cenário, de Paso, serve como escritório e casa. Com toda a ação se passando em um dia, a estrutura de um local em reforma remete à velocidade com que alguém chega ao topo e pode cair de lá.

Se a crítica de Mamet parece óbvia no primeiro ato, o segundo problematiza essa leitura e o terceiro nos deixa sem muitas certezas. Não basta pensar na discussão entre arte e entretenimento na indústria cinematográfica. A peça deixa a dúvida do que somos capazes de fazer para conseguirmos o que queremos.

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