Descrição de chapéu Crítica

Ambientado nos anos 1980, 'A Repartição' usa clichês a seu favor

Os personagens são vítimas e vilões quase na mesma medida 

Doutor Brasil (Tonico Pereira) tem de enfrentar a morosidade do registro de patentes
Doutor Brasil (Tonico Pereira) tem de enfrentar a morosidade do registro de patentes - Reprodução
Marina Galeano
São Paulo

Os acordes iniciais da ópera "O Guarani", de Carlos Gomes, seguidos pela frase "em Brasília, 19h" dão o tom do primeiro longa-metragem do cineasta Santiago Dellape, "A Repartição do Tempo".

Após trabalhar em curtas premiados, o diretor propõe ao espectador uma história de ficção ambientada nos anos 1980, porém, impregnada de uma atualidade indiscutível e de um olhar crítico travestido na forma de comédia.

Não por acaso, ele afirma que sua inspiração vem de cults da época, como "Os Goonies" (1985) e "De Volta para o Futuro" (1985), além das inúmeras produções estreladas pelos Trapalhões.

Um filme estilo Sessão da Tarde, nas palavras do próprio Dellape. Mas muito mais politizado e com ingredientes bem brasileiros, diga-se.

Quando o doutor Brasil (Tonico Pereira) se dirige ao R.E.P.I. (Registro de Patentes e Invenções) para catalogar o protótipo de uma máquina do tempo, dá de cara com toda a burocracia que afoga o funcionalismo público do país.

À espera de um carimbo que nunca chega, a engenhoca fica esquecida em um dos cantos da repartição.

Certo dia, o equipamento é descoberto pelo chefe psicótico, que usa a parafernália com o intuito de duplicar os funcionários, escravizá-los e aumentar a produtividade. E aí começa o inferno de Jonas (Edu Moraes), Carol (Bianca Muller) e Zé (André Deca).

 

Enquanto a turma tenta descobrir como acabar com o plano diabólico de Lisboa (Eucir de Souza), seus clones pegam firme no batente, carimbando documentos de maneira automática, como em "Tempos Modernos" (1936).

Embrulhada por uma fotografia competente –que reproduz uma atmosfera claustrofóbica–, a narrativa constrói um retrato descomprometido e bem-humorado da morosidade do serviço público.

Os personagens, cheios de ambiguidade, são vítimas e vilões quase na mesma medida e despertam sentimentos variados na plateia. Efeito de um texto inteligente que consegue usar clichês e estereótipos a favor da história. E de um elenco afinado.

Eucir de Souza se sobressai como o caricato chefe, mas é a participação especial de Dedé Santana como um investigador histérico que dá o tempero nostálgico à trama.

Embora pudesse ter alguns bons minutos a menos, "A Repartição" soma pontos ao fugir do marasmo e ao se aventurar em terrenos pouco explorados no cinema nacional. Um filme simples e criativo, que faz rir e faz pensar.

A Repartição do Tempo

  • Quando Estreia nesta quinta (1°)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Eucir de Souza, Tonico Pereira, Edu Moraes e Dedé Santana
  • Produção Brasil, 2016
  • Direção Santiago Dellape
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