Descrição de chapéu Crítica

Ridley Scott filma 'Todo o Dinheiro do Mundo' com vigor

Filme recorda história de J.Paul Getty, milionário que se recusa a pagar resgate do neto

Christopher Plummer interpreta bilionário J. Paul Getty em filme de Ridley Scott
Christopher Plummer interpreta bilionário J. Paul Getty em filme de Ridley Scott - Divulgação
INÁCIO ARAUJO

"Todo o Dinheiro do Mundo" reporta-se a um fato ocorrido em 1973, mas será difícil negar sua atualidade. E isso se deve, justamente, a J. Paul Getty, o arquibilionário que, ao ter o neto sequestrado, recusa-se a levantar um dedo para pagar o resgate de US$ 17 milhões pedido.

RidleyScott deixa em segundo plano o aspecto policial da trama para fazer de Getty (Christopher Plummer) o seu centro. Ou seja, o dinheiro, que para ele não é um meio, mas um fim em si mesmo. Ao saber do sequestro de Paul, sua primeira reação é perguntar se sequestro é dedutível de Imposto de Renda...

Pouco depois (ou antes, tanto faz) ele deixa bem claro para todos ao seu redor que, se por uma vez pagar resgate por um familiar, não fará outra coisa no futuro a não ser pagar resgates de parentes sequestrados.

Eis aí um herói do neoliberalismo. E talvez por isso interesse a Scott. E Scott funciona mais ou menos assim: quando tem um material que lhe interessa os filmes melhoram. "Todo o Dinheiro..." não é nenhum "Blade Runner", mas Scott coloca o maior vigor possível ao narrar o episódio.

Poderia se privar de coisas como o horrível momento em que Paul, o neto, tem a orelha decepada. Mas insere bem a personagem da mãe (Michelle Williams) como contraponto a Getty. Como é apenas nora do velho milionário (divorciada do marido, alcoólatra), deixa para ele a impressão de que poderia até mesmo forjar o sequestro do rapaz para levantar algum da fortuna do zilionário.

Da mesma forma, o trabalho sobre o chefe de segurança (Mark Wahlberg) é bem interessante. Ele transmite a ideia daquele especialista em crises capaz de resolver qualquer problema.

A estrela, porém, é Getty. E ele nem precisa aparecer demais. Basta ser essa espécie de caricatura do Tio Patinhas. Basta ser quem é e, de passagem, mencionar a si mesmo como autor do livro "Como Ser Rico". A ênfase aqui vai para "ser", pois o velho sovina entende que "ficar" rico é coisa possível para qualquer um. Permanecer rico, ao contrário, exige uma obstinada dedicação ao dinheiro e às coisas que ele compra (quadros, objetos em geral, mansões).

 

Existe aí um caráter ideológico bastante evidente: a condenação do capital financeiro contenta muito bem a nós, leigos e eventuais vítimas dos milionários que as políticas neoliberais parecem produzir às dúzias. Lembra, no mais, que dinheiro não traz felicidade etc.

Ou não; se atentarmos bem aos seus rostos talvez cheguemos a outra conclusão: o rosto de Getty exprime sempre uma felicidade que vem do prazer de ter. Felicidade meio satânica, mas felicidade de todo modo, que inclui o prazer de, por exemplo, decidir sobre a vida de outras pessoas.

Já à pobre nora pobre resta correr atrás de um dinheiro salvador sobre o qual não tem poder de decisão. Resta-lhe submeter-se à vontade do rico, em suma, tanto quanto o chefe de segurança e os demais lacaios.

É um filme que garante a diversão, sem dúvida: faz os pobres e remediados se sentirem ricos interiormente enquanto o mundo das finanças se diverte com uma acumulação improdutiva, isto é, inconsequente.

TODO O DINHEIRO DO MUNDO (ALL THE MONEY IN THE WORLD)

  • Quando estreia nesta quinta (1º)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Michelle Williams, Mark Whalberg e Christopher Plummer
  • Produção EUA, 2017
  • Direção Ridley Scott
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