Descrição de chapéu Análise artes plásticas

Mostra de Tarsila ilumina antecedentes dos já difundidos construtivistas

Marcos Augusto Gonçalves
São Paulo

A obra de Tarsila, que queria ser na arte a caipirinha do interior paulista e a pintora de seu país, chega ao MoMA para iluminar os antecedentes de um período do modernismo brasileiro que já se tornou relativamente conhecido no circuito internacional.

Após a "descoberta" de artistas ligados ao construtivismo do pós-Guerra e a seus desdobramentos estica-se o olhar para o que havia antes.

Retrato de Tarsila do Amaral (mostra do MoMA)
Tarsila do Amaral, em foto da década de 1920 - Divulgação

Musa do nosso "modernismo plantation", Tarsila é uma das personagens que saltaram para a modernidade de uma plataforma improvável, a oligarquia cafeeira, cuja opulência fomentou a industrialização e produziu a miragem de um projeto nacional liderado pela elite paulista.

A figura culta, educada e cosmopolita de Paulo Prado, mentor e mecenas da Semana de 22, foi quem melhor encarnou esse esforço na articulação com o meio cultural. É dele o prefácio de "Pau-Brasil", primeiro livro de poemas de Oswald de Andrade, lançado por uma editora parisiense em 1925, com capa e ilustrações de Tarsila.

Filha de família abastada, a artista passou algumas temporadas fora do Brasil. Estudou em Barcelona, ainda menina, e depois fez sucessivas viagens à Europa, particularmente a Paris, onde matriculou-se na Academia Julian e, posteriormente, teve aulas com Fernand Léger.

Em junho de 1922, meses após a Semana (da qual não participou), Tarsila, de volta de um período na França, conheceu o grupo de jovens modernistas, por intermédio de Anita Malfatti, de quem se tornara amiga, em aulas de pintura em São Paulo.

Três anos mais nova, Anita já havia estudado em Berlim e Nova York e realizado sua famosa exposição de arte moderna em 1917, mas fora levada, por uma série de motivos, a reencontrar pintores tradicionais, como Pedro Alexandrino, numa época em que —Tarsila que iniciou sua carreira de certa forma tardiamente— ainda se exercitava.

A amizade das duas —e não deixa de chamar a atenção o brilho feminino em nossa constelação modernista— com Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia foi decisiva.

As peripécias do autodenominado Grupo do Cinco ficaram registradas num célebre desenho de Anita, no qual Mário e Tarsila aparecem de costas tocando piano; Oswald e Menotti estão estirados no tapete, e a autora num sofá. "Parecíamos uns doidos em disparada por toda parte na Cadillac de Oswald, numa alegria delirante", lembrou a artista, em 1950.

Oswald e Tarsila acabaram por namorar —e casaram-se.

A relação produziu bons frutos artísticos. Correspondeu à fase mais imaginosa e potente do movimento modernista paulista, que vai de 1923 a 1929, marcada pelos manifestos oswaldianos ("Pau-Brasil" e "Antropófogo") e pelas obras fundamentais de Tarsila ("A Negra", "O Antropófogo", "Abaporu") --além do crucial "Macunaíma", de Mário.

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