Descrição de chapéu Artes Cênicas

Na Polônia, teatro volta à resistência, diz encenador Krystian Lupa

Diretor apresenta na MITsp espetáculo 'Árvores Abatidas', adaptado de Thomas Bernhard

NELSON DE SÁ
São Paulo

Aos 74, saudado como um dos maiores diretores teatrais na Europa, Krystian Lupa está acuado na Polônia. O governo do partido Lei e Justiça vem cercando as artes e outros setores, a ponto de o país estar sob ameaça de suspensão de seus direitos na União Europeia.

 

"As autoridades vão apagando teatros progressistas em nome da implantação de uma política cultural cada vez mais agressiva, que trata a arte como um instrumento de propaganda", afirma em entrevista à Folha.

Na MITsp, Lupa apresenta "Árvores Abatidas", adaptado do romance do austríaco Thomas Bernhard (1931-89). O espetáculo faz "uma vivissecção do conformismo dos artistas que facilitam aos políticos populistas manipular o clima social".

 

Folha - Os ventos ultraconservadores já levam o teatro a uma posição de resistência, como nos tempos de domínio alemão e russo?

Krystian Lupa - As autoridades vão apagando teatros progressistas em nome da implantação de uma política cultural cada vez mais agressiva, que trata a arte como um instrumento de propaganda dos valores defendidos por essa política. Nas instituições culturais, museus, teatros, acontece uma substituição de diretores, que começaram a procurar artistas colaboracionistas para implementá-la.

O território da atuação dos artistas que lutam pelo progresso da arte e da liberdade de expressão artística está cada vez mais reduzido. Varsóvia, a cidade que até agora não foi dominada pelo Lei e Justiça, se tornou uma ilha dessa resistência artística.

O teatro realizou na Polônia e noutros países um esforço de educação da sociedade, em favor do multiculturalismo, da Europa unificada. Esse esforço se perdeu?

Eu receio que isso possa acontecer, se a política tiver êxito. Por enquanto, eles não têm artistas para realizá-la.

Um pequeno exemplo: depois de mais um concurso manipulado, para a vaga do novo diretor do Stary Teatr em Cracóvia, até agora um dos mais importantes centros de teatro progressista no país, foi criada, como forma de protesto contra esse tipo de ação do ministério da Cultura, a Guilda [associação] dos Diretores, que fez o boicote dos resultados do concurso e, em consequência, da nova diretoria.

Qual foi o efeito?

Como consequência, as obras criadas em teatros favoráveis ao Lei e Justiça têm um nível vergonhosamente baixo e não têm público, porque ele também boicota as ações culturais das autoridades. Então, essa política acaba caindo no vazio.

Mas no longo prazo o boicote não vai ser o bastante. Os artistas livres devem unir forças e criar obras mais radicais, que lutem pelo homem livre e progressista, pela continuação da evolução humanista.

A montagem de "Árvores Abatidas", com aquele encontro de artistas e intelectuais, dialoga com essa situação, na Polônia e na Europa?

"Árvores Abatidas" é também uma vivissecção do conformismo e do conjunturalismo dos artistas, que facilitam aos políticos populistas manipular o clima social. É um lembrete sobre a missão do artista, que deve consistir em ser intransigentemente fiel à verdade humana e artística. Sobre a missão de permanecer na vanguarda do gene humanista da evolução da humanidade.

O que está em jogo hoje é especialmente importante: O descarrilamento da sociedade do caminho de desenvolvimento fará com que caia no abismo de processos negativos que podem levar a mais um desastre.

Thomas Bernhard é muitas vezes crítico do catolicismo, em suas obras. Isso está presente no espetáculo?

Bernhard acha que o catolicismo é uma pista errada e retrógrada no desenvolvimento das sociedades europeias, em grande parte corresponsável pelos desastres dos século 20, pelo nazismo e fascismo em meados do século passado. Hoje, na Polônia, podemos encontrar a confirmação dessa opinião de Bernhard. A igreja polonesa tem um papel cada vez mais vergonhoso nessa regressão social, política e cultural que vai avançando.

Quando esteve na MITsp há dois anos, seu ex-assistente Krzysztof Warlikowski alertou para as ameaças do governo ao historiador Jan Gross, por tratar da perseguição de judeus por poloneses em Jedwabne, em 1941. Esse quadro se radicalizou agora, com a nova lei?

A recente revisão da lei sobre o Instituto da Memória Nacional, em relação ao Holocausto, é mais um ato de falsificação da história no espírito nacionalista. Um ato populista que cultiva ressentimentos e tendências xenófobas —no caso, o antissemitismo polonês— em grande parte de nossa sociedade. É um jogo cínico com essas opiniões, que traz o risco de prejudicar de forma imprevisível a imagem do país no exterior.

 

Além do espetáculo, Lupa realiza na MITsp uma oficina com artistas brasileiros. Ele adianta que vai se concentrar "na prática com a imaginação, na abertura do caminho entre a imaginação e o corpo do ator".

"É uma tentativa de penetrar e praticar o monólogo interior como um instrumento de conhecer o personagem representado pelo ator e de ganhar acesso à atividade psicológica e física desse personagem", explica.


Programação da MITsp

'Árvores Abatidas', de Krystian Lupa (Polônia); 2, 3 e 4/3, no Sesc Pinheiros

'Campo Minado', de Lola Arias (Argentina); 1, 2 e 3/3, no Teatro Sesi
'A Gente se Vê por Aqui - 24hs Globo', de Nuno Ramos (Brasil); 11/3, no Galpão do Folias

'Hamlet', de Boris Nikitin, com performance de Julian Meding (Suíça); 6, 7 e 8/3, na Faap
'King Size', de Christoph Marthaler, com a companhia Théâtre Vidy-Lausanne (Suíça); 3, 4 e 6/3, no Sesc Vila Mariana

'País Clandestino', de Maëlle Poesy (França), Jorge Eiro (Argentina), Lucía Miranda (Espanha), Pedro Granato (Brasil) e Florencia Lindner (Uruguai); 9, 10 e 11/3, no Cacilda Becker
'Palmira', de Nasi Voutsas (Grécia) e Bertrand Lesca (França); 5, 6 e 7/11, no Sérgio Cardoso

'sal.', de Selina Thompson e direção de Dawn Walton (Reino Unido); 7, 8 e 9/3, no Itaú Cultural

'Suite n°2', de Joris Lacoste (França); 1, 2 e 3/3, no Auditório Ibirapuera

MITbr; 6 a 10/3, em vários locais

AudioReflex; de 2 a 11/3, no Museu da Imigração

Ingr.: grátis a R$ 30 (nas bilheterias e no site mitsp.org)

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