Peças mesclam realidade e ficção ao tratar de relações

'Funâmbul@s', de Priscila Gontijo, e 'Aproximando-se de A Fera na Selva', de Marina Corazza, estreiam no CCSP

Vanise Carneiro (esq.), Michele Boesche (centro) e Eric Lenate durante ensaio de "Funâmbul@a"
Vanise Carneiro (esq.), Michele Boesche (centro) e Eric Lenate durante ensaio de "Funâmbul@s" - Lenise Pinheiro/Folhapress
MLB
São Paulo

​​Da realidade cai-se na ficção. Depois dela surge a memória. Ou tudo isso embaralhado. Costurando esses diferentes planos narrativos estão duas peças, assinadas por dramaturgas brasileiras, que estreiam nesta sexta (2) no Centro Cultural São Paulo.

"E o que seria o real? Às vezes o real é mais absurdo do que os sonhos", questiona-se Priscila Gontijo, que assina o texto de "Funâmbul@s".

A autora, que em sua obra costuma flertar com o absurdo e tratar de relações conturbadas, fala aqui de três irmãs, há muito distantes, mas que de repente se veem forçadas a conviver novamente.

Ana (Rafaela Cassol) é uma dramaturga sem muito sucesso e ganha a vida dando aulas de teatro. Júlia (Michelle Boesche) é artista, mas depende do emprego de garçonete para pagar as contas. Já Clara (Vanise Carneiro) tem uma vida de aparências, que esconde um casamento turbulento.

Elas acabam se reunindo depois que o pai (Eric Lenate), ex-professor e ator, apresenta uma espécie de demência senil e requer cuidados.

A narrativa se alterna entre três planos: a realidade da família, o sonho (ou a memória de cada uma das filhas com o passado do pai) e a metalinguagem --a peça que Ana está a escrever, cuja história se mescla com os demais acontecimentos.

"Gosto de brincar com a estrutura dramática, principalmente com a ruptura do tempo", diz Gontijo. "E, se coloco um pai com um tipo de Alzheimer, tenho mais liberdade para fazer essas quebras."

Para tratar do tema árido, a dramaturga pontua tudo com um humor melancólico. É ali que Lenate --que além de estar em cena assina a direção-- diz ter encontrado um caminho de comicidade triste.

Tudo é feito num universo circense e com uma linguagem clownesca, dos trajes e maquiagens de palhaço à interpretação pouco realista.

Lenate pontua os diferentes planos com cores distintas. A realidade, tratada de forma mais exagerada, ganha tons mais fortes e diversos. As matizes também acompanham a crise das personagens, que vai escalonando até chegar ao que o encenador chama de "apocalipse emocional".

Além, claro, da metáfora já no título do espetáculo: a filha funâmbula (Júlia), artista circense que se equilibra no arame. "A vida é o dançar do funâmbulo, nada é seguro, nada é garantido", comenta Gontijo. "Estamos todos na corda bamba, e cair faz parte", continua o diretor.

ANIMAL ARISCO

Já para falar sobre o clima de "não dito" que paira sobre "A Fera na Selva", livro do americano Henry James (1843-1916), decidiu-se destrinchar o romance e seu contexto, em especial como a obra foi influenciada pela relação do autor com a escritora americana Constance Fenimore Woolson (1840-1894).

"Aproximando-se de A Fera na Selva" se aproveita da costumeira dramaturgia quebradiça de Marina Corazza para essa desconstrução.

Na montagem, a dupla de atores (Gabriel Miziara e Helô Cintra) se reveza em três narrativas. Ora interpretam o texto de James, sobre um casal e seu relacionamento incerto, que não se conclui; ora vivem o autor e Constance; ora são eles mesmos, em tom narrativo, explicando a história.

Constance já era uma escritora de sucesso quando conheceu James. Nutriram uma amizade por anos, um relacionamento de admiração que beirava o amoroso, mas nunca se consumou --acredita-se que o escritor era gay; ele nunca assumiu a homossexualidade, tampouco se casou.

"Eles se entendem, mas não conseguem nomear o que eles têm juntos", diz Miziara.

"A Fera na Selva", publicada em 1903, após a morte de Constance, --que, depressiva, se jogou da janela de seu apartamento em Veneza--, reflete muito essa relação "não concluída" dos dois.

O espetáculo, que também se baseou em "O Mestre", romance de Colm Tóibín sobre a vida de James, e "Constance Fenimore Woolson: Portrait of a Lady Novelist", escrita pela americana Anne Boyd Rioux, reforça a personalidade forte da escritora, hoje pouco conhecida.

Para Miziara, "ela poderia ser vista como coadjuvante, mas era uma mulher visivelmente à frente do seu tempo".

A direção de Malú Bazán reforça os elementos do texto. Para refletir o aspecto teatral (e a camada em que os atores são eles mesmos), cria-se uma caixa preta no porão do CCSP, com cortinas que se abrem, revelando outros planos.

Um deles é um fundo com as ninfeias pintadas por Monet. Algo que representa a poética e a feminilidade de Constance, explica a diretora.


FUNÂMBUL@S

QUANDO sex. e sáb., às 21h, dom., às 20h; até 11/3

ONDE CCSP - sala Jardel Filho, r. Vergueiro, 1.000, tel. (11) 3397-4002

QUANTO R$ 20

CLASSIFICAÇÃO 14 anos


APROXIMANDO-SE DE A FERA NA SELVA

QUANDO quinta a sáb., às 21h, dom., às 20h; até 11/3

ONDE CCSP - espaço cênico Ademar Guerra, r. Vergueiro, 1.000, tel. (11) 3397-4002

QUANTO grátis

CLASSIFICAÇÃO 14 anos

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