Descrição de chapéu Crítica teatro

Versão teatral de 'A Fera na Selva' atinge beleza sublime e original

Peça costura obra de Henry James às biografias do autor e de Constance Fenimore Woolson

BRUNO MACHADO
São Paulo

Ainda que "Aproximando-se de A Fera na Selva" faça no título uma referência ao célebre conto de Henry James (1843-1916), a obra é apenas uma das fontes nas quais a dramaturga Marina Corazza e a diretora Malú Bazán beberam para criar um espetáculo em camadas. Esses níveis, literatura, biografia e teatro, são apresentados no início da peça pelos atores Gabriel Miziara e Helô Cintra.

 

A encenação faz uso de um tom didático para introduzir a obra e a vida de James. A escolha pode parecer trivial, mas se revela eficaz quando a tarefa é outra: apresentar os escritos da praticamente desconhecida Constance Fenimore Woolson (1840-1894).

A dramaturgia também encontra fôlego para questionar por que a obra da autora foi ignorada na posteridade. A existência de Constance reduziu-se a uma nota de rodapé na biografia de James; sua morte, um nebuloso suicídio, até há pouco, tinha por única explicação um amor não correspondido pelo escritor.

Fios constitutivos da montagem, vida e prosa dos escritores se entrelaçam. A amizade e o debate literário cultivados por ambos supostamente inspiraram "A Fera na Selva", e essa insinuação é a fagulha que anima todos os elementos do espetáculo, da dupla de intérpretes até a iluminação, o figurino e o cenário.

A cenografia é manipulada pelos atores, que se caracterizam em cena, como se desnudassem o esqueleto da montagem --uma dupla de mágicos que explica o truque à plateia. No entanto, os planos da encenação se multiplicam e se fundem num efeito caleidoscópico para criar significados diversos que, não necessariamente, cabem nos diálogos. Não cabem nas palavras.

Do mesmo modo, a prosa de James e Constance nem sempre parece caber no palco. Algumas cenas se limitam a narrar e não encenar o texto literário, como se a montagem reverenciasse o gênio criativo de seus autores e reconhecesse a impossibilidade de o gesto teatral abranger a complexidade da literatura.

Adaptar obras literárias para o palco não é novidade no teatro (uma versão de "A Fera na Selva", aliás, deu a Paulo Betti um Prêmio Shell de atuação). Mas, ao explorar as limitações desse expediente, a peça estabelece um sincero diálogo com a plateia e adquire beleza sublime e original.

Dramaturgia e direção resultam numa potente unidade estética. O esforço, contudo, não é de preencher as lacunas da vida, da obra e da relação entre James e Constance, e sim de obt er o efeito contrário: manter insolúveis os mistérios da relação entre ambos e da sua criação literária.

APROXIMANDO-SE DE A FERA NA SELVA

  • Quando qui. a sáb., às 21h, dom., às 20h (não haverá sessões de 11 a 17/2); até 18/3
  • Onde CCSP - espaço Ademar Guerra, r. Vergueiro, 1.000, tel. (11) 3397-4002
  • Preço grátis
  • Classificação 14 anos

 

 
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