São Paulo

A atriz Tônia Carrero, considerada um dos ícones da televisão e do teatro do país, morreu na noite do sábado (3) no Rio de Janeiro aos 95 anos. Por volta das 22h15, a atriz sofreu uma parada cardíaca durante uma cirurgia.

A morte foi confirmada pela clínica São Vicente, no bairro da Gávea, onde a atriz havia sido internada na última sexta-feira. Ela deixa um filho, Cecil Thiré, quatro netos (Carlos, Luiza, Miguel e João) e bisnetos.

Nascida em 23 de agosto de 1922, Maria Antonieta de Farias Portocarrero era graduada em Educação Física, mas fez carreira no mundo artístico.

Filha de general e dona de uma beleza marcante, ela nunca se contentou com o muito que tinha. Decidida a se arriscar enquanto atriz, foi estudar na França. Estreou no cinema em 1947, no filme "Querida Suzana", de Alberto Pieralisi, e no teatro em 1949, em "Um Deus Dormiu lá em Casa", na companhia de atores como Paulo Autran, que viria a ser seu parceiro constante.

A amizade de Tônia e Autran (1922-2007) rendeu uma cusparada em Paulo Francis (1930-1997), de quem o ator também era amigo. Desgostoso com as críticas de Francis contra a atriz, Autran planejou o ataque. “Juntei bastante cuspe e cuspi com prazer.”  

Agarrando-se apaixonadamente ao posto de primeira-dama do teatro, Tônia nunca deixou, no entanto, a vaidade levá-la ao superficial. Prova disso é o empenho que mostrou ao lutar por "Navalha na Carne", texto do "maldito" Plínio Marcos, em cuja montagem fazia o papel de Neusa Sueli, uma prostituta decadente, sem perder o glamour.

Com passagens marcantes no cinema ("Tico Tico no Fubá" é o mais lembrado) e na TV, nunca hesitou em endossar o trabalho de diretores jovens, como Gerald Thomas em "Quartett" e Élcio Nogueira em "O Jardim das Cerejeiras".

Ao todo, foram 54 peças, 19 filmes e 15 novelas.  Em 1980, ganhou o Troféu APCA como melhor atriz de televisão pela atuação na novela Água Viva. Um dos últimos trabalhos de Tônia na televisão foi na novela "Senhora do Destino", de 2004, como a madame Berthe Legrand.

No cinema, Tônia foi a estrela do célebre estúdio brasileiro Vera Cruz, em filmes como "Apassionata" (1952) e "É Proibido Beijar" (1954). No fim da carreira, ela interpretou aos 84 anos a personagem Alice no longa "Chega de Saudade" (2007), de Laís Bodanzky.  "A disposição do corpo não é a mesma", disse à Folha durante as filmagens sobre a chegada da velhice, que descreve como um poema: "De repente, não mais que de repente. Não se sente. De repente se acorda e está-se velha. Ora, que novidade besta!"

Em 2008, foi homenageada pelo Prêmio Shell. " Receber esta homenagem é muito gratificante para mim e graças a Deus eu tenho o reconhecimento do Prêmio Shell. Pois, é com teatro que a gente encontra a verdadeira consagração que hoje eu estou recebendo", disse à época.

"Ao fim e ao caboTonia acabou vitoriosa em todos os quesitos. Tornou-se desejada, amada e respeitada como mulher, como estrela e como atriz, não por um único homem, mas por multidões. Não importava sua idade –em qualquer ambiente em que entrasse alterava a temperatura desse ambiente, afirmou o escritor e colunista da Folha Ruy Castro. 

Carrero, em entrevistas à Folha, defendia menos conservadorismo nos costumes. Criticava restrições ao que as crianças assistiam e à nudez na televisão, por exemplo. " A erotização é uma coisa boa. Saímos de uma repressão total dos valores eróticos e só quando todos viverem 'à tripa forra', de acordo com seus instintos, é que vai se normalizar", disse em 2004. 

Em 2015, circularam boatos na internet sobre sua morte, levando a família da atriz a se pronunciar publicamente sobre seu estado de saúde. Tônia apresentava saúde frágil nos últimos anos. Sofria de hidrocefalia aguda, o que levou a atriz a viver reclusa em um apartamento na zona sul do Rio.

Em entrevista à emissora Globo News a neta Luísa informou que o velório deve ocorrer neste domingo, em local ainda a ser definido. O corpo da atriz será cremado na segunda-feira (5).

Cronologia de Tônia Carrero

23.ago.1922 - Na zona norte do Rio de Janeiro, nasce Maria Antonieta de Farias Portocarrero, que mais tarde se tornaria conhecida como Tônia Carrero.

1938 - Começa a estudar educação física.

1940 - Casa-se com o artista plástico Carlos Arthur Thiré, pai de seu único filho, o ator e diretor Cecil Thiré, nascido em 1943. Cecil daria a Tônia três netos. Hoje, a atriz é bisavó.

1947 - Estreia no cinema encenando um papel secundário em “Querida Suzana”, filme dirigido por Alberto Pieralisi e que tinha Anselmo Duarte no elenco. No mesmo ano, viaja para Paris e estuda teatro com Jean Louis Barrault.

1949 - Estreia no teatro atuando ao lado de Paulo Autran na peça “Um Deus Dormiu Lá em Casa”, encenada no teatro Copacabana pela companhia de Fernando de Barros. Pela atuação, recebe o prêmio de atriz revelação pela Associação de Críticos Cariocas.

1951 - Separa-se de Carlos Arthur Thiré e se casa com o diretor italiano Adolfo Celi. Contratada pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, muda-se para São Paulo e participa do filme “Tico-tico no Fubá”, lançado no ano seguinte.

1953 - Estreia no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia).

1954 – Atua pela última vez para a Vera Cruz em “É Proibido Beijar”, comédia dirigida por Ugo Lombardi.

1955 - Deixa o TBC para formar, com Paulo Autran e Adolfo Celi, a companhia de Teatro Celi-Tônia-Autran (CTCA), no Rio de Janeiro.

1956 - A CTCA estreia encenando “Otelo”, de William Shakespeare. Neste ano, Tônia recebe algumas premiações por sua atuação em “Entre Quatro Paredes”, de Jean-Paul Sartre.

1960 - Recebe o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de melhor atriz por sua atuação na peça “Seis Personagens à Procura de Um Autor”, de Luigi Pirandello, encenada no ano anterior.

1962 – Acaba o casamento com Adolfo Celi.

1964 - Casa-se com o engenheiro e empresário César Thedim

1965 - Monta sua própria companhia de teatro, a Companhia Tônia Carrero

1968 - Pela atuação em “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos, recebe o Prêmio Molière de melhor atriz.

1969 - Atua ao lado de seu filho, Cecil, na peça “Falando de Rosas”, de Frank D. Gilroy.

1970 - Estreia em telenovelas atuando em “Pigmalião 70”, de Vicente Sesso, novela das 19h exibida pela TV Globo.

1971 - Recebe o Prêmio Estadual de Teatro de melhor atriz por sua atuação na peça “Casa de Bonecas”, dirigida por Cecil Thiré.

1977 - Separa-se de César Thedim.

1980 - Participa do elenco da novela “Água Viva” (Globo), de Gilberto Braga. No mesmo ano, lança o livro “Como Manter a Forma”, com prefácio de Rubem Braga.

1986 - Escreve o livro “O Monstro de Olhos Azuis”, contando histórias de sua infância. Em outubro, é vítima de um sequestro relâmpago, do qual escapa ilesa.

1987 - Ainda na TV Globo, participa do elenco da novela das 19h “Sassaricando”, de Silvio de Abreu

1989 - Encena pela primeira vez um monólogo, intitulado “Essa Valsa É Minha”. Participa da novela “Kananga do Japão” (TV Manchete), de Wilson Aguiar Filho.

1995 - Participa da novela de Vicente Sesso “Sangue do Meu Sangue” (SBT).

1996 - Como cantora, grava a faixa “Carioca Boêmio” do álbum “Quem Somos Nós”, de Heitor Prazeres Filho.

2000 - Protagoniza o monólogo e recital “Amigos para Sempre”, de sua autoria.

2002 - Atua em “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt. A peça é produzida pela própria Tônia.

2004 – Atua pela última vez com Paulo Autran na minissérie televisiva “Um Só Coração”, da TV Globo, como coadjuvantes.

2005 – Encena o espetáculo “Chega de História”, com texto e direção de Fauzi Arap.

2006 – Atua em “Chega de Saudade”, filme de Lais Bodanzky que teve pré-estreia em 2007 no Festival de Brasília e foi lançado em 2008.

2007 – Faz sua última aparição no teatro em “Um Barco para o Sonho”, peça dirigida por seu neto, Carlos Thiré, e baseada no texto do autor russo  Alexei  Arbuzov.

2008 – É homenageada durante a festa do Prêmio Shell por seus mais de 50 anos de carreira.

2009 – Tem sua biografia lançada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, dentro da Coleção Aplauso. O livro, intitulado “Tônia Carrero – Movida pela Paixão”, foi escrito por Tânia Carvalho.

3.mar.2018 - Morre aos 95 anos no Rio

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