Descrição de chapéu Crítica

Com contorno político explícito, 'Western' vai além da retórica

Filme narra chegada de grupo de trabalhadores alemães a uma vila na Bulgária

Cássio Starling Carlos
São Paulo

WESTERN

  • Quando estreia nesta quinta (15)
  • Produção Alemanha/Áustria/Bulgária, 2017, 12 anos
  • Direção Valeska Grisebach

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 “Western” é aquele tipo de obra que quem só assiste a blockbusters chama de “filme em que não acontece nada”. O terceiro longa da alemã Valeska Grisebach, de fato, esvazia toda ação no sentido tradicional para produzir outro tipo de experiência.

Um homem sentado de costas sobre um parapeito mira uma vista verde, cheia de árvores e, ao fundo, montanhas; ao lado dele, uma bandeira da Alemanha
Meinhard Neumann no filme 'Western', de Valeska Grisebach - Divulgação

O título tem função irônica, já que o “western”, na cultura cinematográfica, foi um gênero fundador das histórias de ação tal como consumimos até hoje, com seus heróis enfrentando desafios, a conquista de novas fronteiras e conflitos entre o civilizador e bandos de selvagens bárbaros.

Aqui, vemos um grupo de trabalhadores alemães em meio à natureza. Um trator e referências a turbinas indicam que eles estão ali para dar início a uma grande obra. Nesse sentido, talvez sejam pioneiros ou ocupantes de um canto pobre do leste europeu, mais tarde identificado como uma vila na Bulgária.

Num dia de lazer à beira-rio, esses homens solitários veem a chegada de mulheres e logo começa uma abordagem que se torna agressiva. A cena se passa entre duas margens, espaço físico e simbólico que separa alemães, de um lado, e a população local, de outro.

Um cavalo é outro elemento central do “western” que reaparece como um elo de aproximação tanto como de fricção.

Um dos homens, o taciturno Meinhard, transita de um lado ao outro e sente uma rejeição pronta a explodir. O corpo magro e rígido de Meinhard e seu olhar vigilante traduzem esse estado de tensão permanente. 

Assim, “Western” transpõe estereótipos do velho Oeste, mas desfaz aquele cinema de relatos mitológicos. A bandeira alemã, hasteada pelos trabalhadores, ecoa um passado de ocupação militarista e um presente de liderança econômica. A reação local vem na forma regressiva de nacionalismo, de autodefesa, de tradicionalismo. A possibilidade de convivência desaparece do horizonte. Os idiomas bloqueiam o entendimento.

“Western” ganha, assim, um contorno político explícito. Não estamos, porém, diante de mais um filme retórico, como os que estreiam toda semana.

Grisebach põe em imagens uma situação concreta, mas sua estética abstrata produz outro nível de percepção, impalpável como o medo, algo que se pressente, que não se entende, mas que está aí.

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