Descrição de chapéu cinema Oscar rap

Emicida escreve sua cinebiografia, na qual interpretará seu próprio papel

Produção é do brasileiro Rodrigo Teixeira, produtor de 'Me Chame pelo Seu Nome'

Thales de Menezes
São Paulo

Emicida vai ao cinema. Na verdade, para a tela do cinema. O rapper paulistano fará seu próprio papel num filme a ser lançado no ano que vem. A produção é do brasileiro Rodrigo Teixeira, que desfruta de grande visibilidade na ressaca recente do Oscar.

O produtor Rodrigo Teixeira, à esquerda, e o rapper Emicida
O produtor Rodrigo Teixeira, à esquerda, e o rapper Emicida - Ênio Cesar/Folhapress

Teixeira produziu "Me Chame pelo Seu Nome", indicado a quatro estatuetas e vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado, do veterano cineasta James Ivory. O roteiro do projeto com Emicida deve ficar pronto até o final desde mês. A ideia é rodar o filme entre novembro e janeiro.

 

O cantor escreve o material com mais três pessoas: o diretor do filme, Aly Muritiba, dos longas "Minha Amada Morta" (2015) e "Ferrugem" (2018); Jessica Candal, roteirista e parceira habitual do cineasta; e o escritor Toni C., ligado à cena hip hop.

"Os caras estão pagando os pecados deles comigo", diz Emicida à Folha. Ele e Teixeira dão entrevista no novíssimo estúdio da Laboratório Fantasma, a produtora fundada por Emicida e seu irmão Fióti para ser o quartel-general de sua carreira e de outros artistas que os procuram.

As primeiras reuniões entre o rapper e o produtor foram em abril do ano passado. As negociações chegaram até o Natal, quando o contrato para a produção foi assinado na casa de Teixeira. "Minha meta é internacionalizar o filme, mas o financiamento é brasileiro", diz o produtor.

"Um dos motivos pelos quais eu vivia correndo desse lance de biografia é que sempre achei que era uma parada de velho, mano. Eu não vivi tudo isso ainda", diz Emicida.

"Tem uma pá de editoras que procura a gente para escrever a minha vida. Aí eu fico pensando: 'Jardim Fontalis, 1985, Emicida nasceu... Ah, tem tantas coisas que eu quero fazer, essa é uma que quero adiar ao máximo'."

Mas aceitou fazer o filme pela proposta de se concentrar nos primeiros anos de sua carreira. "Você pode fazer um recorte, uma imersão num período que te inspire. Aí, olhando assim, achei que a gente tem uma história muito valiosa para o Brasil recente."

Teixeira cita algumas cinebiografias como inspiração: "8 Mile" (2012), na qual Eminem atua como um rapper iniciante em roteiro autobiográfico, "Lenny" (1974), que mostra a morte precoce do humorista Lenny Bruce, e "Touro Indomável" (1980), a visão de Martin Scorsese para o boxeador Jake LaMotta.

"A gente não quer novelizar a vida dele, descaracterizar o Emicida", conta Teixeira. "Essas referências que cito são biografias extremamente bem-sucedidas. E acho que são boas porque têm um corte preciso na vida de cada personagem."

"É um filme de ficção baseado em fatos reais. E o Emicida é ele mesmo na tela, não vamos contratar um ator. Não faz sentido, ele tem domínio de palco, de tela. Ele e Fióti estão no filme ao lado de atores contratados."

ADRENALINA

Teixeira produziu no Brasil a cinebiografia de Tim Maia. Nos Estados Unidos, coproduziu no ano passado "Patty Cake$", sobre uma aspirante a rapper.

As indicações ao Oscar mudaram muito seu dia a dia. Entre o anúncio dos concorrentes e a cerimônia, viveu três meses que ainda não consegue descrever, com o filme em várias outras premiações.

"Você termina a temporada de cerimônias destruído. Eu estou acabado, não me recuperei. E esse nível de adrenalina insano está no ponto mais alto justamente no último dia, que é a entrega do Oscar. Na segunda depois da festa, eu não conseguia andar, precisava dormir. Mas adorei, foram três meses de escola, conheci muita gente."

Teixeira reconhece que sua carreira fora do país é mais bem-sucedida do que suas produções no Brasil. "Tenho três filmes nos Estados Unidos que levantaram a minha empresa; 'Francis Ha' (2012), 'The Witch' (2015) e 'Me Chame pelo Seu Nome'."

Afirmando que faz escolhas intuitivas, diz acreditar no potencial internacional do filme com Emicida.

"É o tipo de história que o americano gosta, ainda mais por ser ligada à música", diz o produtor. "Gosto de produzir o que vou ter vontade de ver. Já fiz filmes que não tive vontade de ver, e é o maior arrependimento que você pode ter nessa atividade."

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