Filme de Edir Macedo, que estreia em 1/3 das salas, nega ter inflado pré-venda

'Nada a Perder' repete passos do recordista 'Dez Mandamentos'; ambos venderam 3 mi antes da estreia

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

Veja salas e horários de exibição.

Nesta quinta (29), estreia a segunda superprodução com dedo da Igreja Universal do Reino de Deus que, mesmo antes de estrear, superou os 3 milhões de ingressos vendidos. "Nada a Perder", baseado na trilogia biográfica do bispo Edir Macedo que esgotou mais de 7 milhões de exemplares, trabalha com superlativos.

Foram mais de 6.000 figurantes, mil carros antigos alugados, ocupação de um terço (1.108 salas) dos cinemas do país e a expectativa de bater o recorde de outro filme dirigido sob encomenda por Alexandre Avancini.

A história periga se repetir, tanto a bilheteria estrondosa quanto as dúvidas sobre quão espontâneo é esse marco.

 

Há dois anos, "Os Dez Mandamentos" virou o filme brasileiro mais visto de todos os tempos, com 11,3 milhões de espectadores, 200 mil a mais do que o vice-campeão, "Tropa de Elite 2". Na época, acoplado ao sucesso veio a dúvida: quem pagou para ver?

Algumas salas de cinema tiveram todos os ingressos comprados, mas não encheram para o filme derivado da novela homônima da Record, emissora do bispo. Ganhou força, à época, a tese de que a Universal arrematou lotes e lotes de tíquetes e acabou criando um êxito em parte artificial.

Na época, a Folha foi abordada por mulheres da Universal que ofereciam entradas de graça antes de uma sessão. Também ouviu fiéis como Maria Betânia (que dizia não ter nada a ver com a "blasfema" irmã de Caetano Veloso), que fora ao cinema graças a um ingresso doado por um pastor.

A igreja nega ter usado a tática em 2016 e a reciclado agora. "O que existe é a mobilização espontânea de grupos da Universal [...], da mesma forma que os espíritas impulsionaram a audiência de 'Chico Xavier'", diz a nota "Inconformada com sucesso de 'Nada a Perder', mídia apela para 'fake news'", feita pelo departamento de comunicação da igreja.

Assim ela termina: "Talvez alguns jornalistas imaginem que a Universal esteja proibida de recomendar filmes a seus fiéis. Pois chegaram tarde. Milhões de espectadores irão aos cinemas para ver do que a palavra de Deus é capaz de produzir na vida das pessoas. E não há nada que a imprensa rancorosa e preconceituosa possa fazer contra isso".

Dias antes, Tony Goes, colunista do F5 (site de entretenimento da Folha), publicou um texto intitulado "Será que a bilheteria do filme sobre Macedo é 'fake'?".

Na sequência, a assessoria de imprensa do filme informou que a negociação paralela de uma entrevista do diretor à Folha foi interrompida, pois a opinião de Goes "repercutiu à beça, e todos recuaram".

Sessão de gala

Na terça (27), uma cena resumiu o espírito da pré-estreia: Rodrigo Faro declarava que "quando se tem fé, você só tem a ganhar", enquanto Sabrina Sato e Gugu Liberato, duas outras estrelas da Record, posavam com João Doria e a esposa, Bia Doria.

A noite foi um enxame de celebridades (sobretudo as empregadas pelo canal) e políticos em campanha —o governador que quer ser presidente (Geraldo Alckmin), o prefeito que quer virar governador (Doria), o presidente da Câmara que sonha com o Planalto (Rodrigo Maia) e o empresário que também cobiça o posto máximo de Brasília (Flávio Rocha).

A Riachuelo, empresa de Rocha, é uma das 11 patrocinadoras da obra. O empresário se filiou na mesma semana ao PRB, sigla ligada à Universal.

Ficaram de fora da sessão jornalistas, confinados a um espaço a dois andares de distância da sessão de gala, para que só falassem com quem a produção trouxesse até eles.

Em outra estratégia atípica, nem críticos de cinema puderam assistir à obra antes de ela entrar em cartaz, o que é de praxe no meio —para que o leitor da Folha, por exemplo, possa ler sobre o filme já no dia da estreia. Diretor-geral da Paris Filmes, a distribuidora, Márcio Fraccaroli disse que "o filme não ficou pronto" a tempo de mostrá-lo à imprensa.

Antes da sessão para convidados, Avancini contou sobre "as reuniões íntimas" que teve com o bispo, "para trocar figurinhas", no Templo de Salomão —onde se acha camisetas de "Nada a Perder" por R$ 20.

Na estampa, a imagem de Macedo (vivido por Petrônio Gontijo) atrás das grades. Em 1992, ele ficou 15 dias preso, denunciado pelo Ministério Público sob acusação de "delitos de charlatanismo, estelionato e lesão à crendice popular". O longa vai dos anos 1950 até a década de 1990.

Em sua biografia, Edir Macedo evoca personagens bíblicos ao lembrar daquelas duas semanas: "José havia sido preso. Daniel, encarcerado numa cova. Pedro sofreu as aflições de virar prisioneiro. A prisão tremeu quando eles oraram".

 
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