Descrição de chapéu

Novo filme de Spielberg, 'Jogador Nº 1' cativa com nostalgia pop

Visão distópica do diretor faz duro diagnóstico de nosso tempo e valoriza a amizade 

Lúcia Monteiro
São Paulo

JOGADOR Nº 1 (READY PLAYER ONE)

  • Quando estreia nesta quinta (29)
  • Elenco Tye Sheridan, Olivia Cooke, Lena Waithe, Ben Mendelsohn
  • Produção EUA, 2017, 12 anos
  • Direção Steven Spielberg

Veja salas e horários de exibição

O novo filme de Steven Spielberg se passa em 2045. A população de Columbus, no estado americano de Ohio, vive em trailers empilhados, abastecidos por ligações clandestinas de eletricidade e cercados por ferros-velhos.

A cidade sedia grandes empresas de realidade virtual, principal diversão no mundo pós-apagão, pós-conflito atômico, pós-crise da banda larga.

"Jogador Nº 1" se baseia em livro de Ernest Cline que, por sua vez, inspirou-se em títulos de Spielberg vistos desde a infância —"E.T." (1982), os "Indiana Jones" (1984 e 1989), "O Parque dos Dinossauros" (1993) etc. O resultado é uma combinação cativante de flashbacks e flashforwards.

A visão distópica que o filme traz funciona evidentemente como um duro diagnóstico de nosso tempo, marcado pelo isolamento incentivado pelas tecnologia.

Em contraponto, valoriza-se a amizade e debocha-se da limitada cultura de executivos ambiciosos.

O grande trunfo de Spielberg, porém, está menos na engenhosidade e nas boas intenções da narrativa do que na espetacular e eletrizante maneira de narrar. O espectador é posto dentro de um viciante jogo de videogame e, melhor, na posição de um jogador habilidoso e culto.

Munidos de lentes 3D, somos conduzidos pelo garoto Wade Watts (Tye Sheridan) ao exuberante cenário de Oasis, universo paralelo criado pelo gênio James Halliday (Mark Rylance). Antes de morrer, Halliday deixou um desafio aos usuários: quem encontrar o tesouro escondido no jogo ganhará o controle do negócio.

Órfão e miserável no mundo real, dentro do Oasis Wade é Parzival, exímio piloto de um DeLorean prata. Com o nome do cavaleiro que busca o Santo Graal na literatura alemã medieval, Parzival lembra mesmo é o personagem de Michael J. Fox em "De Volta para o Futuro" (1985).

Seu diretor, Robert Zemeckis, é recordado numa divertida sequência em que um cubo mágico dá poderes de retroceder no tempo em alguns segundos.

Qual um game de fases sucessivas e dificuldade crescente, a caça ao tesouro traz referências em cascata à cultura pop. Só consegue desvendar enigmas quem a conhece bem.

Estão ali jogos inesquecíveis (Pac Man, Speed Racer, Space Invaders etc.) e hits de bandas como Duran Duran, A-HA e Rush, além de filmes e personagens memoráveis, como King Kong e Clark Kent. Uma sequência hilária homenageia Stanley Kubrick ao recriar o Hotel Stanley de "O Iluminado" (1980).

Trata-se de um verdadeiro tributo à indústria cinematográfica. Mesmo os menos adeptos aos games devem se afeiçoar ao filme que, de quebra, deixa a porta aberta para um vasto mercado de jogos, produtos e sequelas.

Fica claro que o cinema do século 21 ainda tem muito do que atraiu o público do século 19: para além da vocação narrativa, uma inesgotável capacidade de proporcionar experiências sensoriais.

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