Descrição de chapéu Livros

Coleção de assinaturas de Pedro Corrêa do Lago será exposta em Nova York 

"Assinatura é um autógrafo mas nem todo autógrafo é uma assinatura", diz neto de Osvaldo Aranha 

Jane L. Revere
New York Times

A paixão de um menino brasileiro por colecionar autógrafos, surgida quase 50 anos atrás, se transformou em uma das mais incomuns, e encantadoras, exposições do ano, “The Magic of Handwriting: The Pedro Corrêa do Lago Collection” [Magia Manuscrita: A Coleção Pedro Corrêa do Lago”], que ocupará o Morgan Library & Museum em Manhattan.


Em cartaz a partir do dia 1º de junho até 16/8, a exposição “Magia Manuscrita” exibirá 140 peças —entre as quais cartas autógrafas, manuscritos, desenhos e documentos— de pessoas como os cientistas Isaac Newton e Albert Einstein, os artistas Michelangelo e Van Gogh, os escritores Emily Dickinson, Jorge Luis Borges e Marcel Proust, os compositores Mozart e Beethoven, e os artistas Charles Chaplin e Billie Holliday.


Não por coincidência, a coleção Corrêa do Lago foi inspirada em parte pelo amplo acervo acumulado pelo financista Pierport Morgan, e por uma visita de Corrêa do Lago à Morgan Library quando ele era adolescente. 


Aos 11 anos, Corrêa do Lago começou a escrever a pessoas que admirava. O romancista inglês J. R. R. Tolkien se recusou a lhe enviar qualquer coisa. O cineasta francês François Truffaut, no entanto, lhe enviou uma cópia ilustrada e autografada de “L’Enfant Sauvage”, seu livro de 1969.


No final do século 19, Morgan, deu início à sua coleção de livros do começo da era de Gutenberg e de manuscritos com iluminuras, e a uma coleção de manuscritos autógrafos (os textos originais de obras literárias, na letra de seus autores), com livros de romancistas como Charles Dickens e Mark Twain, entre outros.

Ele contratou o arquiteto Charles McKim para projetar um palazzo ao estilo do renascimento italiano adjacente à sua residência, na Madison Avenue à altura da Rua 36, em Nova York. Seu filho, J. P. Morgan Jr., autorizou o acesso de estudiosos e do público às coleções em 1924, 11 anos depois da morte de Morgan.


Em entrevista recente, em um rebuscado salão do século 19 no museu Morgan, Corrêa do Lago recordou sua primeira visita a Nova York e ao Morgan, quando ele tinha 17 anos.

Pedro Corrêa do Lago  no Morgan Library & Museum em Nova York
Pedro Corrêa do Lago no Morgan Library & Museum em Nova York - AFP

“Fiquei fascinado pelo museu”, ele disse. “Era o topo do Everest para mim, com as fantásticas partituras autógrafas e as cartas de escritores”. 


Filho de um diplomata brasileiro, Corrêa do Lago, que completará 60 anos em 15 de março, viveu no mundo todo e é fluente em cinco idiomas. Hoje editor, escritor e historiador da arte, morador em São Paulo e no Rio de Janeiro, ele é casado com a roteirista Maria Beatriz Fonseca, com quem co-escreveu quatro livros. 


Ele disse que “jamais tive os meios de Morgan”, mas que, como Pierpont Morgan, sempre foi “muito ambicioso” quanto ao escopo de sua coleção.


“O dinheiro que ganho, gasto em minha coleção”, disse Corrêa do Lago, que compra materiais autógrafos de grandes casas de leilões como a Bonham’s, Christie’s e Sotheby’s, bem como por meio de comerciantes de arte e em transações privadas. “Trabalhei muito mais do que teria preferido, para poder manter essa paixão e pagar por ela. Sou basicamente preguiçoso, mas sabia que tinha as despesas com os leilões para pagar. Leilões nunca acontecem quando você está com os bolsos recheados”.


Ele é membro da Associação Internacional de Bibliófilos, uma organização de colecionadores de livros e manuscritos por meio da qual conheceu William Griswold, antigo diretor do Morgan e hoje diretor do Museu de Arte de Cleveland. Conversas entre eles e com a atual direção do Morgan, incluindo o diretor, Colin Bailey, resultaram na exposição que entrará em cartaz em junho.


Corrêa do Lago, que gosta de dizer que toda “assinatura é um autógrafo mas nem todo autógrafo é uma assinatura”, teve alguma dificuldade para selecionar as peças de sua coleção de 100 mil autógrafos, datados de entre 1140 e 2017, para a exposição. Os 140 itens que serão exibidos no Morgan foram selecionados com a ajuda de diversos dos curadores do museu, entre os quais, mais recentemente, Christine Nelson, curadora de manuscritos históricos e literários.


“Há muitas alusões” a autores que constam da coleção do Morgan, e a autores com material presente em passadas e futuras exposições do museu, nas peças selecionadas, disse Corrêa do Lago, entre as quais autógrafos de Antoine de Saint-Exupéry, Mary Wollstonecraft Shelley e Ernest Hemingway, e a seleção também inclui itens que agradarão mais ao público geral, como uma foto dos Beatles assinada pelos integrantes do quarteto em 1965.


Entre as peças favoritas de Nelson, na exposição, está uma carta datada de 1871, da poetisa norte-americana Emily Dickinson à sua amiga Adelaide Hills, que tinha uma filha chamada Emily. A carta diz que “ser lembrado é quase ser amado, e ser amado é o paraíso; e será que estamos mesmo na terra? Jamais considerei que fosse esse o caso”.


Nelson diz que “é comovente ver, na letra de Dickinson, o que ela escreveu a uma amiga em um dado momento. Costumamos pensar nela como uma pessoa reclusa, mas na verdade ela tinha conexões profundas —por meio da correspondência, da palavra manuscrita. Meu trabalho gira em torno da memória e do ato de colecionar; esses traços cotidianos das vidas das pessoas permitem que as recordemos”.


A direção visual da exposição cabe a Daniela Thomas, designer de cenários de teatro e mostras em museus brasileiros e diretora da cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio em 2016. Para ajudar os visitantes a manter o foco, cada peça será exibida sem moldura, isolada em um mostruário cinzento de topo inclinado, como o de uma velha escrivaninha; as legendas serão facilmente legíveis, em um painel por sobre cada mostruário.


As peças serão divididas em seis seções, dedicadas a arte, história, literatura, ciência, música e entretenimento. A mais antiga será uma bula papal em velino datada de 1153 e portando as assinaturas de quatro Papas; a mais nova será um autógrafo do físico Stephen Hawking, uma impressão digital de seu polegar, datada de 2006.


Corrêa do Lago disse que espera que sua coleção interesse a qualquer pessoa “ de espírito aberto”.
“Você não precisa ser um estudioso para gostar da exposição”, ele disse. “Quase todos os itens que escolhi para ela servem como tema de conversa”.


Corrêa do Lago, que se recusou a estimar o valor total de sua coleção, disse que algumas das peças individuais têm valores de centenas de milhares de dólares.


Quanto ao futuro, ele previu que colecionar materiais autógrafos de pessoas bem conhecidas hoje se tornaria cada vez mais difícil.

Reconhecendo que ele mesmo escreve bilhetes de agradecimento talvez duas vezes por ano, Corrêa do Lago disse que “autógrafos de nossos contemporâneos serão cada vez mais raros. As cartas de Steve Jobs são extremamente valiosas porque há tão poucas delas; elas valem mais que as cartas de Lincoln”. 

 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

The New York Times

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