Descrição de chapéu

Dificuldade de africanos na Europa é tema do longa 'Uma Temporada na França'

No filme, dois irmãos da República Centro-Africana sofrem para viver legalmente na França

SÉRGIO ALPENDRE
São Paulo

Uma Temporada na França (Une Saison en France)

  • Classificação 12 anos
  • Elenco Eriq Ebouaney, Sandrine Bonnaire e Aalayna Lys
  • Produção França, 2017. 90 min
  • Direção Mahamat-Saleh Haroun

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Ao falarmos de cinema africano, não podemos esquecer que esse continente de grandes dimensões abriga uma diversidade étnica sem igual, e que foi dividido arbitrariamente e criminosamente segundo as potências europeias no século 19, sem levar em conta as diversas tribos locais.

Nesse contexto, é fundamental afirmar que Mahamat-Saleh Haroun (1961) é um cineasta do Chade, assim como Abderrahmane Sissako (1961) é da Mauritânia e Ousmane Sembene (1923-2007) é do Senegal, para ficarmos em apenas três dos muitos grandes diretores da África.

Logo, falar em cinema africano buscando similaridades nos procedimentos artísticos e nos sistemas de produção faz ainda menos sentido do que falar em cinema europeu ou cinema asiático.

Aqui nos ocuparemos de Haroun, cujo longa mais recente, “Uma Temporada na França”, estreia no circuito, pouco mais de oito anos depois de “O Homem que Grita” (2010), com o qual se tornou conhecido por estas bandas.

Entre um e outro, Haroun realizou “GriGris” (2013), longa de maturidade visto, na época, apenas pelos frequentadores assíduos da Mostra Internacional de São Paulo, e um documentário chamado “Hissein Habré, une Tragédie Tchadienne” (2016).

“Uma Temporada na França” é sua obra mais tocante e bem-sucedida. Mostra os problemas dos irmãos Abbas (Eriq Ebouaney) e Etienne (Bibi Tanga), professores universitários da República Centro-Africana (país vizinho do Chade, ao sul), para se tornarem moradores legais na França de hoje.

 

Fugido da guerra civil que causou a morte de sua mulher, Abbas levou também seus dois filhos, Yacine (Ibrahim Burama Darboe) e Asma (Aalayna Lys), para viver em Paris, onde pediu, como o irmão, asilo político. Lá ele namora com Carole Blaszak (Sandrine Bonnaire), que dá abrigo a Abbas e seus filhos.

Os dois irmãos vivem de subempregos e sofrem de uma temporária impotência sexual que os impede de dar prazer às namoradas (o que mostra como estão fracos mentalmente esses homens, o que é bem compreensível).

Como o asilo foi negado, ele, o irmão e os filhos têm 30 dias para desocupar o território francês, aumentando o número de vítimas da desumanização completa pela qual passa a nação dos iluministas.

Formalmente, é sem dúvida o filme mais bem-acabado de Haroun. A câmera não parece mais descontrolada como em parte de seus longas anteriores, o que valoriza o drama humano, ou os belos momentos em que Abbas se diverte com suas crianças. 

O aniversário da namorada, por exemplo, filmado em plano único, com a câmera ligeiramente no alto e suficientemente distante para enquadrar toda a mesa, nos indica que o diretor evoluiu bastante como encenador.

Por último, é possível dizer que o filme é coirmão de “O Outro Lado da Esperança”, o belíssimo longa de Aki Kaurismaki que mostra um refugiado tendo seu visto negado pelas autoridades finlandesas.

Por serem ambos bem filmados, esses filmes de forte caráter político e social ganham mais força, tendo assim melhores condições para servirem àquilo que Fritz Lang clamava: “toda arte deve criticar alguma coisa”.

 

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