Descrição de chapéu

Documentário sobre Che emociona, mas cede ao didatismo

Filme usa entrevista com ex-colaboradores para abordar período em que ele luta na África

Foto de Che Guevara feita por Rene Burri mostra o líder revolucionário apertando com a mão esquerda os olhos e segurando na direita um charuto
Cena de "Che, Memórias de Um Ano Secreto", de Margarita Hernández - Rene Burri / Magnum Photos
LÚCIA MONTEIRO
São Paulo

che, Memórias de um Ano Secreto

  • Quando em SP, qua. (18), às 19h e às 21h, no IMS; sex. (20), às 17h, e sáb. (21), ás 15h, no Itaú Cultural; dom. (22), às 13h no Sesc 24 de Maio; no Rio, sex. (20), às 17h no IMS
  • Produção Brasil/Argentina, 2017, livre
  • Direção Margarita Hernández

Nos anos 1960, lutas anticoloniais colocam a África no centro da Guerra Fria, mobilizando forças do bloco capitalista e do bloco comunista. Cuba apoia os movimentos de Patrice Lumumba (contra o domínio belga do Congo), Amílcar Cabral (pela libertação da Guiné-Bissau, então colônia de Portugal) e Agostinho Neto (pela independência de Angola, também sob controle português).

Numa história já contada pela realizadora franco-egípcia Jihan El Tahri em seu "Cuba, uma Odisseia Africana" (2007), estudantes africanos são enviados para a ilha para aprender medicina, cinema, guerrilha, política; ao mesmo tempo, chegam a países africanos recursos humanos e materiais cubanos.

A novidade de "Che, Memórias de um Ano Secreto" é se concentrar no período, a partir de 1965, em que ele deixa Cuba para atuar pessoalmente junto aos guerrilheiros do Congo e, depois de seu fracasso, passa uma temporada em Praga, antes de voltar clandestino para Cuba e preparar a guerrilha boliviana, onde morreria em 1967.

Nascida em Cuba e radicada no Brasil, a cineasta Margarita Hernández vale-se de material precioso: entrevista três ex-agentes secretos fundamentais para a temporada de Che na clandestinidade.

Um deles é o dentista Luis García Gutiérrez, mais conhecido como Fisín, que conduziu minuciosas transformações no rosto e no corpo do Comandante: alterou sua arcada dentária e transformou-o num corcunda de barba feita e cabelo curto.

Desprotegido fora de Cuba, Che corria risco desde a leitura de sua famosa carta de despedida a Fidel Castro: "Sinto que cumpri com a parte do meu dever que me prendia à Revolução Cubana em seu território e me despeço de você, dos camaradas e do seu povo, que agora é meu".

O filme acerta em reproduzir esse emocionante momento, ainda que com imagens de arquivo já vistas. Noutros casos, cenas históricas e recursos gráficos aparecem com certo excesso de didatismo, o que contribui para uma estética que é mais televisiva do que cinematográfica.

Mais importante é questionar a presença predominante de Jon Lee Anderson, conhecido biógrafo de Che Guevara, cujo discurso serve de fio condutor que costura os demais depoimentos. Embora seja um conhecedor inconteste de seu personagem, sua fala mitiga diferenças entre pontos de vista. Por outro lado, as cenas ficcionais que remetem ao Benicio del Toro de "Che" (2008) se harmonizam pouco com o conjunto.

Já as sequências filmadas na República Tcheca, quando "Memórias de um Ano Secreto" embarca em empreitada especulativa e fantasiosa, são surpreendentes e poderiam ser mais bem aproveitadas.

Ali, a imaginação do escritor argentino Juan Braun sugere um romance entre Che e uma soprano de Praga, e o dentista Fisín reencontra a casa que serviu de esconderijo a ele e ao Comandante, recordando momentos de intimidade compartilhada.

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