Descrição de chapéu Crítica cinema

Documentário 'The Cleaners' questiona faxina digital do Facebook

Contundente, sem cair no sensacionalismo, filme é um dos melhores do festival É Tudo Verdade

Naief Haddad
São Paulo

the cleaners

  • Onde terça (17), às 19h, no CCSP
  • Preço entrada gratuita
  • Produção Alemanha/Brasil, 2018, 90 min.
  • Direção Hans Block e Moritz Riesewieck

Difícil imaginar um timing mais apropriado.

O festival É Tudo Verdade exibe nesta terça (17), em São Paulo, "The Cleaners", documentário que questiona medidas adotadas pelas principais redes sociais, especialmente o Facebook.

Quem não se lembra do constrangimento do CEO e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, durante depoimento ao Senado dos EUA, uma semana atrás?

Ele foi convocado após vir à tona que 87 milhões de usuários da rede social tiveram dados violados por meio de um aplicativo da consultoria política Cambridge Analytica, a serviço da campanha de Donald Trump.

Dirigido pelos alemães Moritz Riesewieck e Hans Block, com produção parcialmente brasileira, "The Cleaners" não trata do vazamento de dados, mas seu alvo também é assustador.

Gigantes americanas da tecnologia, como Google (dono do YouTube) e Facebook, contratam empresas filipinas para excluir da rede casos de exploração infantil e apologia ao terrorismo. No país asiático, evidentemente, essa faxina sai muito mais barata.

A equipe do documentário viajou para as Filipinas para falar com os chamados moderadores de conteúdo, os "faxineiros" contratados pelas empresas do país.

A começar, o trabalho é torturante. Devem observam cerca de 25 mil imagens por dia e não podem ultrapassar oito, nove segundos na avaliação de cada uma delas.

Além disso, os moderadores são submetidos a um excesso de cenas violentas. Um deles conta que que acompanhou um suicídio em tempo real. Outro, especialista em imagens de auto-mutilação, se matou.

Existem, porém, outras questões levantadas pelo filme em torno dos "cleaners". Eles têm o discernimento necessário para definir o que deve ser eliminado? A julgar pelos moderadores e ex-funcionários ouvidos no filme, a resposta é não.

Uma moça extremamente religiosa, que diz sonhar com diferentes formatos e cores de pênis, trata seu trabalho como uma missão para livrar os pecados do mundo.

Está à disposição deles uma cartilha com instruções, incapaz, contudo, de barrar um razoável grau de arbitrariedade dos moderadores.

Esse ponto nos leva a outro tópico relevante do filme. Tal como é feita, a moderação pode eliminar imagens que têm potencial valor para o jornalismo e, posteriormente, para a história.

 

A imagem da menina nua ferida por um bombardeio em 1972 se tornou a mais simbólica da Guerra do Vietnã. Caísse hoje na rede, a foto não passaria pelo filtro do Facebook, afinal envolve criança e genitália.

O impacto do filme está menos nas hipóteses e nas reflexões do que na observação dessa realidade nas Filipinas e nos EUA, que ecoa pelo mundo.

Contundente, sem cair no sensacionalismo, "The Cleaners" é um dos melhores filmes desta edição do festival.

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