Descrição de chapéu artes plásticas

Fotógrafo malinês, Seydou Keïta, ganha exposição em São Paulo 

Mostra no IMS com 130 fotografias de Seydou Keïta apresenta sinais sutis da descolonização

Isabella Menon
São Paulo

Apenas uma pose e um clique. Sob a luz do dia, na maioria das vezes, era assim que o fotógrafo malinês Seydou Keïta (1921-2001) retratou os habitantes da capital Bamako entre 1948 e 1962.


A partir desta terça (17), o Instituto Moreira Salles inaugura uma exposição na sede da avenida Paulista com 130 fotos da carreira dele. 


No final do século 19, o império do Mali foi colônia da França, tornando-se parte do Sudão Francês. Só se tornou independente em 1960. 


Nascido e criado em Bamako, Keïta fotografou em meio ao processo de independência, que é sutilmente refletido nas fotos, traduzido desde as vestimentas tradicionais africanas aos ternos europeizados, o que mostra um desejo de lidar com os dois mundos. 


Sabrina Moura, historiadora que assina um dos textos do catálogo da mostra, afirma que retratos dele com pessoas e seus rádios, por exemplo, traduzem o desejo de firmar uma posição urbana. 


“Bamako era um importante centro da época que atraia pessoas que buscavam o urbano de alguma forma”, diz.


Já o uso de adereços locais servem de ilustração para costumes locais. “As pessoas incorporaram todos os tipos de aspectos: colonial, religioso, pop. São caras que do outro lado da câmera estão tomando posse do país”, afirma Samuel Titan Jr., curador do IMS. 


Não é uma fotografia sobre o processo de independência especificamente, mas não deixa de demonstrar a descolonização acontecendo diante dos olhos do fotógrafo. “Ainda que o tema nunca seja esse”, explica Titan Jr.


Keïta tirava fotos apenas em preto e branco. Os adereços utilizados pelos retratados, muitas vezes, foram providos por ele, que é notado que se repetem em diversas fotografias, como colares, óculos e até um cachimbo sem fumo. 


“Ele era um diretor de cena”, define a historiadora, que além de pensar nas posturas, pensava também nas vestimentas. 


Porém, as fotos em alguns casos ganham cores. Na maioria das vezes, em acessórios específicos, como objetos que traduziam algum valor comercial, como braceletes, colares e unhas. 

do anonimato a fama 

Filho de carpinteiro, Keïta seguiu a profissão do pai até ser presenteado com uma máquina Kodak por um tio que viajou ao Senegal. Foi então que ele descobriu na fotografia sua paixão e profissão. 


“Keïta dizia que fazia apenas um clique por pessoa, pois o custo dos materiais de impressão eram muito caras, era no estilo ‘ou vai, ou racha’”, afirma Titan Jr. 


Para o curador, não são retratadas aqui pessoas com cara de ‘coitadas’ ou objetos de estudo antropológico. “Há muito mais que esses elementos, já que se trata de um africano fotografando os outros.” 


As fotografias de Keïta, uma celebridade em Bamako, passaram a ficar conhecidas mundo afora nos anos 1990, quando uma exposição foi montada, em Nova York.


À época, as fotografias acabaram assinadas como anônimas porque não se sabia que as havia produzido. 


Foi assim que um galerista parisiense, fascinado com olhar de Keïta, desembarcou em Bamako em busca da autoria desses retratos. Assim, em 1994, Keïta teve a primeira exposição com seu nome atribuído às fotografias, na Fundação Cartier.  

 

SEYDOU KEÏTA
QUANDO a partir desta terça (17) às 18h até 29/7; ter. e qua. a dom. das 10h às 20h e qui. das 10h às 22h 
ONDE Instituto Moreira Salles (av. Paulista, 2.424, São Paulo)
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