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Max Jacob acerta em crítica de costumes e sátira de linguagem

'O Gabinete Negro' foi publicado originalmente em 1922 e é lançado agora no Brasil

MIGUEL CONDE

O GABINETE NEGRO

  • Preço R$ 76,90 (248 págs.)
  • Autor Max Jacob
  • Editora Carambaia
  • Tradução Luiz Dantas

A Viúva Gagelin envia conselhos à filha: "Não se esqueça, minha boneca, de que a elegância de uma mãe de família todo mundo reconhece pelo modo de se vestir das crianças e dos empregados, e de que nunca é cedo demais para habituar as meninas à coqueteria".

Julgando-se caluniado pela tia, Albert Delacour vitupera: "A senhora é uma mentirosa, uma descarada e uma velha imbecil, e isso é o que de melhor eu posso dizer".

Retrato de Max Jacob feito por Modigliani
Retrato de Max Jacob feito por Amedeo Modigliani, em 1916 - Reprodução

Ao infeliz Sr. Gallet, que além da fortuna perdeu também a saúde, só resta lamentar-se para um velho companheiro de farras: "Ainda estou aqui numa dessas salas lúgubres de que é necessário fazer a descrição; não é muito divertido ter como vizinhos de leito gente que recusaríamos ter em casa como empregado".

Conselhos, ofensas e lamúrias chegam ao leitor pela via postal imaginária inventada por um carteiro improvável: o escritor francês Max Jacob (1876-1944).

Seu livro "O Gabinete Negro", publicado originalmente em 1922 e lançado agora no Brasil em bela edição da Carambaia, é uma reunião de cartas fictícias que se lê como um panorama em fragmentos da vida francesa no início do século 20 —em especial, daquelas voltas da roda da fortuna ligadas à disputa por empregos, heranças, poder e amantes.

Essa panóplia epistolar tem um pouco de baile de máscaras: Jacob assume a cada vez uma personalidade diferente, com preocupações, anedotas e trejeitos verbais os mais vários.

Falando à maneira de burgueses e proletários, alfaiates e engenheiros, princesas e bailarinas, combina crítica de costumes e sátira de linguagem, fustigando igualmente vícios de caráter e de estilo.

Cada carta é seguida de comentários que multiplicam o jogo de ventriloquismo, pois também nelas o autor assume impostações diversas. A tradução de Luiz Dantas explora essas variações de registro com virtuosismo notável.

Há dois pontos altos no volume. O primeiro é "A Carta do Poeta Moderno", paródia de cacoetes modernistas ("A canção de ninar explode ao estardalhaço do tambor; o maçarico de solda autógena tomou o lugar dos fósforos nas lâmpadas de arco voltaico").

O segundo é a "Carta de um Empregado das Lojas Entrepôt Voltaire", com seu receituário acaciano de boas maneiras na empresa: "Se você puxar conversa com os subordinados, vão dizer que é 'falta de classe', e, se for com os chefes, vão tratá-lo de dedo-duro".

Como detalha Pablo Simpson no posfácio, Jacob foi uma figura importante da vida artística europeia no início do século 20. Ficcionista, crítico e poeta ligado às vanguardas, foi um dos primeiros admiradores e amigo de Picasso, além de teórico pioneiro e influente do cubismo.

Foi lido e admirado pelos modernistas brasileiros, como Drummond, Oswald e Mário de Andrade (numa resenha de "Amar, Verbo Intransitivo", Oswald chamou Mário de "Max Jacob do Bairro do Limão".)

Nasceu numa família judia, na Bretanha, e se converteu ao catolicismo em 1909, após ter uma visão de Jesus Cristo. Durante a ocupação nazista da França, foi preso e enviado para o campo de concentração de Drancy, onde morreu em 1944.

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