Descrição de chapéu Análise

'Nada a Perder' é chapa-branca como um comercial de alvejante

Cinebiografia do bispo Edir Macedo retrata homem altruísta combatido por poderosos

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

Veja salas e horários de exibição.

Vou contar o final de “Nada a Perder” para vocês. O bispo Edir Macedo, ele próprio, aparece para oferecer uma oração aos espectadores que acabaram de assistir a duas horas do filme que conta sua trajetória do jeitinho que ele queria —do menino que sofria bullying (os coleguinhas o chamavam de Dedinho por ter um defeito nas mãos) ao pastor blockbuster perseguido pelos poderosos (Brasília, Igreja Católica e, ainda que não nomeada, a Globo), mas com o maior deles a seu lado: Deus.

Se “Nada a Perder” é chapa-branca? Como um comercial de alvejante. Peça publicitária, aliás, é uma categoria adequada à segunda megaprodução com dedo da Igreja Universal dirigida por Alexandre Avancini, ex-diretor de novelas globais como “Quatro por Quatro” e “Kubanacan”.  Avancini virou o craque da Record para folhetins religiosos e esteve à frente da adaptação cinematográfica de “Dez Mandamentos” —que superou “Tropa de Elite 2” como a maior bilheteria brasileira de todos os tempos, com 11,3 milhões de tíquetes vendidos.

“Nada a Perder”, inspirado numa trilogia biográfica que vendeu mais de sete milhões de livros, tem tudo para transplantar a fórmula de sucesso para o cinema. Deixemos de lado a tática de inflar a bilheteria comprando salas inteiras de uma só tacada, ainda que nem todos com ingresso de graça compareçam às sessões (a Universal nega estar por trás da estratégia e acusa de “fake news” a “imprensa rancorosa” que noticia isso).

Fato é que, com ou sem esse empurrãozinho, a saga do “self made man” que supera adversidades é feita sob medida para apelar à audiência com um fraco por narrativas açucaradas, que alinhavam tom religioso e autoajuda (vide “A Cabana”, hit de 2017).

Agora eu vou contar o começo de “Nada a Perder” para vocês. Macedo vai para o xilindró. Quem resgatar a edição de 25 de março de 1992 da Folha vai ler sobre o caso: ele estava num Santana verde com a esposa, Ester, e a filha Viviane, então 17 anos, saindo de uma pregação. Várias viaturas chegaram, homens armados cercaram o veículo e levaram o líder da Universal.

Em vez de parecer o bandido encurralado, como seus inimigos queriam, Macedo sai por cima do episódio. Esta é sua versão da história, registrada fielmente no filme: já estelar, sua igreja incomodava muita gente poderosa. Um bispo católico conspira abertamente com o ministro das Comunicações para derrubá-lo. Para calá-lo, dão um jeito de impingir nele acusações de curandeirismo, charlatanismo e estelionato.

No livro, o evangélico conta que “estava bem no caminho do banheiro” dos companheiros da cela lotada, vez ou outra pisoteado por eles.

Mas Macedo entende a força de uma imagem. Convoca a imprensa e deixa-se fotografar atrás das grades, sentado num banco, pernas cruzadas e mão no queixo estilo “O Pensador”. Lia a Bíblia. Em 11 dias sai da prisão para os braços do povo (curiosidade: o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e o deputado estadual Campos Machado foram seus advogados).

Se for para falar de cinema, é justo dizer que “Nada a Perder” não se difere muito de cinebiografias como “Lula, o Filho do Brasil” ou “João, o Maestro” —que desperdiçam a chance de mostrar seus personagens como homens falhos que viraram ícones para toda uma geração. João Carlos Martins deu pitacos no filme sobre sua vida, e ninguém estranharia se o marqueteiro político João Santana fosse “ghost-writer” do roteiro lulista.

AMERICAN WAY

“Sempre ao seu Lado” é a lacrimosa história de um professor universitário (Richard Gere) e seu fiel cão, superpovoada por closes do cachorro com olhos tristes e  trilha sentimental. Seu roteirista, o americano Stephen Lindsey, nunca havia ouvido falar do brasileiro Edir Macedo quando sua agente recebeu um telefonema de uma tal de Record.

Escreveu para o bispo uma história que o torna super-homem —curioso é que a fé evangélica rechaça a imagem de santos, ao contrário dos católicos. O Macedo da ficção é puro altruísmo. Revolta-se com o pastor que não aceita mendigos no culto. Desentende-se com o marido da irmã mais nova, mostrado como um líder vaidoso que não quer pregar para meia dúzia de gatos pingados —falamos do missionário R.R. Soares, que hoje lidera uma importante concorrente da Universal, a Igreja Internacional da Graça de Deus.

Seus lapsos demasiados humanos? Dá um chilique ao ver uma barata (“demônio voador!”). A certa altura, um fiapo de desvio moral emerge: ele maltrata a esposa por acordar “só” às 8h (“preguiçosa!”) e atrasar num compromisso. Ela o acusa de não ser mais o homem por quem se apaixonou, mas um controlador (ou um “boy lixo”, para usar a linguagem dos jovens de hoje).

Numa reviravolta moralista, a cena acaba com ela entendendo que precisa fazer sacrifícios para segui-lo na missão de evangelizar o mundo. Quem lê, no site da Universal, textos como “8 tipos de mulher com quem um homem cristão não deve se casar” não se pasma com esse desfecho. (Ah, sim: o bom cristão deve fugir de fêmeas como “a diva, que vive estalando os dedos e exigindo coisas irracionais”, e “a que não submete a sua sexualidade a Deus e irá cegar você com o charme dela”.)

A reta final do filme trata da compra da Record, uma negociação entre Macedo e Silvio Santos, então um dos donos da emissora.  Questiona-se se o evangélico conseguirá arcar com as parcelas dolarizadas da aquisição e garantir a concessão da TV, já que Brasília parece ter mais repúdio a ele do que ele a baratas.

Ironicamente, uma tragédia nacional favorece o bispo. O fiasco econômico do governo Collor faz as dívidas em dólar desabarem. O então presidente, prestes a renunciar após sofrer impeachment, teria se vingado dando a concessão pública para o bispo que meio mundo político odiava. Exatos 24 anos após Macedo ser preso, fui na réplica construída pela Universal para o bíblico Templo de Salomão. A versão brasileira fica no Brás  (zona central de São Paulo) e, às segundas, tem um mote fixo: “Palestra motivacional para o sucesso financeiro” (há outros dias temáticos, como a “terapia do amor” das quintas).

Pedidos de ofertas se repetiram a noite toda. Num dado momento, um bispo instou os fiéis que quisessem doar “x” a dobrar o valor, para que Deus os levasse a sério. Em 41 anos de Universal, Macedo foi capaz de azeitar uma poderosa máquina religiosa —e uma caixa-preta na arrecadação de dízimos. O filme não toca no assunto, a não ser quando Macedo fala que as doações são espontâneas e bíblicas, durante uma audiência judicial (a qual, estranhamente, o vilão católico também comparece). 

Existe, sim, um preconceito generalizado com a ascensão evangélica no Brasil, onde 3 de cada dez pessoas declaram seguir essa fé. Macedo não é esse belzebu estelionatário que boa parte do campo progressista enxerga (poucos sabem que a Universal é uma gigante solitária, no segmento, a defender o aborto). Fora que a igreja tem importantes trabalhos sociais, como em presídios, e argumenta que precisa de dinheiro para salvar essas e outras vidas.

Ao  estampar o slogan “contra tudo, por todos” em seu cartaz, “Nada a Perder” não ajuda a dirimir preconceitos. Só reforça a polarização tão cara ao atual “zeitgeist”. Nada a perder, mas pouco a ganhar.

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