Padilha remexe feridas do conflito entre Israel e Palestina em '7 Dias em Entebbe'

Estudo da psique terrorista é trunfo de filme sobre sequestro de avião com judeus nos anos 1970

Rafael Gregorio
São Paulo

Após semanas sob um tsunami ideológico graças à adaptação para a TV de uma saga política no país natal, nada melhor que uma trama à prova de polêmicas, certo?

Errado, caso seu nome seja José Padilha.

O diretor brasileiro aborda em “7 Dias em Entebbe”, que estreia nesta quinta (19), um episódio central de um dos mais duradouros conflitos da era atual: o que opõe israelenses e palestinos.

Daniel Bruhl e Rosamund Pike (ao centro, de pé) interpretam terroristas alemães em "7 Dias em Entebbe" (2018), de José Padilha
Daniel Bruhl e Rosamund Pike (ao centro, de pé) interpretam terroristas alemães em "7 Dias em Entebbe" (2018), de José Padilha - Liam Daniel/Divulgação

As nações, como se sabe, disputam um espaço no Oriente Médio há 70 anos ocupado por um Estado judeu.

Este é o plano de fundo da nova incursão de Padilha no cinema a partir de Hollywood, em cujas imediações vive com a família desde 2015, sucedendo “Robocop”, de 2014.

Antes, fez história com “Tropa de Elite” (2007) e sua sequência, de 2010, o segundo maior público entre filmes nacionais (11,1 milhões).

Ladeado pelos brasileiros Lula Carvalho (direção de fotografia), Daniel Rezende (montagem) e Rodrigo Amarante (trilha), Padilha mira o sequestro de um avião da Air France com 248 passageiros, em 1976, por palestinos.

Eles recrutam estrangeiros para realizar o plano: desviar a aeronave de sua rota original, de Tel Aviv a Paris, para Entebbe, em Uganda, país africano cujo ditador aceita fazer as vezes de anfitrião.

Depois, tornar o terminal do aeroporto local um cativeiro para, enfim, negociar com Israel, condicionando a libertação dos reféns ao pagamento de US$ 5 milhões e à soltura de mais de 50 palestinos.

A história foi contada antes em filmes. O trunfo desta releitura são descobertas publicadas em livro em 2015 pelo acadêmico inglês Saul David.

Da obra advêm novos detalhes, como as escolhas do sequestrador alemão face à iminência do ataque batizado de Operação Thunderbolt.

É explorada a oposição entre o premiê Yitzhak Rabin (Lior Ashkenazi) e o ministro da Defesa, Shimon Peres (Eddie Marsan) —ambos futuros protagonistas do conflito.

O resgate que eles enfim ordenam teve no comando Yonatan Netanyahu. Única vítima entre os militares, ele era o irmão mais velho do atual premiê Benjamin Netanyahu.

Institui-se oposição: o cotidiano dos reféns, ameaçados pelo prazo minguante, versus a divergência entre os políticos sobre a negociação.

CONFLITO INTERNO

Entre os sequestradores havia dois alemães engajados com o comunismo, causa até então deveras alinhada ao levante palestino: Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike).

Os reféns eram israelenses —cidadãos de outros países foram soltos nos primeiros dias de cárcere.

Essa oposição entre carrascos germânicos e vítimas judias em um momento em que o Holocausto acabara de completar 30 anos é um pilar do filme.

“Os marxistas daquela época se viam como inimigos do nazismo, e o Böse viu-se em conflito”, diz o diretor.

A postura do alemão “fez diferença brutal no número de reféns que morreram”, lembra Padilha, no que se revela outro sustentáculo da obra.

Sobressai a ausência de locuções, recurso comum aos filmes mais conhecidos de Padilha —desta vez, ele parece imprimir ideário nas reflexões do engenheiro de voo Jacques Lemoine, em ótima atuação de Denis Ménochet.

Completam o arcabouço formal a coreografia “Echad Mi Yodea”, do israelense Ohad Naharin, que tece as subtramas, e outra peça de Naharin em que um dançarino corre sem sair do lugar.

“É o que vemos no processo de paz”, afirma Padilha.

Metáforas e análises da psique terrorista não passaram ilesas no exterior, onde o longa estreou há um mês.

O jornal inglês The Guardian diz que o filme “nunca decola” e que “falha em capitalizar elenco e roteiro fortes”. 

Já para o New York Times, a obra “sinaliza em direção à relevância, mas falha”.

Em Israel, sublinhou-se a oposição à leitura oficial sobre o crédito do heroísmo militar.

Padilha recebe as críticas como amostras de “interdição intelectual”. “A psicologia terrorista é tabu, mas a quem interessa barrar a pesquisa?”

Como em seus filmes, o diretor não resiste a responder a si mesmo: “Analisar quem detém a narrativa é escolha política”.

 

O diretor respondeu a algumas perguntas da Folha; leia a seguir.

Folha - Sua bússola aponta para vespeiros?
José Padilha -
Não sei se tenho uma bússola. No caso da violência no Rio, interessei-me porque vivia aquilo; o crime do “Ônibus 174” aconteceu a 100 metros da minha produtora. Mas no “Entebbe”, apenas recebi um roteiro. Conhecia a operação, os policiais do Bope se referem a ela, mas me interessou o foco do texto no drama.

“Entebbe” parece confundir a fronteira entre bem e mal; é uma preocupação?
Meu ponto de partida não é ideológico. No Brasil, o cinema tem uma tradição afeita ao marxismo, até por ter crescido em oposição a uma ditadura militar de direita. Mas eu não estou preocupado com o marxismo. Não compro esse ponto de vista nem o liberal.

Você acredita que foi imparcial?
A imparcialidade é uma coisa perigosa. Na década de 1970, existia um debate na mídia sobre se cigarro causa câncer ou não. Os médicos davam entrevista, e aí vinha um “outro lado” com um cara da indústria. Mas que equilíbrio é esse que vai contra as evidências? Isso é dar voz a criminosos. Eu prefiro buscar objetividade. Fizemos escolhas narrativas, mas tentei levar os fatos em conta o máximo que pude.

Ao fazer um filme sobre um conflito em aberto, te apetece influenciar sua resolução ou apenas contar uma história?
Tenho certeza que um filme não resolve um conflito, como a série “O Mecanismo” não vai resolver a corrupção no Brasil. São problemas extremamente maiores.

O que acha da estratégia de lotar salas vazias que fez “Os Dez Mandamentos” superar “Tropa de Elite 2”?
É algo que passa ao largo das minhas preocupações. Já a exploração religiosa das classes mais baixas e a entrada da religião na política são preocupantes.

Tem saudades do Brasil?
Com certeza, em particular no Rio. Ir no Maracanã ver um jogo do Flamengo; amigos, pessoas que aprecio e admiro. Mas quando sai do Brasil foi após uma tentativa de sequestro. Os policiais que supostamente estavam envolvidos são do mesmo batalhão dos que mataram a juíza [Patrícia Acioli]. Tendo a chance de não me submeter a essa violência, eu prefiro. Mas não vou ficar a minha vida inteira nos Estados Unidos.

 

NO CALOR DA HORA
Três produções feitas pouco após o caso

‘Resgate Fantástico’ (telefilme, 1976) 
Peter Finch vive Yitzhak Rabin, e Charles Bronson planeja o resgate, no papel do general Dan Shomron. Levou o Globo de Ouro

‘Vitória em Entebbe’ (1976) - telefilme
O elenco estelar incluía Kirk Douglas, Burt Lancaster, Anthony Hopkins, Elizabeth Taylor e… Linda Blair (pós-“O Exorcista”)

‘Operação Thunderbolt’ (1977)
O longa de Menahem Golan que representou Israel no Oscar de filme estrangeiro tinha Klaus Kinski no papel do terrorista Wilfried Böse

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