Descrição de chapéu

Sem excesso de massacre, '1945' mostra face banal da barbárie na Segunda Guerra

Diretor Ferenc Török extrai força de filme com fotografia em preto e branco

Cássio Starling Carlos
São Paulo

1945

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Péter Rudolf, Ági Szirtes e József Szarvas
  • Produção Hungria, 2017. 91 min
  • Direção Ferenc Török

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Preservar a memória das atrocidades da Segunda Guerra e o horror do Holocausto é uma responsabilidade que um sem-número de cineastas assumiu nos últimos setenta e tantos anos.

Se o tema nunca deixou de ser nobre, o desafio é encontrar um viés diferente, uma situação que ainda desperte interesse.

“1945”, produção húngara dirigida por Ferenc Török, propõe um questionamento dos valores nos momentos em que nada parece valer. Não há rajadas de metralhadoras, nem alemães sádicos em cena, apenas o cotidiano de uma aldeia no interior da Hungria.

Um homem se barbeia e escuta no rádio notícias sobre a fase final da guerra no Japão. Um senhor e um jovem judeus desembarcam de um trem trazendo em caixotes o que parecem ser despojos. Numa casa, as mulheres preparam uma cerimônia de casamento que acontecerá naquele dia. Uma pequena brigada de soldados soviéticos revela que o lugar está sob as botas de outro ocupante.

O filme se constrói a partir de detalhes, gestos acumulados que definem as relações atuais entre os personagens, mas que aos poucos desvelam comprometimentos, medos e rancores soterrados.

A passagem silenciosa dos dois judeus dispara reações atrás das portas e das cercas. Quem são? O que vieram fazer ali? Ninguém os conhece, mas teme sua presença.

O silêncio da dupla, suas roupas escuras e suas faces cerradas projetam sombras, culpas, atos inconfessáveis sobre cada um dos locais.

A direção sóbria de Török, reiterada pela opção do preto e branco na fotografia, extrai daí a força do filme, evitando o conflito dramático verbal na forma de acerto de contas tardio. A ênfase nos silêncios torna mais eficaz, mais eloquentes o não-dito, os segredos, as trapaças oportunistas durante a expropriação dos bens dos judeus.

Assim, “1945” tira de cena o grande vilão nazista e redistribui as responsabilidades, revelando outra dimensão, difusa e comum, do antissemitismo, devolvendo sua concretude para o dia a dia e seus efeitos para a mesquinharia cotidiana.

Ao evitar apelar para os excessos de massacres, dos trens da morte das câmaras de gás, “1945” mostra a face banal da barbárie, que passa despercebida nos filmes que reconstituem a guerra como algo excepcional.

 

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