Descrição de chapéu cinema festival de cannes

Após estrear em Cannes, 'Fahrenheit 451' chega à TV no sábado (19)

Versão da HBO para trama de Ray Bradbury ganha protagonista negro, vivido por Michael B. Jordan

Cena da série 'Fahrenheit 451', em exibição no Festival de Cannes 2018
Michael Shannon (esq.) é Beatty e Michael B. Jordan vive Guy Montag em ‘Fahrenheit 451’ - Divulgação
Silas Martí
Nova York

Os dias morreram com os livros. E, à noite, os arranha-céus de vidro da cidade se transformam em gigantes telas de televisão mostrando em tempo real os bombeiros e seus lança-chamas ateando fogo a pilhas e pilhas de material subversivo, espetáculos pirotécnicos em horário nobre.

Nas fachadas dessas torres, mensagens das redes sociais comentam os eventos do dia —uma enxurrada de caracteres e símbolos azulados flutuando como nuvens neon sobre fogueiras incandescentes.

Toda a luz nessa mais nova adaptação de "Fahrenheit 451" é artificial. No filme, que acaba de estrear no Festival de Cannes e chega às telas da HBO já no próximo final de semana, o sol nunca aparece, e os contornos dessa noite eterna se desenham no brilho glacial de hologramas e telas de plasma.

Quando escreveu esse seu romance distópico, em 1953, o americano Ray Bradbury refletia sobre um mundo assombrado por outra superfície fulgurante. A tela da televisão, que então se tornava onipresente, parecia ameaçar a literatura com fúria igual a de seus bombeiros incendiários.

O mundo cada vez mais iletrado sucumbia à letargia das horas iluminadas por sitcoms.

Nas últimas décadas, muito se falou sobre o poder premonitório do livro de Bradbury, e o século 21, cada vez mais anestesiado por telas de telefone, prova que o declínio no pântano da ignorância que começou com a TV atinge níveis assustadores na atualidade.

Talvez por isso a direção de arte do novo filme às vezes pareça retratar os lares burgueses das metrópoles de agora.

Na solidão estéril de seus apartamentos, os personagens falam com máquinas que sabem a previsão do tempo, escolhem suas roupas do dia e filtram as notícias da hora de acordo com pegadas que deixam nas redes sociais —coisa que a Alexa, da Amazon, ou a Siri, da Apple, já fazem.

"Se eu entrasse na sua casa e queimasse seus livros, você riria e baixaria todos de novo", diz Ramin Bahrani, diretor do novo "Fahrenheit 451", numa entrevista na torre da HBO, em Nova York. "Tinha de lidar com isso, com a internet."

E com o isolamento que ela provoca. Sua versão fez de Guy Montag, o bombeiro no centro da trama, um solitário, sem Mildred, a mulher que tinha no romance ou na primeira tradução da obra para o cinema, feita por François Truffaut em 1966.

Mas Bahrani logo acrescenta que a sua atualização não distancia o novo filme do universo original de Bradbury.

"Ele era contra esse bombardeio de sensações estúpidas. As coisas com as quais ele se preocupava estão aqui e parece que pedimos por elas."

O passo além de seu roteiro, no entanto, parece mais em sintonia com os Estados Unidos de Donald Trump do que com a obsessão por tuítes e curtidas.

É algo que se manifesta na pele de seu ator principal. O Montag do longa de Bahrani é ninguém menos que o astro do momento Michael B. Jordan, pinçado direto do set de "Pantera Negra", em que deu vida ao vilão Erik Killmonger.

Logo que conheceu o diretor, Jordan, que é negro, lembra que não gostou da ideia de interpretar o homem mais vistoso do batalhão dos queimadores de livros nesse longa.

"Não pude deixar de encarar Montag como o pitbull do governo, um opressor", conta o ator. "E via os leitores que ele prende como rostos negros. Não queria fazer uma figura autoritária dessas numa época marcada por tanta violência na minha comunidade."

Jordan, que se refere a vizinhanças de maioria negra como aquela onde cresceu, em Nova Jersey, diz ter notado que "estava programado para pensar isso por causa das notícias, de toda a propaganda".

Mas, conta, decidiu fazer o filme ao perceber que havia na produção questões raciais que não estavam no livro de Bradbury. "Vi que tinha perdido uma certa sensibilidade. E isso me fez querer fazer esse filme ainda mais."

Mesmo que Bradbury não tenha falado a respeito da cor da pele de seus personagens, Bahrani agora cria uma plataforma para Jordan viver outra espécie de super-herói negro no rastro de "Pantera Negra", o agente que se rebela contra um estado autoritário personificado por seu chefe branco.

No papel de Beatty, o capitão dos bombeiros, Michael Shannon também conduz os esforços de repressão e censura à literatura na ficção inspirado pela urgência da atualidade.

"Todos sabemos que há uma guerra contra a verdade em curso", conta o ator. "Vivemos numa época em que o conhecimento é precário, e estamos cada vez mais distantes dele."

Jordan, que teve o primeiro contato com a obra de Bradbury ao ler o roteiro, sente essa falta. "Devemos lutar pelas coisas que nos aproximam, coisas que podemos tocar e sentir. Isso é bem importante."

Fahrenheit 451

  • Quando Estreia na HBO no sáb. (19), às 22h
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Michael B. Jordan, Michael Shannon, Sofia Boutella
  • Produção EUA, 2018
  • Direção Ramin Bahrani

Livros incendiários

'Feliz Ano Novo'

O romance de Rubem Fonseca, de 1975, sofreu censura pelo regime militar no Brasil. A apreensão da obra, depois de um ano do lançamento e com 30 mil exemplares vendidos, tornou-se um dos símbolos do autoritarismo da ditadura.

'Madame Bovary'

Mais famoso romance de Gustave Flaubert, o livro fez o autor ser alvo de um processo judicial (no qual disse a famosa frase "Emma Bovary sou eu") por atentar contra a moral.

'Ulysses'

O clássico de James Joyce foi banido durante oito anos no Reino Unido, até 1936. Nos EUA, 500 cópias chegaram a ser recolhidas e queimadas. Um processo judicial famoso, em 1933, que analisava a suposta obscenidade da obra, acabou liberando-a.

'O Exército da Cavalaria'

Isaac Bábel foi um dos maiores contistas soviéticos, mas acabou preso e executado como inimigo do povo. Além de 'O Exército da Cavalaria', ele escreveu os 'Contos de Odessa'. Ao que tudo indica, seus inéditos foram destruídos pela KGB. O suposto romance que ele escrevia ao morrer virou uma lenda literária.

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