Descrição de chapéu cinema festival de cannes

Depois de 25 anos, Terry Gilliam enfim exibe 'The Man Who Killed Quixote'

Longa foi selecionado para fechar oficialmente o Festival de Cannes, neste sábado (19)

O diretor Terry Gilliam posa durante sessão de foto - Stephane de Sakutin/AFP
Guilherme Genestreti
Cannes (França)

​"The Man Who Killed Quixote" começa com um texto irônico: "Após 25 anos entre idas e vindas, eis um filme de Terry Gilliam".

O longa foi selecionado para fechar oficialmente o Festival de Cannes, neste sábado (19), depois de ter entrado na lista de obras "malditas" do cinema. Sua produção foi marcada por tumultos.

A trama também entrega mais doses de autoironia. Adam Driver vive Toby, um cineasta amalucado que enfrenta problemas para tocar sua adaptação do clássico de Miguel de Cervantes.

Trabalhando na Espanha, o diretor se vê acossado pelo produtor (Stellan Skarsgard) e pelas próprias ideias mirabolantes, que atravancam as filmagens. Toby encontra ali um ferreiro (Jonathan Pryce) que julga ser o próprio Dom Quixote e que toma o cineasta por seu Sancho.

Dado curioso: Driver, 34, tinha só 9 anos quando Gilliam deu o pontapé inicial no projeto. Caiu num papel que já passou pelas mesas de Johnny Depp, Robin Williams e Ewan McGregor.

Em 2000, com Depp escalado como Toby, Gilliam começou a rodagem, mas uma enchente destruiu o set. Depois, foi Jean Rochefort, contratado para viver Quixote, quem abandonou as filmagens, depois canceladas.

Problemas financeiros impediram o diretor de "Brazil" e "O Pescador de Ilusões" de tocar o projeto, que só foi retomado no final de 2016.

O lançamento quase não ocorreu. Um dos produtores, o português Paulo Branco, em disputa judicial com os demais, tentou impedir a exibição, mas não teve sucesso. Depois, foi Gilliam quem teve um AVC sem gravidade.

Na tela, o resultado dessa epopeia causa algum descontentamento, contudo. Avoluma atuações fora do tom e momentos cômicos que não arrancaram qualquer risada na sessão de imprensa —sendo que o diretor que é um dos fundadores do grupo Monty Python, praticamente uma unanimidade no quesito humor.

Na competição pela Palma de Ouro, um dos favoritos é "Capharnaüm", da libanesa Nadine Labaki. O drama social sobre um menino pobre que resolve processar os pais é cuidadosamente construído para arrancar lágrimas.

A primeira cena já mostra a que veio. Um garoto mirrado é levado com algemas pelos corredores de um presídio superlotado. Inquirido pelo juiz, diz mover a ação porque os pais lhe "deram a vida".

"Capharnaüm" tem todos os ingredientes de um "favela movie", com selo libanês.

Zain, papel do novato Zain Alrafeea, é um menino de 12, 13 anos (nem ele sabe quantos) que vive com a família semimiserável num cortiço em Beirute. O pai está preso e a mãe obriga que os vários filhos pequenos se virem vendendo sucos nas ruas

O que irrompe o conflito é uma cena que ilustra muito bem a forma com que Labaki quer manipular as emoções do espectador. Após ter sua primeira menstruação, a irmã preferida de Zain é rifada pelos pais para se casar com um homem mais velho.

A diretora põe Zain para viver uma sucessão de agruras nas ruas, que se tornam ainda mais agudas quando ele topa com uma imigrante etíope que também não tem como sustentar o filho bebê.

O cineasta cazaque Sergei Dvortsevoy também empilha infortúnios com "Ayka", sobre uma imigrante do Quirguistão que passa maus bocados em Moscou. Mas sua abordagem, contudo, é diferente da de Labaki: sobriedade em vez de emoção.

Quando a trama começa, a personagem-título acabou de dar à luz. Instantes depois, foge do hospital e abandona o bebê. O filme retrata suas aflições: a vida num cortiço atulhado de imigrantes, o subemprego num matadouro de galinhas e a hemorragia decorrente do parto.

Também está na competição o francês "Um Couteau dans le Coeur" (uma faca no coração), de Yann Gonzalez, com chances remotas de levar a Palma neste sábado (19).

A obra mescla pornô gay e estética "giallo" (terror italiano exagerado dos anos 1970 e 1980) para retratar uma produtora de filmes pornográficos, cujos atores acabam mortos por um maníaco.

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