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Philip Roth era o ápice da literatura americana desde Faulkner, diz Harold Bloom

Escritor morreu aos 85 anos após uma insuficiência cardíaca em um hospital em Nova York

Silas Martí
Nova York

"Ele representa o ápice da literatura americana desde a morte de William Faulkner", disse à Folha o crítico Harold Bloom sobre o escritor Philip Roth, morto na terça (22), aos 85 anos.

"Conhecemos um ao outro há muito tempo, e resenhei muitos de seus grandes livros. ‘Pastoral Americana’ e ‘O Teatro de Sabbath’ são os maiores, como os grandes livros do início da carreira de Thomas Pynchon. Ele representa o ápice da literatura americana desde a morte de William Faulkner, eles estão em pé de igualdade."

"Ele representa o dilema do homem moderno e dos seres humanos de todas as nações. Ele certa vez definiu o homem como um monte de argila com aspirações, penso que não há definição melhor. Uma vez, durante uma palestra que demos a uma plateia furiosa, ele me acalmou dizendo aquilo que era o lema dele. Ele se voltou para mim e disse para lembrarmos que estamos aqui para ser insultados. Era esse o seu humor negro e sua inteligência."

Bloom listava Roth como um dos possíveis autores a entrarem para o cânone ocidental.

Já o escritor Paul Auster lembrou à reportagem que o colega "era uma força e esteve entre nós por muito tempo".

"Eu sabia que ele estava morrendo, eu era amigo dele. Estou muito triste e sinto muito que isso tenha acontecido. Compartilhávamos Newark, era o lugar de nascimento de nós dois. Falávamos sobre isso muito. Ele era um colega mais velho, como um tio. Era uma força e esteve entre nós por muito tempo. Teve um impacto enorme que poucos escritores conseguem ter."

Biógrafo de Roth, Blake Bailey afirmou à Folha que "não há melhor analista do que é ser um americano na era pós-Guerra".

"Ele dominou as letras americanas pelos últimos 60 anos. É o escritor mais intimista que conheço em qualquer língua. Era um provocador. Em sua obra, ele evoluiu da fase em que construía convolutos jogos de espelho até o momento em que passou a escrever livros monumentais sobre a vida americana. Não há melhor analista do que é ser um americano na era pós-Guerra. Ele retratou os lados mais brilhantes e obscuros da vida americana. Ele gostava de posar para retratos com um rosto severo só para manter o público a uma certa distância, mas era caloroso e jovial. Só não gostava de gente pretensiosa, que é quando seu lado austero se manifestava."

Bailey trabalha há seis anos na biografia do autor, que sai em 2021. O biógrafo entrevistou Roth todos os anos desde que começou a escrever seu livro.

 

Veja a repercussão sobre a morte de Roth:

O escritor David Simon, que está adaptando à TV o livro "Complô contra a América", escreveu: 

"Memória: Meu único encontro com Philip Roth foi um dia depois que Kazuo Ishiguro havia ganhado o Nobel. Senti que precisava fazer uma piada: O que ele​ outro cara está fazendo com o seu prêmio? 'Não é como se tivessem dado para Peter, Paul and Mary.' Dylan havia vencido em 2016. Ele disse isso sorrindo."

Em outro post, disse:

"De modo improvável, tive a honra de conhecer Philip Roth alguns meses atrás para discutir uma adaptação de ‘Complô Contra a América’. Aos 85, ele parecia mais preciso e perspicaz, mais versado intelectualmente e francamente espirituoso que qualquer pessoa de qualquer idade. Que mente admirável e brilhante."

Já Michiko Kakutani, ex-crítica de literatura do New York Times, escreveu:

"Roth sobre Trump como um trapaceiro: 'ignorante sobre o governo, a história, a ciência, a filosofia, a arte, incapaz de se expressar ou reconhecer sutilezas ou nuances, destituído de toda decência e empunhando um vocabulário de 77 palavras que seria melhor chamar de idiotês que inglês'.​

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