Descrição de chapéu Obituário Philip Roth (1933 - 2018)

Escritor americano Philip Roth morre aos 85, em Nova York

Autor fez exploração do desejo, da decadência do corpo e da história americana

Maurício Meireles
São Paulo

Em 1969, Alexander Portnoy começou a contar suas angústias no divã de um terapeuta.

Está lá até hoje, a cada vez que um leitor abre as páginas para ler o monólogo hilário do protagonista de “O Complexo de Portnoy”, romance que trouxe fama a seu criador, Philip Roth, morto nesta terça (22) em Nova York, aos 85, de insuficiência cardíaca.

Foi uma das vezes em que o autor fez velhinhas corarem e provocou escândalo. Portnoy se masturbava em toda parte —no ônibus, em uma maçã, no fígado cru que sua mãe sempre dramática cozinharia para o jantar.

 

A comunidade judaica não ficou contente. Gershom Scholem (1897-1982), filósofo e teórico da cabala, disse que aquele livro era mais danoso aos judeus do que “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, famoso panfleto antissemita.

O pai do escritor discordava. Naquele ano, em um cruzeiro, distribuía exemplares com autógrafos: “Do pai de Philip Roth, Herman Roth”.

A verve de Roth vinha de cedo. Aos 13 anos, escreveu seu primeiro conto: um menino subia no telhado da sinagoga e prometia pular se sua mãe, o rabino e os populares não declarassem a fé em Cristo.

Mas seria redutor resumir sua obra apenas ao senso de humor, ao judaísmo ou às polêmicas —as acusações de antissemitismo foram só uma delas—, embora sejam características marcantes de sua literatura que enfrenta tabus.

Tratou, sim, da herança judaica, mas promoveu também uma investigação literária do desejo humano, sobretudo a sexualidade masculina. Foi também o romancista da decadência do corpo, com personagens dilacerados por ela, e realizou um retrato dos Estados Unidos no século 20.

Ganhou os principais prêmios literários, alguns mais de uma vez: dois National Book Awards, três PEN/Faukner Awards, um Pulitzer e o Man Booker International Prize, entre outros. Faltou o Nobel.

Sua obra completa está editada pela Library of Congress, americana, e pela Bibliothèque de la Pléiade, francesa —as mais prestigiadas coleções do mundo, direcionadas para autores clássicos. É muito raro que publiquem autores vivos.

Philip Milton Roth nasceu em 1933, dentro da comunidade judaica de Newark, principal cidade do estado de Nova Jersey. Começou a publicar em 1959, com “Adeus, Columbus”, pelo qual ganhou o National Book Award.

Embora a assimilação dos judeus na sociedade americana ainda fosse uma questão, Roth passou a retratá-los sem qualquer denúncia de opressão. Pertencia a uma geração que já se identificava como americana —e mal sabia falar o iídiche de seus avós.

A história dos EUA seria o tema de uma trinca publicada a partir dos anos 1990: “Pastoral Americana” (1997), sobre um pai que vê seu mundo desmoronar quando a filha promove um atentado; “Casei com um Comunista” (1998), sobre a paranoia macarthista; e “A Marca Humana” (2000), sobre a militância identitária e o politicamente correto.

Nos anos 1970, ainda sob a Cortina de Ferro, foi para a Tchecoslováquia conhecer escritores —mais tarde, editou pela Penguin a coleção Writers from Other Europe, ajudando a divulgar a obra de autores do Leste Europeu.

O auge de sua verve debochada foi “Teatro de Sabbath” (1995), que Roth via como sua melhor obra. Mickey Sabbath, o protagonista, é um de seus personagens mais fascinantes —um ex-titereiro velho e libidinoso, que entra em crise após a morte da amante.

Parte de sua obra —no Brasil editada quase toda pela Companhia das Letras— tem inspiração autobiográfica. Um dos alter egos de Roth é Nathan Zuckerman, escritor cuja vida tem paralelos com a do autor e que narra nove livros. Três deles compõem o volume “Zuckerman Acorrentado”.

“O Seio” (1972), história kafkiana de um professor que acorda transformado em um peito de mulher, tem como personagem David Kepesh, que também guarda semelhanças com o autor. Em “Operação Shylock”, o protagonista se chama Philip Roth.

Quando se achava que Roth estava esgotado, ele começou a publicar um livro por ano, de 2006 a 2010, quando decidiu abandonar a literatura —e passou a ficar em casa lendo principalmente não ficção.

Roth teve dois casamentos conturbados. O primeiro, de 1959 a 1963, com Margaret Martinson Williams —depois o escritor descobriu que ela fingira estar grávida para que cassassem. A ex inspira uma personagem de “Os Fatos”.

A segunda união foi com a atriz Claire Bloom, de quem se separou em 1996. Ela publicaria um livro de memórias, “Leaving the Doll’s House”, em que o acusava de ser controlador e misógino.

Misoginia e machismo, aliás, foram algumas das acusações vindas com frequência de feministas —que pareciam ignorar que os homens, na obra dele, são com frequência patéticos, frágeis, derrotados.

Nos últimos anos, vinha mantendo contato com o biógrafo Blake Bailey, para o livro que será a versão oficial de sua vida, a sair em 2021.
 

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