Com a morte de Philip Roth, Estados Unidos Perdem seu maior escritor

Maior escritor dos Estados Unidos, Roth era conhecido por livros como 'Pastoral Americana'

Jo√£o Pereira Coutinho

O escritor americano Philip Roth, vencedor do Pulitzer de 1997 por ‚ÄúPastoral Americana‚ÄĚ (1997) e considerado um dos maiores romancistas da atualidade, morreu nesta ter√ßa (22), aos 85 anos, de insufici√™ncia card√≠aca, em um hospital em Nova York.

Com sua morte, os Estados Unidos perdem o seu maior escritor. A frase poderá soar excessiva para alguns especialistas que sempre preferiram ver em Roth o protótipo do escritor judeu, interessado em explorar a condição da sua tribo em confronto com a sociedade gentia.
 
Essa interpretação é desmentida por toda a obra de Philip Roth e começa a sê-lo logo no primeiro livro, "Adeus, Columbus" (1959, ed. Companhia das Letras): sim, os personagens são judeus; mas Roth, em gesto que enfureceu os líderes da comunidade, apresentava personagens humanos, demasiado humanos, marcados pela fraqueza e mesmo pela indignidade.

O prop√≥sito era duplo: normalizar a condi√ß√£o dos judeus, retrat√°-los como parte imperfeita da nossa ra√ßa imperfeita, sem hagiografias ou exce√ß√Ķes de qualquer esp√©cie; e, por outro lado, orientar Roth para o seu tema de excel√™ncia: a cr√≠tica ao supremo mito fundador da Rep√ļblica. A ideia otimista de que podemos ser quem quisermos, onde quisermos, sem amarras de qualquer esp√©cie.

O escritor americano Philip Roth em foto de setembro de 2010
O escritor americano Philip Roth em foto de setembro de 2010; autor morreu na √ļltima ter√ßa (22), aos 85 anos - Eric Thayer/Reuters

A visão de Roth é menos benevolente e, no sentido kafkiano do termo, mais europeia: os seres humanos podem alimentar a ilusão de que são senhores do seu destino. Mas é a contingência que determina o que somos e, sobretudo, o que não somos.
 
Por isso, os her√≥is de Roth assumem propor√ß√Ķes essencialmente tr√°gicas, na dimens√£o cl√°ssica da palavra: eles s√£o exemplos de "hubris", partilhando a arrog√Ęncia ambiciosa de quem acredita na sua autossufici√™ncia para enfrentar for√ßas ou puls√Ķes que n√£o se controlam.
 
Essas for√ßas ou puls√Ķes podem ser de natureza sexual e sentimental, como acontece no caso de David Kepesh, obrigado a confrontar a "tirania dos afetos" em "O Animal Agonizante" (2001, ed. Companhia das Letras).
 
Mas tamb√©m podem ser as for√ßas e puls√Ķes da comunidade e Coleman Silk, figura central de "A Marca Humana" (2000, ed. Companhia das Letras), √© um exemplo particularmente pungente na galeria ficcional de Roth: Silk √© um afro-americano de pele clara que procura fugir aos condicionalismos do grupo, escondendo a sua condi√ß√£o de negro.
 
Ironicamente, ele acabará por ser destruído por um episódio "politicamente correto" que lida, precisamente, com as sensibilidades afro-americanas nos Estados Unidos da era Bill Clinton.

Essa presen√ßa da conting√™ncia √© recorrente na obra de Roth e por vezes assume contornos ag√īnicos menos tang√≠veis, como sucede em "Pastoral Americana" (1997, ed. Companhia das Letras), medita√ß√£o sobre a vida id√≠lica de Seymour Levov, um exemplar f√≠sica e moralmente impoluto de Newark que v√™ a trag√©dia desabar sobre a fam√≠lia sem que ele a possa antever ou evitar.
 
Na figura de Seymour Levov encontramos um antecedente dos personagens masculinos que povoam as novelas tardias de Roth, em particular Bucky Cantor de "Nêmesis" (2010, ed. Companhia das Letras), outro "self-made man" que acredita nas suas ilimitadas capacidades para moldar a sua existência.
 
Infelizmente, a ambi√ß√£o individualista de Cantor, tal como a de Levov antes dele, ser√° testada por uma margem de imponderabilidade: no caso, a epidemia invis√≠vel de poliomielite que ele n√£o consegue travar ‚ÄĒe, mais, de que ele √© um agente de cont√°gio.
 
Nascido em Newark, no estado de Nova Jersey, em 1933, Philip Roth foi o terceiro escritor americano, depois de Eudora Welty (1909-2001) e Saul Bellow (1915-2005), a ter a sua obra consagrada pela Library of America ainda em vida.
 
Um reconhecimento mais do que justo para um gigante das letras que seguiu os passos do seu mestre maior, Franz Kafka (1883-1924), na an√°lise ir√īnica e brutal da nossa insignificante condi√ß√£o terrena.

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