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Flip mostrará tentativas de Hilda Hilst de fazer contato com os mortos

Diretora Gabriela Greeb e sonoplasta Vasco Pimentel lançam filme com gravações da autora e participam da festa

A cineasta Gabriela Greeb
A cineasta Gabriela Greeb - Zanone Fraissat - 27.ago.12/Folhapress
Maurício Meireles
São Paulo

A Flip deste ano vai transmitir a voz de Hilda Hilst em suas tentativas de falar com os mortos. Uma mesa vai reunir a diretora brasileira Gabriela Greeb e o sonoplasta português Vasco Pimentel.

Os dois fazem parte da equipe do documentário “Hilda Hilst Pede Contato”, dirigido por Greeb, que estreará no dia 30 de julho —e que deve ser exibido na Flip.

A diretora também vai lançar um livro, com material extra do filme, como entrevistas completas da autora e algumas gravações na íntegra.

Nos anos 1970, Hilst, a escritora homenageada da Flip neste ano, fez experiências paranormais na Casa do Sol, sítio onde vivia em Campinas, em busca de contato com o que chamava de povo cósmico.

Com um rádio chiando ou música e um gravador em punho, circulava pela propriedade pedindo sinais dos mortos —que podiam incluir escritores como Clarice Lispector ou personalidades como o jornalista Vladimir Herzog. “Dá um pouco de medo”, ri Greeb.

As gravações feitas no período seguem inéditas e serão reveladas no documentário. Mas, embora seja possível ouvir supostas vozes do além respondendo à autora, o material é interessante pelo que revela da própria Hilst.

O diretor de som Vasco Pimentel, que participa da Flip
O diretor de som Vasco Pimentel, que participa da Flip - Divulgação

“O importante nessas fitas são os solilóquios da Hilda, pedindo contato com Cacilda Becker, Clarice Lispector...”, diz a diretora.

Hilst faz várias perguntas nessas gravações, muitas para escritores já mortos.

“É incrível, não, como as pessoas embelezam com a morte? Você sabe que o Proust foi uma coisa comentadíssima, a fotografia dele. Porque [a morte] deu uma dignidade para ele, uma importância no rosto dele que não havia, uma coisa assim de mais rigorosa”, dizia a autora.

“E na morte ele ficou genial. O rosto dele ficou sem toda a frivolidade que podia ter enquanto ele estava vivo. Desapareceu tudo, ficou grave, lindo.”

Greeb esteve à frente do documentário “A Mochila do Mascate” (2005), sobre o cenógrafo e diretor Gianni Rato. Depois desse filme, foi convidada por Mora Fuentes, melhor amigo e herdeiro de Hilda, para fazer o filme.

Já Vasco Pimentel é um dos principais diretores de som em atividade, tendo trabalhado com cineastas como Manoel de Oliveira (1908-2015), Miguel Gomes e Wim Wenders, que se inspirou em Pimentel ao compor o protagonista de “Viagem a Lisboa”. Ele se diz fascinado pela voz de Hilst.

“Presumo que seja por ela estar a tentar chamar os mortos, ela exprime-se de uma maneira, no música da voz, na prosódia, nas acentuações, que eu nunca tinha ouvido.”

“Você não fala assim com alguém na sua frente nem para uma audiência. Nem para Deus, numa reza. Já ouvi vozes em uma sessão espírita e também não são assim.”

Para Pimentel, as vozes gravadas por Hilst se explicam pelo fato de ela, com um gravador em punho, deixar o rádio sintonizado entre frequências, o que torna possível captar fiapos de emissões no meio do chiado. Ou seja, o que ela gravou são vozes reais, mas não as vozes dos mortos.

“Qualquer engenheiro de som sabe que esses postos [frequências] mal sintonizados por vezes trazem laivos, farrapos de outras emissões de rádio que podem vir da Rússia, da Romênia”, afirma.

A esperança da autora era que, assim como o rádio captava as ondas pelo ar, ele pudesse levar sua voz até os mortos e trazer de volta as respostas.

De todo modo, acrescenta o diretor de som, as gravações mostram uma poeta que não quer apenas dizer.

“Ela queria ser a antena dos seus mortos. E contradiz o clichê de que o poeta é um narcisista que quer que sua voz seja ouvida.”

No documentário, diz Greeb, essa procura por contato serve de metáfora para a busca de comunicação com o outro e, em última instância, com os leitores. Hilda Hilst foi por muito tempo considerada difícil e chegou a ser chamada de “tábua etrusca”. Só nos últimos anos sua obra passou a se popularizar.

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