Descrição de chapéu Cinema festival de cannes

Rixa com a Netflix e pressão de feministas devem dar o tom do Festival de Cannes

Mostra de cinema começa nesta terça (8) na França

Guilherme Genestreti
Cannes (França)

O Hotel du Cap-Eden-Roc é um resort de luxo incrustado numa rocha que brota do mar da Riviera Francesa. Foi num de seus 118 quartos que a atriz italiana Asia Argento afirma ter sido estuprada pelo produtor Harvey Weinstein enquanto o Festival de Cannes de 1997 transcorria, a poucos quilômetros dali.

A partir desta terça-feira (8), quando começar a 71ª edição da mostra de cinema mais importante do mundo, o espectro de Weinstein e as campanhas feministas Me Too e Time’s Up devem provocar debates inflamados na cidade.

A organização do festival está no centro de controvérsia com esses novos movimentos, conhecidos pela forte pressão que fazem contra homens acusados de crimes sexuais.

O júri que dará a Palma de Ouro neste ano tem maioria feminina —sob a presidência da atriz Cate Blanchett—, mas não passou batido pelas feministas o fato de que, dos 21 filmes em competição, 3 são de cineastas mulheres. 

Thierry Frémaux, diretor artístico da mostra, rebate as críticas: “Não escolhemos filmes por critério de gênero”. 

Neste ano, a seleção de diretores conta com nomes como os de Terry Gilliam, que já chamou o movimento Me Too de “turba”, e Lars von Trier, acusado de assédio sexual pela atriz e cantora Björk. 

As declarações de Frémaux encontram respaldo nas do diretor alemão Tom Tykwer, presidente do júri no último Festival de Berlim. Em fevereiro, o cineasta disse que o debate sobre assédio deveria deixar de apontar o dedo para indivíduos e se concentrar em questões maiores, como ética e abuso de poder. 

Vale lembrar que Cannes fica no mesmo país em que Catherine Deneuve e outras francesas assinaram um manifesto condenando estupros, mas alertando contra o “denuncismo” das colegas americanas.

São visões de europeus que colidem com o que impera do outro lado do oceano, em Hollywood, onde homens outrora poderosos caíram um a um sob o peso de acusações individualizadas, personalizadas. Processos judiciais correm em paralelo, e em outro ritmo. 

A própria decisão do festival de receber de volta o diretor Lars von Trier, sete anos após ele ter sido banido por dizer que compreendia Hitler, vai nessa mesma linha de separar o artista do homem.

Também revela uma tentativa por parte do festival de usar a polêmica como arma para se manter sob holofotes numa era em que a sala de cinema perde espaço para a TV (mais especificamente as plataformas de streaming).  

Estima-se que o mais poderoso estúdio de cinema, a Disney, valha atualmente US$ 150 bilhões. Mas a Netflix, o poder emergente que está remodelando a lógica de produção e distribuição da indústria, já chegou à cifra de US$ 138 bilhões e é cotada para ultrapassar a casa do Mickey no futuro. 

A Disney levará a Cannes o novo “Han Solo”. Já a Netflix rompeu com o festival francês ao rejeitar a exigência de projetar seus longas nos cinemas após exibi-los na mostra. 

Diretor de conteúdo da Netflix, Ted Sarandos afirmou à revista Variety que Cannes precisa “se modernizar”. 

“Escolhemos ser o futuro do cinema”, disse à publicação americana. “Se o Festival de Cannes está escolhendo ficar atolado na história do cinema, então tudo bem.”

Guia básico para acompanhar o festival neste ano

‘Go Home, Netflix’
Em 2017, o serviço de vídeo sob demanda foi criticado porque seus dois filmes em competição não estreariam nos cinemas. Neste ano, o festival propôs à Netflix levar seus longas para a telona após a mostra. Não houve acordo, e a gigante não vai ao festival.

Bem-vindo de volta
Quem retorna após ter sido banido é o dinamarquês Lars von Trier, que em 2011 disse que compreendia Hitler. O festival perdoou o agora ex-persona non grata e escalou seu superviolento ‘The House That Jack Built’ para sessões fora da competição. 

Agora é que são elas?
Em sua primeira edição pós-Weinstein, o festival terá um júri composto por maioria feminina e presidido pela atriz Cate Blanchett. Entre os nove jurados estão a diretora Ava DuVernay, as atrizes Kristen Stewart e Léa Seydoux e a cantora Khadja Nin.

À prova de vaia
Diretores poderão desfilar no tapete vermelho alheios às críticas sobre seus longas. Para evitar que os jornalistas massacrem os filmes antes das sessões de gala, as exibições para a imprensa agora vão ocorrer simultaneamente às projeções oficiais, e não antes, como era a tradição. Outra novidade: será proibido tirar selfies no tapete vermelho. 

Fiasco das galáxias?
Um candidato a ser vaiado é ‘Han Solo’, novo longa derivado da franquia ‘Star Wars’. Segundo jornais dos EUA, nem os estúdios Disney ficaram contentes com o roteiro e a atuação do protagonista (Alden Ehrenreich).

Um ‘Chatô’ europeu
Outro filme de produção tumultuada escalado para o festival é ‘The Man Who Killed Don Quixote’, de Terry Gilliam, longa que se arrasta há 20 anos. A obra está programada para fechar o festival, mas um de seus produtores, o português Paulo Branco, quer impedir a sessão porque move um processo contra os demais responsáveis pelo filme. 

Filmes para ficar de olho
Matteo Garrone (‘Gomorra’) volta a tratar da violência nas periferias italianas com ‘Dogman’. O turco Nuri Bilge Ceylan apresenta ‘The Wild Pear Tree’, sobre um escritor que volta à cidade-natal. E o polonês Pawel Pawlikowski, de ‘Ida’, exibe o romance ‘Cold War’.

O youtuber que chegou lá
A seleção oficial de Cannes, quem diria, se rendeu a um youtuber. E ele é brasileiro: Jônatas de Moura Penna, paulistano de 30 anos que fez a vida na Califórnia. Sob o pseudônimo de Joe Penna, ele dirige ‘Arctic’, drama de sobrevivência protagonizado por Mads Mikkelsen. 

Prata da casa
Veteranos não foram esquecidos. O octogenário Jean-Luc Godard compete com ‘Le Livre D’Image’, cercado de mistérios. Com ‘BlacKkKlansman’, Spike Lee fala de um negro infiltrado na Ku Klux Klan. E Wim Wenders mostrará seu documentário sobre o papa Francisco.

Politização à vista
‘Fahrenheit 451’ é nova adaptação da distopia de Ray Bradbury, com ecos no presente: esbarra em ‘fake news’ e em autoritarismo. ‘Les Filles du Soleil’ fala de um grupo de mulheres contra o Estado Islâmico. Já o iraniano Jafar Panahi exibe ‘3 Faces’, mas não vai à França porque é um preso político em seu país.

Rumo ao oriente
Neste ano, o festival reforçou sua presença asiática. O chinês Jia Zhang-ke leva o romance violento ‘Ash Is Purest White’. E o japonês Hirozaku Kore-eda conta a história de uma família de ladrões que adota uma garota em ‘Shoplifters’. O coreano Lee Chang-Dong contra-ataca com o suspense ‘Burning’.

Seleção brasileira
O país ficou de fora da competição, mas ‘O Grande Circo Místico’, de Cacá Diegues, terá exibição especial. Na mostra Um Certo Olhar, há ‘Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos’, de Renée Nader Messora e João Salaviza, rodado numa tribo indígena. E na mostra Quinzena dos Realizadores, o país é representado pelo drama ‘Los Silencios’, de Beatriz Seigner.

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